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COLECIONANDO CLÁSSICOS

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A cópia de The Painted Veil (O véu pintado, 1934), de Richard Boleslawski, com Greta Garbo, lançado em DVD pela editora COLECIONE CLÁSSICOS (CC), está uma vergonha. Eu tinha uma cópia do filme gravada da TV, que adquiri do simpático SEBO QUERELLE, e queria substitui-la por uma oficial, supostamente melhor.

Mas a cópia lançada pela CC é a mesma cópia da TV, e ainda por cima piorada: copiada da cópia da TV, para tapar o logo do canal que exibia o filme (mais discreto na minha cópia) colocaram um enorme e berrante selo COLECIONE CLÁSSICOS, que avacalha o filme do começo ao fim! Infame! Nem se fosse de graça isso podia ser oferecido ao público, e ainda cobram mais de trinta pilas!

Já a cópia de Susan Lenox (Susan Lenox, 1931), de Robert Z. Leonard, com Greta Garbo e Clark Gable, que a CC lançou está melhor que a vendida pelo SEBO QUERELLE, sem ser ótima. A lamentar, porque o projeto gráfico da COLECIONE CLÁSSICOS é acima da média. Mas não basta uma embalagem bonita e um encarte bem feito, em papel couché, com informações úteis sobre o filme, se a própria cópia não está em condições de ser exibida.

COLECIONE CLÁSSICOS poderia ser uma nova MAGNUM OPUS (que por seu lado descuida da parte gráfica), dedicada aos clássicos, já que a CONTINENTAL e a CLASSICLINE são outras vergonhas. Mas a CC já começou mal. Aliás, já me disseram que todas essas empresas pertencem ao mesmo grupo. Não sei. O que sei é que a VERSÁTIL e a LUME FILMES continuam sendo as únicas empresas mais confiáveis nesse setor.

Em tempo: a cópia de Juno and the Peycock (Juno e o pavão, 1930), de Alfred Hitchcock (filme que, como muito outros da fase inglesa do diretor, estava inédito em DVD no Brasil) pareceu-me razoável, e as de Swing Time (Ritmo louco, 1936), de George Stevens, e de Action in the North Atlantic (Comboio para o Leste, 1943), de Lloyd Bacon, todos lançados pela CC, estão boas. Esperemos que o forfait de The Painted Veil tenha sido uma exceção.

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NO MARROCOS, COM A CRÍTICA

Críticos em Casablanca: Nazario, Pereira, Toninho (em pé), Rubinho, Fonseca (agachados). Foto: Lambe-lambe.

Durante quase quatro anos fui crítico de cinema da revista IstoÉ, tendo como editores Geraldo Mayrink, Marília Pacheco Fiorillo e Humberto Werneck. Assistia às pré-estréias da meia-noite, às sessões matutinas com cafés da manhã, às sessões para a crítica nas pequenas cabines das empresas; usufruía de uma entrada permanente de cinema e fui um dos poucos críticos convidados pela Fox Films e pela Royal Air Marrocos para visitar, numa inusitada promoção, as locações do filme The Jewel of the Nile (As jóias do Nilo, 1985), de Lewis Teague. O Marrocos era, para mim, apenas um lugar no mapa, até que me encontrei, em 1986, junto a outros críticos de cinema, a caminho da África. Seguem-se páginas inéditas do diário de minha primeira viagem internacional: no Marrocos, com a crítica…

Para Toninho – que aniversaria hoje.

No aeroporto, pouco antes da partida, além da cansativa burocracia da viagem, paira a ameaça do terrorismo líbio: todos os passageiros são revistados. Dentro do avião, um fotógrafo da Folha imagina ver uma bomba na poltrona à nossa frente: “É um fio solto”, explica-lhe o comissário de bordo. Assim, com mais de uma hora de atraso, decolamos à 1h30 do Rio de Janeiro, com destino a Casablanca. O grupo de críticos convidados inclui Antonio Gonçalves Filho, Carlos Fonseca, Geraldo Mayrink, Edmar Pereira, Nelson Hoineff, Rubens Ewald Filho, mais alguns jornalistas da área de Turismo.

Logo a viagem se transforma numa festa. Cecília, um travesti a bordo, senta-se ao lado de Rubens, ocupando, por longas horas, a poltrona de Edmar, exibindo o álbum fotográfico de seus shows eróticos. Observando tudo à distância, Geraldo se pergunta: “Será o começo de uma grande amizade?”. Assim que se livra de Cecília, Rubens se explica: “Agora já tenho onde ficar em Paris.” Depois, tiramos um retrato em grupo e passeamos em vão pelos corredores à procura de poltronas livres para vermos o filme que seria exibido. Decepcionado, Geraldo toma conta do serviço de bordo: descobriu onde a aeromoça guarda os corpos e o vinho, e assalta a reserva.

Apagadas as luzes, um francês reclama que não estamos deixando ninguém dormir com nossas discussões intermináveis. Rubens mostra-se de mau humor: “Foi o pior jantar que comi num avião.” Ao descobrir que viajamos na segunda classe, explode: “Estamos no porão do Titanic! Somos os coitadinhos de E la nave va!”. E faz a expressão indescritível da gente lamentável que embarca clandestina no navio de Fellini. Os marroquinos já se aproximam de nós, entabulando conversas fiadas. Edmar exige de Maria Emília, a public-relations da Fox, uma sessão de haxixe como parte das programações. Rubens diz que eu, fumando, escreverei mais dez livros….

A música árabe nos fones de ouvido introduz-me no estrangeiro. De madrugada, Geraldo me chama para ver o espetáculo da aurora. Por horas a fio, o sol tinge o céu de vermelho, laranja, lilás, amarelo, dourado, acima das nuvens que parecem cordilheiras, ilhas, montanhas de algodão. Geraldo conclui: “É acadêmico, mas bonito.”

Chegamos esgotados em Casablanca. Um jovem guia bem apessoado que se apresenta como Youssef nos recepciona no aeroporto Mohamed V. Nota-se, pelo rosto empapuçado, que acordou bem cedo para cumprir suas obrigações. No microônibus que nos leva a Rabat, indiferente ao nosso cansaço, ele nos explica o país detalhadamente. Sua voz é monocórdica, com forte acento árabe no francês recitado. A certa altura, Rubens pergunta: “Mas ele não desliga?”. Geraldo geme e suspira. Edmar revira os olhos. Nelson se contorce. O mal-estar é geral, mas ninguém ousa interromper o falatório. Finalmente, comovido por tantas expressões de dor, peço a Youssef que se cale imediatamente. Desconcertado, ele se acalma aos poucos. A crítica me aplaude e enaltece. Um repórter do Estado toma-me por herói. Mas as duas jornalistas da Revista Geográfica Internacional, sexualmente interessadas em Youssef, censuram-me veladamente.

Do Hotel de la Tour Hassan, em Rabat, vamos almoçar no Royal Golf Der Salam, onde, às vezes, o rei joga golpe., É um clube esplêndido, com um bem cuidado jardim de violetas, margaridas e rosas selvagens do tamanho de uma mão espalmada. Durante o almoço, imaginamos Edmar se afogando na banheira com uma overdose de haxixe e as possíveis manchetes que o caderno 2 daria: “Alegria! E o coração de Edmar não suportou” ou “Afogado na banheira. Era Edmar”. Seguimos para conhecer o palácio do Rei Hassan II, o suntuoso mausoléu construído ao lado de uma mesquita do século XII, cuja torre desabou e que abriga os restos do seu pai, Mohamed V, a quem o Marrocos deve sua independência, desde 1956. Antes de chegarmos, Geraldo tem um ataque de nervos e manda parar o ônibus. Quer voltar sozinho para o hotel e descansar. Ele é deixado no meio da rua pelo jovem guia estupefato. Sem sequer saber o nome do hotel, ele vagou por toda Rabat, sem encontrar um taxi, e chegou ao hotel milagrosamente, bem depois de nós… Toninho observa: “Os críticos comportam-se como turistas-divas!”.

Diante da Torre Hassan, Youssef explica-me que para os muçulmanos o Paraíso ganha-se pelo despeito ao outro, pela crença em Deus e no Profeta, pela peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida e pelas cinco orações diárias. O ritual das abluções é parte importante da religião islâmica. Noto que não há imagens na arte: o antropomorfismo e o zoomorfismo são proibidos pela religião. Assim como o álcool: nos bares e cafés, freqüentados exclusivamente por homens, só se bebe café com leite e chá de menta.

O interior do mausoléu todo branco é composto de pastilhas multicoloridas, que culminam num enorme lustre de bronze. Lá embaixo, ao lado do túmulo, um homem reza sobre o Corão aberto, como a velar eternamente pela alma do soberano. Nosso estranho anfitrião, Mohamed Tazi, explica que ele é pago para isso. Edmar acha tudo “maquiado demais”. O fotógrafo da Folha não entra no edifício e, diante do meu espanto, justifica-se: “Não dá para trabalhar assim; não consegui fotografar direito nem a parte exterior”, confirmando a tese de Susan Sontag, que relaciona o ato de fotografar nas férias ao sentimento de culpa de quem se aferra a uma rígida moral do trabalho.

Logo ao chegarmos ao hotel, Fonseca sofre um infarto e é obrigado a permanecer em Rabat. Seguimos para Meknes, no mesmo dia. Antes, paramos em Khemisset, toda cor de terra roxa, onde há uma fonte surrealista, composta por três cavalos e um peixe de pedra coloridos. Aí, tomamos chá de menta com marroquinos, sentado de frente para aruá. Rubens comenta: “É isso o que eles fazem no domingo? Eu era feliz e não sabia.” Edmar aproxima-se de mim e sussurra em meus ouvidos: “Nazario, você não está chocado com o reducionismo da crítica, com a falta de compreensão?”. De fato, eu estava. Os campos de oliveiras, papoulas e margaridas; os minaretes, as cegonhas e os burrinhos não haviam liberado a afetividade dos críticos, apenas sua memória fotográfica. O próprio Edmar achava que a paisagem era “o melhor no gênero”. Toda visão era comparada ao décor de um filme já visto. Eram passados em revista todos os filmes cuja ação ou locação situava-se no Marrocos, de Morocco (Marrocos, 1930), de Joseph von Sternberg, a The Man Who Knew Too Much (O homem que sabia demais, 1956), de Alfred Hitchcock.

A sensibilidade dos críticos estava dirigida para as semelhanças, as correlações, as analogias. E nada lhes era sagrado. Se Youssef mostrava-nos o que para ele era importante, belo e misterioso, de tudo isso os críticos se apressavam a escarnecer, demonstrando sua indiferença. Eu me divertia muito com o grupo, mas o narcisismo, entregue a si mesmo, tornava-se freqüentemente agressivo. À falta de um filme, objeto-espelho privilegiado, os críticos decalcavam suas vítimas da realidade. Para tirar-me da depressão, Edmar começou a contar-me como, crescendo no interior de Minas, abandonado pela família, e dotado desde cedo de uma sensibilidade doentia, encontrava consolo em viver no pasto, com os animais da roça: “Fui boi, e também me apaixonei por uma ovelha.” E me enternecia narrando seu passado zoomórfico, sua infância zoofílica.

