JOHN STURGES

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Jeopardy (EUA, 1953, 69’, p&b, noir, suspense). Direção: John Sturges. Produção: Sol Baer Fielding / Metro-Goldwyn-Mayer. Roteiro: Mel Dinelli, a partir da peça de rádio A Question of Time (22’), de Maurice Zimm. Com Barbara Stanwyck, Barry Sullivan, Ralph Meeker, Lee Aaker. Trilha: Dimitri Tiomkin. Fotografia: Victor Milner. Edição: Newell Kimlin.

Para aproveitar o fim de semana, Doug Stilwin (Barry Sullivan) e sua esposa Helen (Barbara Stanwyck), que narra a história, vão com o filho pequeno Bobby (Lee Aaker) pescar numa praia isolada da Baja California, no México. Doug quer reviver um bom momento quando jovem militar ali pescara com um camarada.

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O filho ignora a placa “Peligro” sobre o cais apodrecido e acaba prendendo o pé numas tábuas, e o pai, ao tentar resgatá-lo, cai com parte da estrutura, ficando com uma das pernas presa sob uma tora enorme e inamovível. A maré alta ameaça afogá-lo. A esposa, guiando o carro como uma louca varrida, busca socorro, mas os matutos mexicanos não entendem seu espanhol todo errado.

Helen pensa encontrar ajuda na figura de um americano que lhe aparece de repente à frente, mas ele a sequestra e não pretende ajudá-la em nada. Lawson (Ralph Meeker) não passa de um belo e cínico assassino escapado da prisão e procurado pela polícia mexicana. Mas essa é tão incompetente que, ao passar por Lawson fingindo dormir no ombro de Helen com uma arma encostada em seu flanco, de nada desconfia.

Além de atraente, Lawson é habilidoso: escapa facilmente da polícia, consegue trocar o pneu furado do carro sem o macaco, esquiva-se quando Helen tenta canhestramente matá-lo com uma barra de ferro. Depois, notando as habilidades do bandido, a mulher pergunta-lhe quanto tempo ele passou na prisão.

O ardor sexual dos anos sem sexo faz Lawson desejar intensamente a mulher. Helen promete entregar-se se ele a ajudar (“Eu faria qualquer coisa para salvar meu marido! Qualquer coisa!”). Ela finalmente o convence oferecendo-lhe ainda os documentos do marido para que Lawson possa escapar da polícia mexicana.

Lawson prova mais uma vez sua habilidade masculina conseguindo salvar o marido encalhado usando uma viga enorme como alavanca. Helen diz que está pronta para partir com ele, cumprindo sua palavra, mas ele desiste de possui-la e a devolve ao marido, que permanece alheio a tudo após quase morrer afogado.

Helen, que jurou odiar Lawson todos os dias de sua vida, acaba por livrá-lo da polícia mexicana escondendo o carro que os agentes abobalhados procuram, e aperta a mão do assassino habilidoso na despedida, como a selar um pacto estranho.

O menino Bobby, que não entende nada, mas intui alguma coisa, afirma ao ver o charmoso bandido partir no horizonte: “Ele é um grande homem!”. Helen conclui sua narrativa perguntando o que fariam outras esposas nessa situação.

O filme custou 589 mil dólares e rendeu mais de 1,6 milhão, um sucesso surpreendente. O diretor Sturges elaborou um acintoso paralelo entre a impotência sexual/homossexualidade do marido e a potência sexual/virilidade do bandido.

O marido sonha em reviver um momento feliz que teve com um camarada de sua juventude miliar (“Aquele sim foram bons tempos!”, diz inconscientemente à esposa). Ele fica deitado na areia enquanto a esposa cozinha, e é ela que deita sobre ele para beijá-lo. A comida fica pronta, mas ele não come: tem que socorrer o filho que prendeu a perna numa tábua do cais.

Durante boa parte do filme Doug fica encalhado, impotente, naquela praia fantasma: o passado é uma ruína, o velho cais (as lembranças douradas de sua juventude) é sustentado por um tronco podre (símbolo de um falo impotente) e ele permanece ali paralisado com o pé preso, infantilizado, como o filho que também prendera o pé e que ele fora tentar salvar, caindo na mesma armadilha.

O bandido escapado da prisão é um jovem inquieto, livre de amarras, com habilidades masculinas excitantes: dirige o veículo em alta velocidade, troca o pneu do carro sem o macaco, engana facilmente a polícia e arrebata a mulher beijando-a na boca com gosto e vontade. Esse macho alfa prova ainda sua potência salvando o marido quase afogado usando como alavanca uma enorme viga (símbolo de um falo vigoroso).

Helen, acomodada no matrimônio, mas algo insatisfeita, pois mais inteligente que o marido, pode ou não ter sido estuprada, mas está disposta a abandonar Doug e o filho aborrecido para seguir o bandido, alegando que “cumpre suas promessas”. Jeopardy é uma obra-prima de ambiguidades e alusões sexuais inquietantes como só o Código de Produção e os diretores que os transgrediam eram capazes de gerar.

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2 Respostas para “JOHN STURGES

  1. aloisio braglia

    assisti o filme e não vi homossexualidade no personagem do barry sullivan.

    • Então assista ao filme de novo prestando atenção ao subtexto. Ele quer voltar para aquele lugar horrível porque foi feliz ali com seu camarada, e diz mesmo que “aqueles tempos é que foram bons”, ganhando um olhar levemente ultrajado da esposa. Há uma sugestão de que a esposa esteja sexualmente insatisfeita com o marido, pois se deixa seduzir muito facilmente pelo bandido. O marido é representado como passivo, preso quase o filme inteiro sob o tronco, enquanto o bandido é mostrado como ativo, e mesmo sexualmente ativo, seduzindo a esposa. E há outros detalhes: o marido sob a esposa na cena do beijo, etc. Esses filmes clássicos, feitos sob o Código de Produção, eram cheios de sutilezas, porque não podiam abordar os temas sexuais abertamente, por isso também eles são geniais.

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