Em Meknes vimos o belo Portal de Challah, do século XIV, as portas monumentais de Bab Mansour, Bab Berdaine, Bab Jamaa Ennouar e Bab Khémis. Depois, o túmulo de Moulay Ismäes, segundo soberano da dinastia alauita. Foi uma espécie de Rei Sol do Marrocos, sonhando em casar-se com a filha de Luís XIV, enquanto se incumbia de decapitar pessoalmente os seus escravos. Ele teria gerado 800 filhos e construído inúmeros palácios para abrigar seu harém. Seus restos mortais encontram-se dentro da única mesquita acessível aos não-muçulmanos. Passando pela Bacia de Agdal, que irrigava os jardins do palácio, pelo Estábulo que – dizem – abrigava 12 mil cavalos, e pelo imenso e sinistro depósito de cereais, tenho a impressão de penetrar na pousada de um gigante. Enfim, mergulhamos no caos da Praça El Hedim, e voltamos para o hotel, sob o protesto das duas jornalistas insuportáveis e de Maria Emília, que ansiavam por estranhas aventuras nas vielas da cidade antiga.

Logo fomos surpreendidos com a pior notícia que eu poderia ouvir: como ocorria uma “reunião de líderes árabes” em Fez, o passeio a essa cidade, que estava programado no roteiro de nossas excursões, fora cancelado. Numa medida totalitária, especialmente revoltante para mim, que aguardava ansiosamente conhecer a universidade mais antiga do mundo, as autoridades simplesmente fecharam a cidade aos estrangeiros. Fiquei a imaginar que reunião levaria um governo a impedir, sem qualquer consideração para com os turistas que visitavam o país, o acesso a uma cidade histórica da importância de Fez.

No dia seguinte, fomos recompensados com uma visita às ruínas romanas de Volubilis. Era mais um episódio na história das conquistas sofridas pelo Marrocos. O país fez parte do império cartaginês, transformou-se na província da Mauritânia sob os romanos, foi tomado pelos árabes, declarou independência em 788, com várias tribos unificadas no século X pelos almorávidas até o século XV, quando portugueses e espanhóis apossaram-se de seus portos, só reconquistados no século XVII, para serem novamente perdidos para os franceses, até o início do século XX.

Volubilis é uma cidade-ruína. Segundo o guia local, ela foi soterrada pelo mesmo terremoto que arrasou Lisboa no ano de 1755. A população de dez mil pessoas sucumbiu. Nomeada com o nome de uma flor – volubilis – era uma cidade de luxo e conforto, com um grande arco, termas, banhos públicos, vomitórios, edifícios com mosaicos coloridos e dezenas de estátuas, das quais só restam os pedestais. Assistir ao por do sol em meio às ruínas de Volubilis foi uma experiência fascinante, mesmo para a endurecida crítica.

A caminho de Marrakesh, Youssef fornece-nos uma longa explicação – ele não perdeu o hábito de falar como matraca – sobre o casamento no Marrocos. No casamento tradicional, ao atingir 17 ou 18 anos, o filho diz para a mãe que quer se casar. Esta comunica a decisão ao pai, que procura o pai da moça que ele julga apropriada. Com uma troca de presentes, dá-se o pedido oficial. O espelho é um bom presente para as noivas: quanto mais rico o casamento, mais espelhos a noiva ganha para decorar seu quarto. Depois de uma semana de visitações entre os parentes, chega o grande dia, quando o noivo conhecerá sua futura esposa. Mas é só depois de consumado o ato sexual que ela pode tirar o véu e revelar seu rosto ao marido. É preciso então exibir às famílias o sangue no lençol. À vista desta prova de sucesso, as mulheres cantam com a língua a honra comprovada da família. Se isso não ocorre há escândalo e guerra tribal. Entre os berberes e montanheses, esse tipo de casamento ainda é bastante praticado. No casamento marroquino moderno, os ritos tendem a transformar-se em festas. Mas que ninguém se engane: os regulamentos continuam tão rígidos quanto nos casamentos mais tradicionais.

Marrakesh deslumbra à primeira vista por ser uma cidade toda ocre. Muralhas erigidas no século XI ainda a protegem por treze quilômetros. O minarete da Kutubia, de 67 metros, com um desenho diferente em cada uma das quatro faces, domina a paisagem. No palácio Bahia há alguns dos mais belos interiores em estilo almorávida. Visitamos o mausoléu da família real saadiana, do século XVI, mas, ao penetrarmos na necrópole por sinistros corredores estreitos, Rubens tem um acesso de tédio e decide voltar para dentro do ônibus, onde permanece lendo, ensimesmado, sua revista Première.

A guia local explica que cada dinastia transferia a capital para uma cidade diferente: no século X, os almorávidas passam a sede do governo de Fez para Marrakesh; no século XIII, os merinidas a transferem de novo para Fez; no século XV, os saadianos reelegem Marrakesh; depois, os alauítas preferem Meknes. Também cada dinastia destruía – verdadeira barbárie – os monumentos da dinastia anterior, por mais belos que fossem os edifícios, construindo os seus sobre as ruínas. Só as tumbas dos ex-soberanos eram poupadas. Por isso restam poucos exemplos de cada estilo arquitetônico.

À noite, percorro com Edmar e Toninho uma avenida tenebrosa, onde só se avistam de ponta a ponta, os retratos iluminados do rei Hassan II, afixados, poste sim, poste não, até o infinito, num anacrônico culto à personalidade. Caminho por esse horror de braço dado a Toninho, como dois marroquinos, notando a expressão de infelicidade no rosto de Edmar. Mais tarde, ele me confessa sentir inveja de todos os prazeres alheios. Por isso, à noite, quer me tirar para dançar na boate do Hotel. Sem a menor vontade de dançar, declino do convite. Rubens tira para dançar cada uma das jornalistas sem atrativos, e Geraldo lhe diz, à parte: “Hum… Você só pega mulheres sensuais!”. E assim a noite se esvai.

O almoço típico em tenda árabe, com um show de “Folclore e Fantasia” a convite do Club Mediterrané ultrapassa os limites do ridículo, A chamada “Fantasia” é uma espécie de Disneylândia das Arábias. Originalmente, devia ser uma encenação épica sobre as origens do povo e a unificação das tribos, Agora, tudo se passa ao som do Bolero de Ravel, e a cavalgada dos guerreiros é acompanhada de um comentário “poético” nauseante. Salva-se a comida, apesar da necessidade de se usar as mãos. Os grupos folclóricos cantam e dançam durante o almoço, repetindo versos em homenagem ao rei.

Visita ao mercado: um labirinto do qual não se sai enquanto não se gasta até o último dirham. Contam que um turista ali se separou da esposa loira e nunca mais a encontrou. O detalhe da cor dos cabelos da mulher serve para dar verossimilhança à lenda… Mas o mercado parece, de fato, ser um palco onde se perpetram todos os crimes. Na Praça Djema el F’na, perco-me do grupo, atraído por uma moça berbere, coberta por um véu lilás, que me leva, hipnotizado, para sua alcova. Perdido na multidão, eu a sigo sem avistar meus companheiros de viagem. Já começo a me sentir inquieto quando o pai da moça propõe-me a compra de haxixe. Digo-lhe que não estou interessado, mas que meus amigos estavam. Ele então me leva de volta ao grupo e posso dizer triunfante a Edmar e Nelson: “Encontrei o homem do haxixe!”. Os dois, que só falavam disso a viagem inteira, empalidecem. Não esperavam por esse serviço de delivery.

Logo depois, Edmar, sentado ao meu lado no bar diante da praça, disse-me contente: “Me encantam as pessoas que vêem para vá, se drogam, e ficam por aqui, se destruindo lentamente. Os Guarás que ficaram!”. Eu engolia meu chá de menta, que fizera Edmar pagar pelos serviços prestados, refletindo até que ponto a droga e o sexo não eram, no Marrocos, apenas dois chamarizes míticos para atrair turísticos. Eu não via nada parecido aqui com a decadência evocada em certos filmes, nem percebia o erotismo decantado pelos escritores homossexuais, de André Gide a Pier Paolo Pasolini, de Joe Orton a Jean Genet. Mesmo Elias Canetti precisou recorrer a uma história de alcova para registrar algo de mais excitante em As vozes de Marrakesh.

Os homens marroquinos amavam-se mais do que o comum: os jovens sempre andavam abraçados. Mas isso se explicava por uma fraternidade ostensiva contra os pais autoritários. No Marrocos, é o pai quem educa o filho para que herde seu nome, obrigando-o ao respeito das tradições. A educação é severa, implicando em surras com vara. Por isso o filho só ama a mãe, a quem pede dinheiro. O pai é uma besta negra, um monstro. Daí o apego aos amigos: vimos até dois jovens na estrada, cada um na sua bicicleta, agarrados um ao outro, sob o risco de caírem de seus veículos. Mas essa amizade masculina não se expande para o terreno da sexualidade, que permanece o maior tabu, nem diminui o machismo dos homens marroquinos: sob o pretexto de serem sagradas, as mulheres sofrem as maiores restrições sociais.

Levamos quase quatro horas na viagem de Marrakesh a Ouarzazate. Pouco a pouco, fui sendo tomado pela angústia do deserto. As paisagens sem cor, sem vida, sem gente ofereciam apenas a visão árida de montanhas de pedras. Aqui e ali casas de argila, pastores de ovelhas, meninos conduzindo camelos. Geraldo, que insistia desde São Paulo em ser fotografado junto a um camelo, ficou radiante ao avistar os bichos. Paramos para as fotos. Mais tarde, ele ainda nos mostrava um postal de camelos que encontrara numa tabacaria: “Um camelal”, exclamava, sorrindo como uma criança.

Admirei a beleza dos Atlas, vistos pela estrada sinuosa de 1675 curvas, a uma altura de mais de mil metros, que, sem nenhuma proteção, nosso motorista percorria, impassível diante dos abismos e dos precipícios. Rubens comentou: “Só falta o Fonseca ser o único sobrevivente!”. As curvas fechadas, a conversa sussurrada, o fumo que impregna o ar já rarefeito e a música árabe repetitiva que Youssef insiste em colocar no seu gravador – tudo me enjoava. Eu via os cactos subindo pelas montanhas, as cabras sustentando-se nas escarpas e os montanheses recostados nos casebres de argila e palha de trigo como restos de vida que se agarravam aonde podiam, até se extinguirem completamente. Tinha a impressão de um vazio devorando tudo, e subitamente percebi o efeito das miragens. Elas vinham como uma projeção da consciência evocada pelo vazio, como as últimas reservas da imaginação que não queria acabar assim.

Chegar a Ouarzazate foi como chegar a um oásis. As casas ocres, as construções em arcos, aquela pequena civilização germinando com seus bares, cinemas e hotéis – essa aparição de algo no meio do nada revigora os sentidos. No hotel Club Karam turistas francesas em topless tomam sol numa indolência generalizada. Olho um canteiro de flores e vejo a terra rachada: “Flores esturricadas!”, comenta Geraldo. As pessoas vêem no inverno de Paris para Ouarzazate em vôos diretos, em busca do sol. Não há nada a fazer aqui, exceto tomar sol. Eu procuro em vão um companheiro de escândalo.

Depois do almoço, visitamos a Kasbah do século XVIII, feita de argila e palha, que guarda o calor. Ali, as mulheres só podiam observar os espetáculos que se davam no pátio através das grades das janelas. O quarto da favorita é sempre o mais ricamente decorado, assim como o seu túmulo. Nesta Kasbah, há um curioso “interfone” – uma espécie de encanamento retangular que fazia o som ecoar através dos cômodos – através do qual o paxá falava de um andar a outro. Já que lamentavelmente não nos foi permitido conhecer Fez, chegamos, enfim, ao ponto mais fantástico de nossa visita ao país: uma Kasbah antiqüíssima e monumental erguida no deserto, como se, durante alguma noite mágica, a terra tivesse sonhado, e esse sonho se tivesse tornado realidade.

Ao voltarmos de Ouarzazate, passamos por um grupo de pessoas que observavam o infinito. Imaginamos que elas olhavam as estrelas e pusemos também a mirar o firmamento, enquanto Rubens puxava um cordão musical entoando sucessos da Bossa Nova. Mais tarde soubemos que naquele trecho da estrada caíra um ônibus carregado de turistas franceses: todos haviam morrido.  As pessoas não estavam mirando estrelas, mas cadáveres destroçados.

Chegou, enfim, a minha vez de passar mal. Embora comendo pouco, à noite tenho vômitos e diarréias. Desço às três da manhã até a portaria do hotel. O responsável diz que está desolado, mas não tem remédio. Como desolação não cura, uma ânsia incontrolável me leva a sujar o tapete. O atendente resolve então chamar o médico, que chega meia hora depois. Trata-se, na verdade, de um jovem residente, que queria dar-me uma injeção usando uma seringa velha e usada, sem ter sequer álcool e algodão. Propõe usar meu perfume francês como desinfetante. Como a idéia não me entusiasma, receita-me comprimidos e cobra-me 20 dólares pela visita. Promete voltar se eu não melhorar.

Uma hora depois, os fluidos do meu corpo recomeçam a fugir. Olho para o espelho e vejo um fantasma. Torno a chamar o residente. Ele agora traz álcool, algodão e uma seringa descartável (que deve ter comprado com parte dos meus 20 dólares). Mas sem aquela borrachinha para pressionar minha veia, faz força com as mãos. Espeta primeiro meu braço direito, depois o esquerdo, à procura de uma veia, em vão. Eu sangrava e tinha os braços arroxeados. Abatido, eu reclamava em francês, sentindo-me como um junkie agonizando depois da última picada. Tudo tinha para mim o sentido horrível de uma iniciação.

Com o infarto de Fonseca, a diarréia generalizada, a estrada à beira do abismo e a minha forte intoxicação, Rubens começou a desenvolver uma teoria conspiratória. “Querem acabar com a crítica! Envenenaram a comida, levaram-nos à estrada mais perigosa. E agora, qual será o próximo passo?”. Havia algum temor real na piada: Rubens era tremendamente supersticioso: à mesa, jamais passava o sal a outra pessoa, “para não secá-la”; ficou assustado quando, no almoço, contou treze à mesa, logo se aliviando com a lembrança de que a desgraça só ocorria ao mais velho ou ao mais novo, estando ele fora de perigo. A melhor definição de Rubens havia sido dada por Edmar: “Adoro o Rubens, mas ele é um turista da condição humana. Nunca mergulha fundo, nunca se perde no vício.”. Da mesma forma, a melhor definição de Edmar fora dada por Rubens: ”Adoro o Edmar, mas quando ele cisma com alguma coisa, começa a inventar teorias absurdas, que defende com uma coerência absoluta, e se você as contesta, ele inventa teorias ainda mais absurdas.”

No ônibus a caminho de Casablanca sento-me ao lado de Maria Emilia. Entre uma gargalhada e outra, ela nos transmitia informações corriqueiras como se fossem segredos de Estado. Pessimista, achava sempre que o pior estava para acontecer. Também recebia todas as broncas do grupo e, como um pára-raios, vivia num estado de tensão e desânimo permanentes. Só o sexo poderia aliviá-la. Mas ela tentava em vão. “Voltarei pura para o Rio”, não cansava de se queixar, entre risadas histéricas. O jovem repórter do Estado esperava sempre Maria Emília aparecer para o jantar com medo nos olhos: “Ih…!”, dizia-me, “a Maria Emília vai chegar toda emperiquitada!”. De fato, depois de uma excursão exaustiva, ela retornava refeita, num outro modelo verde de pano áspero, enforcada num colar de metal brilhoso, que lhe caí até os joelhos. Outra noite, voltando para o quarto, Geraldo e eu tomávamos o elevador quando ela veio correndo atrás de nós, tentando nos alcançar: “Esperem por mim…!”. Mais que depressa, Geraldo sussurrou: “Nem morta!”, pressionando com força o botão que fechava a porta.

No ônibus a caminho de Casablanca, sentada a meu lado Maria Emília me fala do Papa João XXIII e do dia em que quase foi violentada em Roma; de suas dores de rins e de seu desejo de ser seduzida por um milionário; das orações que os muçulmanos são obrigados a fazer e de suas íntimas fantasias eróticas; no auge da carência, ela me confessa de repente, num gemido entrecortado de risos nervosos: ”Eu já não sei quem sou!”.

Casablanca é uma cidade moderna, mas não deixa de ter seu encanto. Todas as edificações são como indica seu nome: de cor branca. É um entreposto comercial, com bairros residenciais luxuosos. Há um palácio enorme com uma passagem subterrânea de sete quilômetros que dá diretamente numa praia particular. O mar é bravio, há poucas margens para os banhistas. Mas os cafés a beira-mar são mistos e agradáveis. Passo por Casablanca como que por um sonho. Ainda enfraquecido, sou apenas a sombra de mim mesmo. Mas ao tirar fotografias num lambe-lambe da Praça das Nações Unidas, sinto-me revigorado. Edmar comenta: “O Nazario se recuperou depressa!”. Depois, achando-me bem em todas as fotos, exclamou no ônibus: “O Luiz Nazario é a Sônia Braga! Nas fotos ele fica alto, bonito…”. (Mais tarde mostrei a meu irmão médico a receita do remédio que o residente marroquino me injetou: ele me disse que a dose seria mais indicada para curar um cavalo…).

No mercado popular, compro caftans típicas, almofadas, tapetes e maravilhosas caixinhas de madeira marchetada. No hotel adquiro o Corão na edição da Pléiade para entender essa estranha religião que mantém os povos que a adotam numa eterna Idade Média. Em toda parte, constato a verdade de uma observação de Youssef: as pessoas aqui são pobres, mas não miseráveis. Há lugares onde se pode comer e beber por um dirham. Assim, ninguém morre de fome. E essa perspectiva alegra o povo. Não se vê, mas ruas, o espetáculo da gente-trapo se decompondo nas sarjetas, tão familiar entre nós. Os marroquinos trabalham pouco e se divertem na pobreza. Por isso tampouco há progresso…

Em nosso último almoço, Geraldo observa que, na outra mesa, as jornalistas de turismo estão se divertindo muito, e pela primeira vez parecem mais alegres que nós. “Não podemos ficar por baixo”, argumenta. E, subitamente, começamos todos a rir sem motivo, numa hilaridade que começou por provocação e terminou incontrolável. Toninho, que não ouviu a proposta, fica aflito por ter perdido a piada. É difícil explicar-lhe que, aqui, a piada é o nosso próprio riso orquestrado.

De volta a São Paulo, concluo ter feito uma viagem programada do começo ao fim, sem surpresas nem explorações pessoais. Mas uma frase de Kathleen Turner, explicando como foi rodar as engraçadas cenas da corrida de trem em As jóias do Nilo, no Marrocos, onde a vemos balançando as pernas, dependurada num vagão, acaba por me livrar de todas as decepções: “É claro que eu estava amarrada por uma porção de cordas e não havia perigo de cair. Mas depois você volta para casa e se pergunta se todo mundo faz esse tipo de coisa.”.

Luiz Nazario e Antonio Gonçalves Filho em Casablanca. Foto: Lambe-lambe.

HOLLYWOOD NA GUERRA

Confessions of a Nazi Spy (Confissões de um espião nazista, 1939), de Anatole Litvak: o primeiro filme diretamente antinazista produzido em Hollywood.

Entre 1933 e 1939, Hollywood não produziu sequer um filme diretamente relacionado com o fascismo italiano ou o nazismo alemão. Uma rara exceção é The Life of Emile Zola (A vida de Émile Zola, EUA, 1937), de William Dieterle, que tratou do antissemitismo no caso Dreyfus em metafórica conexão com a situação contemporânea na Alemanha nazista, transportando a ação para a França do século XIX. As razões do apoliticismo de Hollywood eram de origem ideológica e econômica: os grandes estúdios, como a Paramount, a Fox, a MGM, exportavam seus filmes para a Itália e a Alemanha. A MGM possuía até mesmo um funcionário exclusivamente encarregado de “limpar” os nomes judeus dos créditos dos filmes exportados para o ‘Terceiro Reich’, que podia assim assisti-los com sua consciência racista mais tranqüila. Os produtores de Hollywood – em sua maioria de judeus que não queriam ser vistos como judeus – atinham-se ao princípio de que a indústria de cinema era essencialmente uma indústria de entretenimento, respondendo à necessidade que o público tinha de evasão da realidade. De fato, os filmes antinazistas não eram bem recebidos pelo público. Somente a partir de 17 de dezembro de 1941, com a entrada dos Estados Unidos na guerra, após o ataque a Pearl Harbor, é que o cinema industrial americano aderirá à propaganda de guerra.

O governo Roosevelt oficializou a produção de filmes de propaganda antinazista estabelecendo a meta de 125 filmes a serem produzidos em Hollywood com seu apoio, como parte do reforço de guerra. O OWI – Office War Information coordenava a produção, sob a direção de Elmar Davis, rádio- jornalista da CBS, e de Lowell Mellett, coordenador do Motion Picture Bureau. Eles trabalhavam com Hollywood para a produção de documentários de curta e longa metragem e das atualidades America Speaks. Essa produção pode ser dividida em duas linhas: a dos filmes militares e a dos filmes políticos. Os primeiros focavam histórias de quartel, com treinamento de soldados, ensaios de batalha e batalhas; os segundos denunciavam a espionagem nazista, os perigos da doutrina racial alemã, o totalitarismo. Todos exaltavam a mobilização e o patriotismo. Esse cinema também refletiu o novo papel de responsabilidade e comando atribuído à mulher. Logo no início dessa produção, conflitos entre as agências do governo e os produtores de Hollywood levaram a um acordo, com o reconhecimento do governo de que o filme deveria permanecer um entretenimento e, para produzir esse entretenimento, os agentes encarregados de intervir em Hollywood não tinham qualquer competência. Os produtores obtiveram a permissão de continuar seu trabalho de propaganda sem a intervenção do OWI.

No cinema antinazista americano produzido durante a guerra, um grupo de filmes (dramas, policiais e comédias) forçaram Hitler a atuar como personagem de suas tramas após a paródia pioneira de Charles Chaplin que “dublou” Hitler como Hinkel em The Great Dictator (O grade ditador, 1940): Citizen Kane (Cidadão Kane, 1941), de Orson Welles, com Carl Ekberg no papel; Man Hunt (1941), de Fritz Lang, com Ekberg; The Wife Takes a Flyer (1942), de Richard Wallace, com Ekberg; The Devil with Hitler (1942), de Gordon Douglas, com Bobby Watson; Hitler, Dead or Alive (1942), de Nick Grinde, com Watson; Once Upon a Honeymoon (1942), de Leo McCarey, com Ekberg; Star Spangled Rhythm (1942), de George Marshall, com Tom Dugan; Nazty Nuisance (1943), de Glenn Tryon, com Watson; The Strange Death of Adolf Hitler (1943), de James Hogan, com Ludwig Donath; e The Hitler Gang (1944), de John Farrow, com Watson. Além desses filmes, os grandes estúdios também produziram animações de guerra apresentando o personagem Hitler: Blitz Wolf (1942), com a voz de Bill Thompson dando vida ao cartum Adolf Wolf; e Tin Pan Alley Cats (1943), Scrap Happy Daffy (1943), Spies (1943); Daffy – The Commando (1943); Russian Rhapsody (1944); Plane Daffy (1944); Herr Meets Hare (1945), com a voz de Mel Blanc dando vida ao cartum de Adolf Hitler.

1. Filmes militaristas: patriotismo e guerra

Waterloo Bridge (EUA, 1940, p&b, drama, guerra). Direção: Mervyn LeRoy. Com Robert Taylor, Vivien Leigh. De partida para a Segunda Guerra, um aristocrático oficial inglês (Taylor) pede ao seu motorista particular para fazer uma parada na Ponte de Waterloo. Ali ele recorda um velho caso de amor que viveu durante a Primeira Guerra. Conhecera, naquela ponte, uma jovem bailarina (Leigh), durante um alerta de ataque aéreo. Apaixonaram-se, tentaram casar-se, mas antes que pudessem selar o compromisso, ele foi mobilizado. No dia seguinte, ela se viu despedida da companhia pela autocrática diretora.

Com uma amiga que tomou suas dores, demitindo-se da companhia, ela vive agora num apartamento miserável. As duas mal conseguem alimentar-se: primeiro a amiga, depois ela, acabam por se prostituir. Sem nada saber da situação da ex-bailarina, a mãe do oficial deseja conhecê-la e marca um encontro com ela num café. Atrasa-se, porém. Enquanto espera a dama, a jovem distrai-se lendo um jornal. Depara-se, subitamente, com uma lista de mortos na guerra: ali está o nome de seu amado. Alucinada de dor, ela se embebeda. Quando a velha dama chega, a jovem, incapaz de mencionar a lista, acaba fazendo uma péssima figura para a ex-futura sogra. Mais tarde, caçando soldados na estação, a ex-bailarina vê o oficial que retorna: tudo não passara de um mal-entendido, ele tinha sido apenas ferido.

O tempo passara e ele, mesmo sem contatar a ex-bailarina, nunca deixou de amá-la. Assim, quer agora apresentá-la como sua noiva à sociedade. Ele a leva a uma recepção em sua mansão, onde toda a nobreza se encontra. Todos ficam encantados com a graciosa donzela de coração puro. Mas ela sente viver uma farsa, temendo ser reconhecida por algum ex-cliente a qualquer momento. Não suportando enganar aquela família tão nobre, foge dali na calada da noite. A ex-bailarina não poder viver sem seu grande amor, nem tem coragem de contar-lhe a verdade sobre seu passado: acaba se jogando sob as rodas de um caminhão, bem ali, onde o oficial agora recorda tudo isso – na Ponte de Waterloo.

Waterloo Bridge não é um filme militarista, nem um drama de espionagem contendo uma clara mensagem antinazista. Trata-se, na verdade, de um dos mais belos e tristes dramas românticos da História do Cinema. Tem apenas, como pano de fundo, a mobilização dos ingleses durante a Segunda Guerra. Sua realização constitui, contudo, uma forma de solidariedade política, mas sem qualquer exagero: o patriotismo da mobilização é tratado de forma sutil e crítica, na medida em que destrói a felicidade do casal, sem qualquer redenção.

To the Shores of Tripoli (Defensores da bandeira, EUA, 1942, 85’, cor, drama, guerra) Direção: Bruce Humberstone. Com John Payne, Maureen O’Hara, Randolph Scott. Um playboy despreocupado (Payne) é enviado pelo pai ao seu amigo sargento (Scott) para que ele seja duro com ele e o faça um fuzileiro da Marinha dos EUA. O treinamento do sargento durão testa a paciência do recruta arrogante, mas à medida que este se integra na tropa seu egoísmo cede aos impulsos de bravura que estavam nele adormecidos: ele consegue “domar” uma tropa a base de sopapos e salva o sargento durão que, desacordado numa queda, estava ameaçado de ser atingido junto ao alvo do “tiro ao alvo” dos navios bombardeiros.

Paralelamente, ele conduz mal seu romance com a bela enfermeira-tenente (O’Hara) que se enamora dele, mas o evita por suas ambigüidades: assediada quando ele finge estar contundido após um atropelamento fingido (apenas para ser enviado à enfermaria), ela percebe a farsa e aplica, nas suas “contusões”, um emplasto de mostarda que o faz gemer de dor, no dia seguinte, com queimaduras no peito e nas costas – que ela desenhou em forma de V de Vitória – contorcendo-se com as pernas nuas amarradas em tipóias. O sadomasoquismo da enfermeira que assim demonstra sua independência parece justificado quando ela testemunha, conduzida a um estacionamento pelo playboy, outro marinheiro assediando uma garota comum no automóvel da frente.

Naquele local de namoros motorizados, a enfermeira e o playboy assistem passivos ao “estupro” da garota, que rejeitava os avanços do marinheiro até que este a beija com violência, fazendo-a assim ceder ao desejo estimulado. A enfermeira fica chocada enquanto o playboy sorri compreensivo e tenta fazer o mesmo com ela, mas a garota é firme em sua negativa e o playboy, ao contrário do outro marinheiro, desiste do “estupro” – ele está realmente apaixonado pela enfermeira. De volta da aventura, esta reflete: “Talvez eu precise ser psicanalisada!”.

Quando o treinamento termina, o playboy, que não conseguiu sexo no quartel e se sente traído pelo sargento durão, que conluia com seu pai, desiste da Marinha e volta para a vida civil junto à velha namorada, mas no carro os dois ouvem a notícia de Pearl Harbor. A garota não acredita naquilo e conclui, na melhor cena do filme: “Ah, já sei, é mais uma de Orson Welles…”. Confirmada a notícia, porém, o playboy salta do carro e, num acesso de patriotismo, se junta à tropa em desfile a caminho da embarcação, trocando de roupa em plena rua, protegido pelos marines: ele joga fora aos trajes de civil e enverga o uniforme, dizendo: “Send us more japs!” (“Mandem-nos mais japas!”). Indicado ao Oscar de Melhor Fotografia pelo seu belo Tecnicolor, o filme foi rodado com a colaboração da United States Marine Corps e contém cenas autênticas de treinamento em terra dos fuzileiros navais.

Bombardier (Bombardeio, EUA, 1943, p&b, guerra). Direção: Richard Wallace. Com Randolph Scott, Pat O’brien, Robert Ryan. O treinamento dos artilheiros da aeronáutica norte-americana mostrado em detalhes, evidenciando o surdo conflito, durante a guerra, entre os métodos tecnológicos norte-americanos e os métodos artesanais dos ingleses. Estes privilegiavam os pilotos que se arriscavam aproximando-se ao máximo fisicamente do alvo tendo apenas 30 segundos para bombardeá-lo e tentar escapar; mas eles eram facilmente detectados pelos radares, enquanto os bombardeiros americanos valorizavam os artilheiros treinados para acertar o alvo voando a oito mil pés de altitude, ao abrigo dos radares, e utilizando equipamentos avançados que incluíam uma nova mira ultra-secreta e cujo segredo era protegido pelo juramento da tropa de protegê-lo ao preço da própria vida.

Estes métodos mais eficientes trazem como conseqüência a desvalorização do piloto e certa facilitação ética: não correndo mais tantos riscos e não se aproximando tanto de seus alvos, os artilheiros podiam bombardear as cidades e suas populações com a consciência mais tranqüila. Apensa um recruta demonstra preocupações éticas, mas essas são sanadas quando o superior ensina-lhe a oração do bombardeio, jurando destruir apenas as fontes do mal – os alvos militares, fábricas de armamentos, etc. Contudo, como Dresde e Hiroshima provaram que nem sempre os artilheiros seguem suas orações à risca. A primeira seqüência do filme já o demonstra: os militares americanos, depois de assistir a um filme mostrando os Stukas em ação, elogiam a eficácia dos métodos nazistas de bombardeio e decidem superá-los em eficiência.  As cenas finais do bombardeio de Nagoya – em represália ao ataque a Pearl Harbor – são verdadeiramente impressionantes.

Thirty Seconds Over Tokyo (30 segundos sobre Tóquio, EUA, 1944, guerra). Com Spencer Tracy. Pilotar um gigantesco Mitchell B-25 carregado de bombas e fazê-lo pousar num porta-aviões em mar turbulento é, para as tripulações do 16 B-25s, missão rotineira de guerra. Com efeitos especiais premiados com o Oscar, o filme recria o sobrevôo em baixa altitude do esquadrão americano para bombardear o Japão a fim de levantar o moral americano após Pearl Harbor. O treinamento intensivo, o audacioso bombardeio e as aterrissagens forçadas na China são marcos da guerra, capturados pelo filme.

Objective Burma! (Um punhado de bravos, EUA, 1945, 142’ ou 128’, p&b, guerra). Direção: Raoul Walsh. Produção: Warner Bros. Roteiro: Ranald MacDougall, Lester Cole, Alvah Bessie. Música: Franz Waxman. Fotografía James Wong Howe. Com Errol Flynn, James Brown, William Prince, George Tobias, Warner Anderson, Henry Hull. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Major Nelson (Cooper) e seus homens são lançados de pára-quedas sobre a selva birmanesa, atrás das linhas inimigas, para destruir uma estação de radar japonesa. A perigosa e extenuante expedição através da selva e dos pântanos repletos de soldados inimigos se converte numa missão suicida. Há belos grandes planos dos rostos dos soldados, que vão morrendo aos poucos, mesmo depois de cumprida a difícil missão, pois o resgate deles na selva parece ser quase impossível.

Eles conseguem heroicamente destruir a estação e matar todos os japoneses que a protegiam, mas perdem a chance de serem resgatados no local e na hora combinados. Decidem então, famintos e desesperados no meio da selva, seguirem em dois grupos separados por caminhos diferentes, esperando a nova janela para o pouso do avião de resgate. Os que seguem na direção errada caem nas mãos dos inimigos. Quando o Major chega ao cativeiro em que aqueles haviam caído, encontra apenas corpos mutilados. Há, contudo, um sobrevivente para contar a história: “Passaram fogo na tropa, era como um matadouro. Nunca vi nada igual!”. Curiosamente, ele diz isso pouco depois de ter, com seus companheiros, passado fogo na tropa japonesa e transformado a estação de radar num matadouro. É que os japoneses não são considerados humanos: no filme, eles são chamados de “macacos”.

Contudo, há uma diferença importante: antes de serem mortos, os soldados norte-americanos foram selvagemente torturados, e seus corpos ficaram irreconhecíveis: “Foram todos cortados!”. Horrorizado, o jornalista exclama: “Eu sou jornalista há 40 anos e estou acostumado a ler de tudo – das câmaras de tortura da Idade Média aos crimes da máfia e dos linchamentos de hoje, mas isso é diferente! Uma barbárie feita por um povo que se diz civilizado! Mas são uns selvagens! Miseráveis! Desgraçados! Eliminem esse povo da face da Terra! Eliminem esse povo da face da Terra!”. Mais tarde, o jornalista não resiste à caminhada final até o resgate e morre. O major afirma: “Talvez agora ele saiba por que lutamos!”. Como o jornalista morto não pode saber de mais nada, a indireta é certamente dirigida preventivamente aos críticos nos jornais da época…

Enfim, a missão foi um sucesso, mas foi preciso pagar um preço bastante alto. Poucos do grupo conseguiram sobreviver. O Major conclui: “Veja o que a missão custou: um punhado de bravos!”. Realizado no final da guerra, o filme parece justificar o lançamento da bomba atômica sobre o Japão, através da exclamação absurda do jornalista, repetida duas vezes, na cena mais dramática: “Eliminem esse povo da face da Terra! Eliminem esse povo da face da Terra!”. Esse grotesco apelo ao genocídio justificou o bombardeio gratuito da população civil japonesa em Hiroshima e Nagasaki.

2. Filmes políticos: antinazismo e resistência

Poucos artistas engajaram-se no cinema antinazista conscientes de sua importância política: isso não impediu que muitos filmes antinazistas se tornassem clássicos do cinema, como: The Great Dictator (O grande ditador, 1940), de Charles Chaplin, a primeira denúncia direta no cinema de Hollywood do antissemitismo nazista; To Be or Not To Be (Ser ou não ser, 1942), de Ernst Lubitsch; Casablanca (Casablanca, 1942), de Michael Curtiz; ou Lifeboat (Um barco e nove destinos, 1944), de Alfred Hitchcock.

A maioria dos imigrantes alemães em Hollywood empregados nestes filmes era apolítica e fugia da Alemanha por sua condição judaica. Tendo que representar alemães e nazistas, eles viam seu trabalho com reticências, como um ganho-pão e até como algo de vergonhoso, uma “especialização” de suas competências profissionais, decorrente apenas de sua condição de imigrantes de língua alemã e não de seus talentos. Não se orgulhavam em Interpretar um nazista ou uma vítima alemã. Além disso, o filme antinazista, seguindo as leis do entretenimento, acabou por transformar-se num subgênero barato e cheio de clichês. Contudo, muitos dos cerca de 180 filmes antinazistas produzidos por Hollywood projetaram uma visão do nazismo muito mais próxima de sua verdadeira essência do que alguns autores alemães hoje querem nos fazer crer com a idéia de que eram meros “filmes de propaganda”, cheios de clichês sobre os “alemães maus e burros”.

Filmografia

Hitler – Beast of Berlin / Hell’s Devils (EUA, 1939, p&b, drama). Direção: Sam Newfield. Com Roland Drew (Hans Memling), Steffi Duna (Elsa Memling), Greta Granstedt (Anna Wahl), Alan Ladd (Karl Bach). Pioneiro filme antinazista, anterior à produção oficial de propaganda, mostrando torturas em campos de concentração alemães. URL: http://www.imdb.com/title/tt0031427/trivia?tr0629925.

Ministry of Fear (Quando desceram as trevas, EUA, 1939, p&b, espionagem). Direção: Fritz Lang.

The Great Ditactor (O Grande Ditador, EUA, 1940, 124′, p&b, comédia). Direção: Charles Chaplin. Com Charles Chaplin, Henri Daniell. Em meio a uma Guerra Mundial, judeus são perseguidos num país imaginário dominado por um Grande Ditador, que recebe a visita de um Ditador rival de outro país imaginário. Chaplin interpreta dois papéis: o do Grande Ditador Adenoid Hynkel e o de um barbeiro judeu que acaba sendo confundido com aquele, por serem fisicamente muito parecidos, usando especialmente o mesmo bigodinho. Uma obra-prima que o tempo não consegue envelhecer.

The man I married (EUA, 1940, p&b, espionagem). Direção: Irving Pichel.

Foreign Correspondent (Correspondente internacional, EUA, 1940, 120’, p&b, suspense). Direção: Alfred Hitchcock. Produzido antes da política governamental de engajamento do cinema, o filme demonstra o engajamento pessoal de Hitchcock no esforço de guerra ao nazismo. Assim como Charles Chaplin, Anatole Litvak, Fritz Lang, entre outros, Hitchcock era um cineasta antinazista consciente e combativo.

The Mortal Storm (Tempestades d’alma, EUA, 1940, 100’, drama). Direção: Frank Borzage. Vivendo numa pequena cidade dos Alpes alemães, o professor universitário Viktor Roth (Frank Morgan) e sua família “não ariana” são surpreendidos com a ascensão de Hitler ao poder. Martin Brietner (James Stewart), amigo dos Roth, é dos poucos alemães da cidade que não aderem ao nazismo. A filha Freya (Margaret Sullavan) rompe o noivado com Fritz Marberg (Robert Young), novo entusiasta de Hitler, e aproxima-se cada vez mais de Martin. As pressões contra os “não arianos” crescem em toda parte. O filme evita mencionar a palavra “judeu”, substituindo-a por “não ariano”. Mas é um dos mais corajosos filmes produzidos em seu tempo, assumindo o antinazismo antes mesmo que os EUA entrassem na guerra, o que som ocorreu após o ataque a Pearl Harbor em 1941. Uma das melhores seqüências é quando a empregada ariana dos Roth entra na sala de jantar após ouvir as últimas transmissões do rádio: “Dr. Roth, acabo de ouvir uma notícia maravilhosa: Hitler tomou o poder!”. O filme tem início com um céu de nuvens carregadas, que se tornam negras, anunciando uma tempestade, enquanto o narrador discursa: When man was new upon the earth, he was frightened by the dangers of the elements. He cried out, “The gods of the lightning are angry, and I must kill my fellow man to appease them!” As man grew bolder, he created shelters against the wind and the rain and made harmless the force of the lightning. But within man himself were elements strong as the wind and terrible as the lightning. And he denied the existence of these elements, because he dared not face them. The tale we are about to tell is of the mortal storm in which man finds himself today. Again he is crying, “I must kill my fellow man!” Our story asks, “How soon will man find wisdom in his heart and build a lasting shelter against his ignorant fears?”

Four sons (EUA, 1940, p&b. drama). Direção: Archie Mayo.

Man Hunt (O homem que queria matar Hitler, EUA, 1941, 105’, p&b. drama, espionagem). Direção: Fritz Lang. Com Walter Pidgeon, Joan Bennett, George Sanders.

Sergeant York (EUA, 1941, p&b. drama, guerra). Direção: Howard Hawks.

Ends Our Nigh (EUA, 1941, p&b, drama, guerra). Direção: John Cromwell. Roteiro: Talbot Jennings, baseado na novela Flotsam, de Erich Maria Remarque. O filme acompanha a saga de fugitivos do nazismo através da Europa. URL: http://www.imdb.com/title/tt0034208.

Berlin Correspondent (EUA, 1942, p&b, espionagem). Direção: Eugene Forde. Um bravo radialista (Dana Andrews) transmite da Alemanha nazista. URL: http://www.imdb.com/title/tt0034507.

Once upon a honeymoon (EUA, 1942, p&b, drama). Direção: Leo McCarey.

Casablanca (Casablanca, EUA, 1942, p&b, drama). Direção: Michael Curtiz. Roteiro: Julius e Phillip Epstein e Howard Koch, baseado na peça Everybody Goes to Rick’s, de Murray Burnetf e Joan Alison. Uma mulher (Bergman) tem de optar entre a vida do marido, membro Resistência húngara, recém-fugido de um campo de concentração, e o amor de um velho amante (Bogart), agora proprietário do Rick’s Café Americain. Ponto de encontro das autoridades, dos jogadores, dos ladrões e também dos fugitivos do terror nazista à procura de um visto para a vida, o café torna-se o centro de Casablanca, onde todos os personagens se encontram antes de terem seus destinos decididos. A seqüência em que os freqüentadores do Café Americain se levantam para cantar a Marselhesa, calando os alemães que haviam iniciado um canto nazista é das mais emocionantes de toda a história do cinema. URL: http://filmfanatic.org/reviews/?p=5660.

Hitler – Dead or Alive(EUA, 1942, 71’, p&b, espionagem). Direção Nick Grinde. Produção: Ben Judell. Roteiro: Karl Brown e Sam Newman. Com Ward Bond, Dorothy Tree, Warren Humer, Paul Fix, Russel Hicks, Bruce Edwards, Felix Basch, Bob Watson, Frederick Giermann, Kennetrh Harlan, Faye Wall. Um milionário cientista alemão refugiado nos EUA coloca um anúncio nos jornais oferecendo um milhão de dólares para quem ousar penetrar clandestinamente na Alemanha para matar Hitler. Três gânsgers que acabam de sair da prisão de Alcatraz aceitam a oferta. O trio liderado por Steve Maschik (Ward Bond) inclui ‘Dutch’ Havermann (Warren Hymer) e o ‘cérebro’ Joe ‘The Book’ Conway (Paul Fix). Eles se juntam à Força Aérea Canadense e saltam de pára-quedas a poucos quilômetros do quartel-general de Hitler em Berlim. Tentam aproximar-se de Hitler anunciando terem a missão de entregar-lhe diretamente uma mensagem secreta do Presidente dos EUA. Mas são detidos para averiguações. Conseguem escaper vestindo uniformes nazistas e, com a ajuda de uma líder da Resistência Alemã, que assumiu o papel de amante de um SS, eles conseguem penetrar num concerto que contava com a presença do Führer. Como pairam dúvidas sobre quando Hitler é ele mesmo – ele sempre pode ser um sósia – o trio decide raptá-lo ao invest de matá-lo ali mesmo. Para saber se o raptado é o verdadeiro Hitler – que tem um cicatriz sob o bigode –, levam-no para o esconderijo da Resistência, sob uma escada móvel da mansão da amante do SS. Com indisfarçavel prazer, Maschik tira a prova, raspando o bigode de Hitler: a cicatriz é encontrada sob o tufo de pelos. O gângster aproveita a vulnerabilidade do Führer, que geme sob a navalha, para cortar também o seu famoso topete. Logo em seguida, a Gestapo descobre o esconderijo e explode a célula, levando todos para a prisão. Em vão o Führer se debate ordenando que seja solto, pois é Hitler e não um membro do grupo: os homens da Gestapo não acreditam, pensam tartar-se de um louco, em nada parecido com Hitler – e o Führer é assim fuzilado pelas tropas SS como se fôra um membro enlouquecido da Resistência. O Hitler que continuava vivo, assombrando o mundo de então, não era o verdadeiro, mas um sósia do Führer… Esse bom roteiro poderia ter se tornado um clássico do filme antinazista caso tivesse tido melhor produção e direção. A trama do atentado contra Hitler foi inspirada no atentado de dois tchecos patriotas que, em 1942, desceram de pára-quedas em Praga para matar Reinhart Heydrich, o “Protetor” da Boêmia responsável pela Solução Final. O carro que conduzia Heydrich foi explodido. Em represália ao assassinato, os alemães destruíram duas aldeias e mataram centenas de pessoas, razão pela qual os aliados desistiram dos planos de matar outros líderes nazistas, incluindo o próprio Hitler. Fritz Lang imaginou um atentado a Hitler em Man Hunt (O homem que quis matar Hiter, 1941) e recriou o atentado a Heydrich em Hangmen Also Die (Os carrascos também morrem), atentado este abordado também por Douglas Sirk em Hitler’s Madman (O capanga de Hitler, 1942). Infelizmente Hitler, Dead or Alive não teve nem o cuidado de disfarçar sua precariedade, que vai da escalação de atores ruins aos incontornáveis problemas de linguagem, com os personagens alemães falando corentemente o inglês para que os gângsters americanos pudessem comunicar-se com eles sem problemas. No final, os gângsters são considerados como heróis nacionais. O uso de personagens ex-criminosos que se convertem em patriotas na luta contra o Eixo foi uma derivação do filme noir, em filmes como All Through the Night (Balas contra a Gestapo (1941), de Vincent Sherman, com Humphrey Bogart e Conrad Veidt; e This Gun For Hire (Alma torturada, 1942) e Lucky Jordan (1942), ambos de Frank Tuttle, estrelados por Alan Ladd. Cabe destacar, deste amontoado de equívoscos, a excelente personificação de Hitler por Bobby Watson. URL: http://www.imdb.com/title/tt0034857.

Mrs. Minniver (Rosa da esperança, EUA, 1942, p&b, drama, guerra). Direção: William Wyler.

Nazi Agent (EUA, 1942, p&b, espionagem). Direção: Jules Dassin.

Saboteur (Sabotador, 1942, p&b, espionagem). Direção: Alfred Hitchcock.

The Devil with Hitler (EUA, 1942, 44’, p&b). Direção: Gordon Douglas. Hitler, interpretado por Bobby Watson (como em outros filmes antinazistas), recebe a visita de um emissário de Satã, que desce à Terra para tentar convencê-lo a fazer uma boa ação antes de ir ao inferno. URL: http://www.imdb.com/title/tt0034651.

The Gorilla Man (EUA, 1942, p&b, espionagem). Dois nazistas tentam passar-se por médicos ingleses e espionar os EUA.

The Pied Piper (Os abandonados, EUA, 1942, 87’, p&b). Direção: Irving Pichel. Com Monty Woolley, Roddy McDowall, Otto Preminger, Peggy Ann Garner, Anne Baxter, Marcel Dalio. Uma comédia de humor negro. Howard (Monty Woolley) é um cidadão britânico que se encontra na França quando este país é ocupado pelos nazistas em 1940. Tenta voltar para casa, mas não consegue. Ele acaba se integrando a uma missão da Liga das Nações para salvar crianças e consegue viajar levando consigo Ronnie (Roddy McDowall) e Sheila (Peggy Ann Garner), embora não goste de crianças e de Ronnie em particular. A viagem se complica e inclui Nicole Rougeron (Anne Baxter), que teve um breve romance com Howard e cujo filho, um piloto da RAF, foi vitimado. Apesar da ajuda de Foquet (Marcel Dalio), eles são capturados pelos nazistas. O filme faz referências a campos de concentração e ao antissemitismo: o filme observa uma jovem judia loira e de olhos azuis não sobrevive na Alemanha nem na França ocupada. Major Diessen (Otto Preminger) que captura Howard e seus acompanhantes não é pintado como um monstro sádico, mas como um ser humano que acredita na sua missão e isso o torna ainda mais terrível: acreditando que Howard é um espião, ele tortura o inglês e também as crianças a fim de obter a “verdade”.   Roteiro: Nunnally Johnson, com base na nevela de Nevil Shute. O filme foi indicado para três Oscars: Filme, Fotografia em P&B (Edward Cronjager) e Ator (Woolley), mas não ganhou nenhum. URL: http://www.imdb.com/title/tt0035189.

Tulips Shall Grow (EUA, 1942, 6’59’’, cor, animação, guerra). Direção: George Pal. Espetacular animação de propaganda antinazista, Jan e Jeanete vivem inocentes e apaixonados numa idílica paisagem holandesa, com moinhos e tulipas. Mas esse mundo de sonho é destruído com a chegada de um monstruoso exército de parafusos que não deixa pedra sobre pedra. Evocando a hecatombe do bombardeio de Rotterdam a 14 de maio de 1940, que matou 1.000 civis e deixou 78.000 desabrigados, com 2,6 quilômetros quadrados do belíssimo centro urbano da medieval cidade portuária reduzido a pó, a animação envia ao mesmo tempo uma mensagem de esperança ao povo holandês: o famoso “V” da Vitória é estampado pelas nuvens no céu, depois que uma tempestade se abate sobre o exército de parafusos, enferrujando seus tanques, aviões bombardeiros e o general metálico, que terminam por se dissolver na terra. Apesar de toda a destruição, as tulipas voltarão a crescer… Tulips shall always grow – tulipas sempre crescerão – estampa o letreiro final.

Miss V From Moscow (EUA, 1942, 66’, p&b, espionagem). Direção: Albert Herman. Com Lola Lane, Noel Madison.

To Be or Not to Be (Ser ou não ser, EUA, 1942, 99’, p&b, comédia). Direção: Ernest Lubitsch.

They Raid by Night (EUA, 1942, 73’, p&b, espionagem) . Direção: Spencer Gordon Bennet. Com Lyle Talbot, Paul Baratoff, George Nesie, Charles Rogers, June Duprez, Victor Varconi. O Comando Britânico envia Bob Owen (Talbot) à Noruega para preparar um ataque aéreo. Sua missão inclui a libertação do General Heden (Baratoff) das garras dos nazistas. É ajudado na misssão por Eric Falken (Nesie) e Harry (Rogers). A norueguesa Inga (Duprez), ex-noiva de Falken, agora amante de Oberst Von Ritter (Varconi) trai seu esconderijo. Os três assaltam homens da Gestapo, roubam seus uniformes e conseguem entrar no campo de prisioneiros e libertar Heden. Os quatro devem agora encontrar com a expedição do Comando.  Inga, em quem o grupo confia, informa von Ritter, e Falken é capturado, mas Bob e Harry escapam com a ajuda de Dalberg, que eles pensavam estar sendo forçado a espionar. O filme integrou uma série de lançamentos da mesma época sobre a Resistência Norueguesa, incluindo Commandos Strike at Dawn (1942); First Comes Courage (1943) e Edge of Darkness (1943).

Watch on the Rhine (Horas de tormenta, EUA, 1943, 114’, p&b, drama). Direção: Hermann Shumlin, baseado numa peça de Lillian Helmann, adaptada para o cinema por Dashiel Hammett. Todos os atores, de Paul Lukas a Geraldine Fitzgerald, estão esplêndidos, mas Bette Davis supera a todos com a determinação de sua personagem de esposa e mãe de família que aceita o sacrifício dos seus graças a um idealismo empedernido e sublime. Os heróis são refugiados alemães na América, que vão parar na casa de infância da mulher, uma filha rebelde que rompeu há quinze anos com a família milionária para casar-se com o jovem engenheiro alemão, que logo decidiu abandonar sua profissão ao assistir a um massacre promovido pelos camisas marrons, tornando-se um “antifascista profissional”, como afirma várias vezes ao longo do filme, que joga sutilmente com as palavras, sem conseguir esconder o tom inciatório: na postura extremamente disciplinada das crianças, na conversa secreta entre pai e filho sobre o chamado que espera cada nova geração, nas entrelinhas de todos os diálogos políticos, fica claro que a família refugiada, que se afirma antifascista, é na verdade uma família comunista que, na luta contra o fascismo, não hesita em sacrificar a felicidade individual seguindo cegamente as determinações do Partido. O stalinismo latente do texto de Hellmann e Hammett – então amantes que transmitem sua comovente idéia de amor total aos personagens do filme – não deixa de brilhar ao ser encenado e filmado em plena luta contra o nazismo. É um dos menos conhecidos e dos mais emocionantes filmes antinazistas produzidos em Hollywood – ainda livre do macartismo.

This Land is Mine / Vivre Libre (Esta terra é minha, EUA, 1943, p&b, drama). Direção: Jean Renoir. Com Charles Laughton, Una O’Connor, Maureen O’Hara, George Sanders, Kent Smith. Durante a Ocupação de Paris, Albert Lory (Laughton), um feioso professor, maduro e pacato, que ainda vive com a mãe dominadora (O’Connor), mostra-se secretamente apaixonado pela colega de escola: a bela, jovem e ousada Louise Martin (O’Hara), cujo pretendente (Sanders) é um inescrupuloso empresário da companhia ferroviária que colabora com os alemães. A professora ainda não sabe, mas seu irmão Paul (Smith), empregado da companhia, que ela imagina um “traidor”, entrou para a Resistência. Após um atentado, cometido por Paul, Albert é preso com outros reféns até que se descubra o verdadeiro “terrorista”. Alucinada, a mãe de Albert revela ao Prefeito as atividades suspeitas de seu vizinho, e obtém assim a soltura do filho. Louise pensa que Albert denunciara seu irmão. O professor descobre o erro terrível da mãe e espera ser julgado, pois no Tribunal pode dizer toda a verdade, não apenas sobre o crime, mas também sobre os horrores da Ocupação. Levado pelo turbilhão da História, o “covarde” professor torna-se então um herói que, mesmo inocentado pelos jurados, será fuzilado pelos alemães. Antes de ser fuzilado, em sua última aula, ele lê para os alunos a Declaração dos Direitos Universais do Homem, leitura interrompida pela chegada da Gestapo, mas que a professora, após selar com um beijo o adeus ao colega, retoma com raiva e orgulho, como uma lição de Resistência. Este belíssimo filme antinazista de Renoir, escrito por Dudley Nichols [1], foi mal recebido pela crítica, mas pode ser hoje colocado entre os mais brilhantes exemplares da propaganda no cinema. O apelo à Resistência, em plena Ocupação da França, não recua diante de nenhuma consideração legalista – os atentados são justificados sem restrições. O antissemitismo é denunciado pela exaltação do Professor Sorel (Philip Merivale), intelectual engajado que redige panfletos clandestinos conclamando à Resistência e cuja execução determina a conversão do Professor Lory de sua existência conformista a uma ação de martírio que dá sentido à sua vida até então insignificante. NOTA: [1] Roteirista de clássicos como The Informer (O informante, 1935), de John Ford; Bringing Up Baby (Levada da breca, 1938), de Howard Hawks; Stagecoach (No tempo das diligências, 1939), de John Ford; Gunga Din (Gunga Din, 1939), de George Stevens; Man Hunt (1941) e Scarlet Street (1945), de Fritz Lang.

First Comes Courage (EUA, 1943, p&b, espionagem). Direção: Dorothy Arzner. Com Merle Oberon. Uma resistente antinazista (Merle Oberon) tem um caso com um major alemão (Carl Esmond) e passa informações vitais para os resistentes noruegueses. Quando o superior do major começa a suspeitar da relação dos dois, um agente britânico (Brian Aherne), ex-amante da espiã, é enviado para matar o major alemão.  Último filme da pioneira cineasta Dorothy Arzner. URL: http://filmfanatic.org/reviews/?p=5305.

Five Graves to Cairo (EUA, 1943, p&b, guerra). Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett e Wilder, baseado na peça Hotel Imperial, de Lajos Birô. Por obra do acaso, os ingleses conseguem descobrir o depósito de munições das forças inimigas e provocar a derrota do marechal-de-campo Rommel no norte da África.

Good Luck, Mr. Yates (EUA, 1943, p&b, espionagem). Direção: Ray Enright. Com Claire Trevor (Ruth Jones), Jess Barker (Oliver Yates), Edgar Buchanan (Jonesey Jones), Tom Neal (Charlie Edmonds), Albert Bassermann (Dr. Carl Hesser). URL: http://www.imdb.com/title/tt0035949.

Hangmen Also Die (Os carrascos também morrem, EUA, 1943, 134’, p&b, drama, suspense, espionagem). Direção: Fritz Lang.

Hitler’s Children (Os filhos de Hitler, EUA, 1943, 82’, p&b, drama). Direção: Edward Dmytryk. Roteiro baseado no livro Education for Death, de Gregor Ziemer. Com Tim Holt. O filme enfoca a política adotada pelos nacional-socialistas em relação à infância, com vistas a incentivar a “produção de crianças”.

Hitler’s Madman (O capanga de Hitler, EUA, 1943, 84’, p&b, drama). Direção: Douglas Sirk. Produção: Seymour Nebenzal (o produtor de M) / PRC filmes. De baixo orçamento, é o primeiro filme que Douglas Sirk, casado com uma atriz judia, dirigiu em Hollywood, depois de fugir da Alemanha, onde realizara filmes nazistas. O filme conta o episódio do massacre de civis em Lidice, em represália ao assassinato de Heydrich na Tchecoslováquia. URL: http://filmfanatic.org/reviews/?p=4638; http://www.imdb.com/title/tt0036005.

That Nazty Nuisance (EUA, 1943, fantasia): continuação de The Devil with Hitler (1942).

The Strange Death of Adolf Hitler (EUA, 1943, fantasia). Direção: James Hogan. Um dos mais interessantes filmes antinazistas, escrito pelo grande ator do teatro e do cinema alemão Fritz Kortner e pelo veterano produtor Joe May, produzido por Ben Pivar, e onde um oficial vienense sem importância, vivido por Ludwig Donath, é transformado num dublê de Hitler. URL: http://www.imdb.com/title/tt0036393.

This is the Army (EUA, 1943, cor, musical, guerra). Direção: Michael Curtiz. Com George Murphy, Joan Leslie. Durante a Primeira Guerra, o dançarino Jerry Jones monta um show só com soldados na Broadway intitulado Yip Yip Yaphank. Wounded in the War, e se torna um produtor. Na Segunda Guerra, seu filho Johnny Jones, que fora assistente do pai, decide montar novo show, chamado This is the Army. Apesar do sucesso, ele tem problemas na vida pessoal, porque se recusa a desposar sua noiva antes que a guerra termine. No primeiro show, enquanto os soldados-artistas cantam a canção patriótica de Irving Berlin, “We’re on Our Way to France!”[1], eles são convocados e saem do palco, atravessando a platéia rumo à França enquanto namoradas, esposas e mães se despedem deles, chorosas, mas otimistas com os gritos deles de “Dont worry!”[2]. Ao longo de diversos números musicais, é destacada a participação dos soldados negros, com a presença de Olive Drab num espetacular sapateado[3] e são homenageados a Marinha[4] e os pilotos dos aviões bombardeiros[5]. No final, em grandiosa coreografia que deve muito à “estética fascista”, com gigantescas efígies de Águia e Tio Sam ao fundo, a massa de soldados-artistas canta “This Time”[6], prontos para partir para a Segunda Guerra[7], que anunciam, esperançosos, ser a última. NOTAS:  [1] “Old Hoboken is bent and broken / From soldiers marching on her pier / While you slumber, a great big number / Of soldiers disappear / To the millions of brave civilians / That we are leaving over here / We say / Day day / Give us a parting cheer / [Refrain:] / We’re on our way to France / There’s not a minute to spare / That’s why / For when the Yanks advance / You bet we wanna be there / Goodbye.” [2] Clipe: http://www.youtube.com/watch?v=34m5SPPZXQc&feature=related. [3] Clipe: http://www.youtube.com/watch?v=ZyUsm4Cv4IY&feature=related. [4] Clipe: http://www.youtube.com/watch?v=3FpsaBqF4sU&feature=related. [5] Clipe: http://www.youtube.com/watch?v=BWMiA_UAj3c&feature=related. [6] “Twas not so long ago we sailed to meet the foe / And thought our fighting days were done / We thought ‘twas over then but now we’re in again / To win the war that wasn’t won  [Refrain:] This time, we will all make certain / That this time is the last time  / This time, we will not say “Curtain” / Till we ring it down in their own home town / For this time, we are out to finish / The job we started then / Clean it up for all time this time / So we won’t have to do it again / Dressed up to win / We’re dressed up to win / Dressed up for victory / We are just beginning / And we won’t stop winning / Till the world is free / [Coda:] We’ll fight to the finish this time / And we’ll never have to do it again.” [7] Clipe: http://www.youtube.com/watch?v=150hLZPeYqg&feature=related.

Women in Bondage (EUA, 1943, drama). Direção: Steve Sekele. A degradação das mulheres no ‘Terceiro Reich’. URL: http://www.imdb.com/title/tt0036545.

Hostages (EUA, 1943, drama). Direção: Frank Tuttle. baseado na novela de Stefan Heym, membros da Resistência em Praga são presos sob a acusação de terem assassinado um oficial nazista. Entre eles, há um oficial colaboracionista. Mesmo depois de provado que o oficial cometeu suicídio, a Gestapo faz parecer que se tratou de assassinato, para confiscar sua fortuna. URL: http://www.imdb.com/title/tt0036017.

Education for Death (Educação para a morte, EUA, 1943, 10’, animação, cor, antinazismo, CM). Direção: Clyde Geronimi.

Nine Men (Inglaterra, 1943, 64’, p&b, guerra). Com Jack Lambert, Bill Blewitt, Giulio Finzi, Fred Griffiths, Jack Horsman, Gordon Jackson. Um sarjento inglês (Lambert) e seus oito, aquartelados num forte no deserto do Líbano, durante a campanha da África, devem resistir ao assalto das tropas italianas. Sem orçamento para grandes batalhas, o filme se concentra na tensão psicológica e na interpretação dos nove atores que encarnam os nove homens do drama.

Northern Porsuit (Perseguidos, EUA, 1943, 93’, p&b, drama, espionagem). Direção: Raoul Walsh. Com Errol Flynn, Julie Bishop, Helmut Dantine, John Ridgely, Gene Lockhart.

The Mysterious Doctor (EUA, 1943, 57’, p&b, fantasia). Direção: Benjamin Stoloff. Produção: Warner / William Jacobs. Roteiro: Richard Weil. Fotografia: Harry Sharp. Edição: Clarence Kolster. Com John Loder (Sir Henry Leland), Eleonor Parker (Letty Carstairs), Bruce Lester (Tenente Christopher Hilton), Lester Matthews (Dr. Frederick Holmes). Numa pequena cidade inglesa nas montanhas um misterioso estrangeiro passeia com seu monstro, até que os aldeões descobrem tratar-se do espírito de um nazista sem cabeça.

Aventure malgache (EUA, 1944, p&b, espionagem, MM). Direção: Alfred Hitchcock.

Bon Voyage (EUA, 1944, p&b, espionagem, MM). Direção: Alfred Hitchcock.

Enemy of Women (EUA, 1944, p&b, drama). Direção: Alfred Zeisler. A história do Dr. Goebbels. URL: http://www.imdb.com/title/tt0036791.

Lifeboat (Um barco e nove destinos, EUA, 1944, p&b, espionagem). Direção: Alfred Hitchcock.

Ministry of Fear (Quando desceram as trevas, EUA, 1944, 86’, p&b, espionagem). Direção: Fritz Lang.

None Shall Escape (Ninguém escapará ao castigo, EUA, 1944, 85’, p&b, drama). Direção: André De Toth. Produção: Columbia. Roteiro: Lester Cole. Argumento: Alfred Neumann. Com Marsha Hunt (Marja Pacierkowski), Alexander Knox (Wilhelm Grimm), Henry Travers (Father Warecki), Erik Rolf (Karl Grimm), Richard Crane (Willie Grimm as a man), Dorothy Morris (Janina Paeierkowski), Richard Hale (Rabino David Levin), Ruth Nelson (Alice Grimm), Kurt Kreuger (Lt. Gersdorf), Shirley Mills (Anna Oremska), Elvin Field (Jan Stys quando criança), Trevor Bardette (Jan Stys quando adulto), Frank Jaquet (Dr. Matek), Ray Teal (Oremski), Art Smith (Stys). Indicado ao Oscar. O filme revela as atrocidades nazistas antes do fim da guerra, quando os campos foram abertos e toda a verdade sobre o Holocausto chegou aos meios de comunicação. É de todos os filmes antinazistas o filme mais realista. A ação começa num tribunal do futuro após a guerra (prevendo a vitória aliada, que se deu em maio de 1945 e o Tribunal de Nuremberg, que foi constituído em 1946). O nazista Wilhelm Grimm não se arrepende de seus crimes e é confrontado com o testemunho de suas vítimas sobreviventes e de seus comparsas, que recordam sua vida desde 1919, numa série de flashbacks. Mas esses não justificam as ações de Grimm, que aparece tal como é: um monstro sádico. Isso inclui uma antecipatória seqüência em que judeus são exterminados. Lamentavelmente o filme – primeiro filme dramático sobre o julgamento de criminosos de guerra – não foi lançado nem em VHS nem em DVD.

Passaport to Destiny (EUA, 1944, p&b, drama). Roteiro: Val Burton e Muriel Roy Bolton. Uma londrina (Elsa Lanchester) consegue penetrar na Alemanha nazista e tentar matar Hitler.

The Hitler Gang (EUA, 1944, p&b, drama, drama, histórico). Direção: John Farrow. A ascensão de Hitler entre 1918 e 1934, é uma verdadeira aula de História. Do hospital militar no qual o desconhecido soldado Adolf Hitler padece, cego, de um ataque de gás durante a Primeira Guerra à formação do NSDAP; da tomada do poder à Noite das Facas Longas; do episódio da sedução e “suicídio” da sobrinha Geli Rauber à nazificação das escolas; da formação das grandes máquinas de guerra à ambição da conquista do mundo, o filme escrito por Francis Goodrich e Albert Hackett baseia-se inteiramente em fatos históricos. A semelhança dos atores – Robert Watson, Roman Bohnen, Martin Kosleck, Victor Varconi, Luis van Rooten, Alexander Pope, Ivan Triesault, Poldy Dur, Helen Thimig, Reinhold Schunzel e Fritz Kortner – com os personagens reais que representam – Hitler, Hess, Goering, Goebbels, Himmler, Geli, Angela Hitler, Hindenburg, Ludendorf e Strasser – é impressionante. Especialmente Hitler, Hess e Goering são “clones” perfeitos. O que no filme pode parecer uma caricatura forçada – a covardia e fraqueza de Hitler no golpe de Munique e na Noite das Facas Longas; a paixão homossexual que Hess  demonstra pelo Führer – são fatos comprovados. É incrível que os produtores tenham conseguido reunir em tão pouco tempo tantos dados corretos sobre a ascensão de Hitler e seu regime, dados que os historiadores ainda hoje pesquisam para provar com documentos. URL: http://www.imdb.com/title/tt0036921.

The Seventh Cross (A sétima cruz, EUA, 1944, 110’, p&b, drama). Direção: Fred Zinemann. Com Spencer Tracy, Signe Hasso, Hume Cramyr, Jessica Tandy. Fotografado pelo grande Karl Freund, e escrito por Helen Deutsch, com base no romance homônimo de Anna Seghers, é um dos melhores filmes antinazistas. Em 1936, sete prisioneiros fogem do campo de concentração Westhofen. O comandante do campo manda erguer sete cruzes, onde os fugitivos deverão ser pregados depois de capturados. São caçados um a um, e um deles, desesperado, acaba mesmo se entregando. O filme inteiro é narrado pelo primeiro fugitivo, agarrado e morto na primeira seqüência pelos guardas, ou seja, o filme traz o ponto de vista de sua alma que voa para o alto e acompanha o destino dos companheiros, especialmente do último, Spencer Tracy, apostando na sua salvação. Essa técnica revolucionária da narração-fantasma fora usada em The Human Comedy (A comédia humana, 1943), de Clarence Brown, e será consagrada em Sunset Blvd. (O crepúsculo dos deuses, 1950), de Billy Wilder. Durante a fuga, Tracy vivencia situações reveladoras de como o medo e o conformismo mudaram a Alemanha. Não há mais para onde fugir. Nem sua ex-namorada (Jessica Tandy) é capaz de ajudá-lo: ela se converteu ao nazismo. As forças da ordem, as crianças, toda a população transformou-se em colaboradora ativa ou passiva. Um velho amigo operário, que parecia satisfeito com o regime, mas que passa a perceber como havia sido iludido pela propaganda, ajuda Spencer Tracy por alguns dias. Mas depois que ele é preso e torturado, permanecer em sua casa é colocar sua família sob a mesma ameaça. Se houvesse um ser humano na Alemanha capaz de ajudar o fugitivo, a esperança não estaria perdida. Então, quando a sétima crucificação parece inevitável, o fugitivo encontra uma desconhecida dona de estalagem que por ele se apaixona, e sem medir as conseqüências de seu ato, ajuda-o a sair do país.

Voice in the Wind (EUA,  1944, drama). Direção: Arthur Ripley. Um músico que fugiu da Alemanha nazista tenta, ainda traumatizado, recuperar sua memória.

Cloak and Dagger (O grande segredo, 1945, p&b, drama, espionagem). Direção: Fritz Lang. Roteiro: Albert Maltz e Ring Lardner Jr., baseado numa historia de Boris Ingster e John Larkin. Membros da Resistência italiana ajudam um físico americano a estabelecer contato com um colega alemão, impedindo o desenvolvimento da bomba atômica na Alemanha, durante a guerra.

Escape in the Fog (EUA, 1945). Direção: Budd Boetticher.

Nazi Concentration Camps (EUA, 1945, p&b, doc). Direção: George Stevens. Registro da abertura dos campos de concentração na Alemanha. Suas imagens gráficas documentam o estado dos prisioneiros dos campos, vítimas sobreviventes do Holocausto. O filme serviu de prova A para os crimes contra a humanidade perpetrados pelos carrascos nazistas no julgamento das lideranças do ‘Terceiro Reich’ no Tribunal de Nuremberg.

Hitler Lives (EUA, 1945, 17’, p&b, CM). Direção, Roteiro: Saul Elkins. Oscar de Melhor Documentário de Curta Metragem. URL: http://www.imdb.com/title/tt0034857.

Why We Figth (EUA, 1942-1945, p&b, doc). Série de documentários produzidos pelo Departamento de Guerra dos EUA. Inclui: Know Your Enemy: Germany (EUA, 1945, doc). Direção: Frank Capra.

Notorius (Interlúdio, EUA, 1946, p&b, espionagem). Direção: Alfred Hitchcock.

13 Rue Madeleine (EUA, 1946, p&b, espionagem, antinazismo). Direção: Henry Hathaway.

As co-produções EUA-URSS

Muitos críticos hoje condenam as poucas co-produções EUA-URSS – especialmente os raros filmes americanos “pró-soviéticos” realizados durante a guerra: Mission to Moscow (1943), de Michael Curtiz; The North Star (1943), de Lewis Milestone; Song of Rússia (1944), de Gregory Ratoff; Days of Glory (Quando a neve voltar a cair / Dias de glória, 1944), de Jacques Tourneur; Counter-Attack (1945), de Zoltan Korda. São destacadas as mentiras sobre as supostas “liberdades democráticas” do regime de Stalin ou sobre a alegre vida que se levava na URSS, como bem observou, por exemplo, a escritora e filósofa Ayn Rand. Contudo, o ponto forte desses filmes é sua mensagem antinazista: afinal, era do interesse de toda a humanidade que a URSS estivesse aliada aos EUA no contexto da guerra. E, neste contexto, esses filmes de compromisso encontraram sua razão de ser.

Mission to Moscow (EUA, 1943, p&b, drama). Direção: Michael Curtiz. Jack Warner apoiava a FDR e Roosevelt pediu-lhe que realizasse um filme baseado no livro publicado em 1941 por Joseph E. Davies, embaixador americano na URSS entre 1936 e 1938.

The North Star (EUA, 1943, p&b, drama). Direção: Lewis Milestone.

Song of Russia (Canção da Rússia, EUA, 1944, p&b, drama). Direção: Gregory Ratoff. O mais famoso filme da colaboração EUA-URSS, que Ayn Rand denunciou como propaganda comunista em Hollywood durante as comissões de inquérito do macarthismo: “O filme mostra os russos felizes, mas na Rússia ninguém sorri”, ela observou, tendo conseguido exilar-se nos EUA após viver os horrores da revolução. Um livro recente analisa seu testemunho: Ayn Rand and ‘Song of Russia’: Communism and Anti-Communism in 1940s Hollywood, de Robert Mayhew (Lanham: Scarecrow Press, 2004). Apesar de muito criticada pela esquerda, Ayn Rand tem razão: é grotesco ver como os camponeses na Rússia stalinista do filme passam a vida a sorrir, cantar e dançar.

O comunismo soviético é mostrado no filme como um paraíso na Terra. E não faltam ecos da estética local do realismo socialista: o elogio do trator, o elogio do enorme grão de trigo, o elogio do maravilhoso caminhão importado de Detroit (trata-se de um filme em co-produção). As camponesas voltam sorrindo e cantando das colheitas, e ainda têm bastante energia para dançar e tocar piano e violino a noite inteira. O Concerto Nº 1 para piano e orquestra de Tchaikovsky é executado o tempo todo, pois a heroína, a aldeã Nadya Stepanova (Susan Peters) é professora do conservatório da aldeia onde nasceu o compositor, rebatizada de Tchaikovskaya em sua homenagem. Ela vai a Moscou para convencer o grande maestro norte-americano John Meredith (Robert Taylor), em turnê pela Rússia, a tocar naquela aldeia.

O maestro apaixona-se pela ousada fã, e os dois acabam se casando em Tchaikovskaya, em mais uma longa seqüência de canto e dança. E quando tudo parece perfeito, na estréia da jovem pianista num grande concerto regido por John Meredith, transmitido ao vivo desde as costas do Mar Negro às do Oceano Pacífico, os nazistas invadem a URSS. Numa transmissão radiofônica extraordinária, Stalin incita o povo à resistência até a morte, ordenando a queima e a destruição de tudo o que não se puder levar para a retaguarda. “Todos os pares de mãos russas” são requisitados para o sacrifício patriótico.

É a guerra total e a política de terra arrasada, em discurso que muito se assemelha ao do filme nazista Kolberg, realizado naquele mesmo ano, mas em trama desprovida de qualquer romantismo. A pianista retorna a Tchaikovskaya para ensinar os alunos do conservatório de música a fazer coquetéis Molotov, “usado pela primeira vez pelo povo espanhol, e muito útil contra tanques alemães”, ela explica, enquanto aponta na lousa o desenho em giz de um tanque alemão e manipula garrafas em exemplo prático. O maestro, tendo o resto da turnê cancelada, tenta reencontrar a esposa, mas enfrenta o bloqueio militar em Tchaikovskaya. Consegue embarcar num trem de soldados, mas este é bombardeado, assim como a ponte que leva à aldeia. Ele prossegue a pé, pela estrada de lama, até que chega à aldeia, que se encontra destroçada.

O pai de Nadya jaz em frente à casa, atingida por uma bomba. Procura pela esposa, noite adentro, entre as chamas – Nadya está entre os resistentes que empreendem a queima das colheitas – e só a encontra de madrugada, quando ela retorna da guerrilha. Por fim, um menino da aldeia que queria muito estudar com o maestro e a quem este dera seu relógio de presente, ao vir ao seu encontro é metralhado pela aviação alemã. O pai do garoto diz então ao famoso maestro e à esposa camponesa, pianista e guerrilheira que o lugar deles é na América, para divulgar ao mundo em cada concerto e discurso que fizerem o massacre do povo russo, para que os povos da Europa e dos Estados Unidos se unam à URSS em sua luta pela liberdade. O ator Robert Taylor, conhecido por seu anticomunismo e sua colaboração com as comissões de investigação do macarthismo, fez o filme como empregado da MGM depois que Louis B. Mayer, também anticomunista, explicou-lhe que a produção fora encomendada diretamente pelo Office of War Information.

Days of Glory (Quando a neve voltar a cair / Dias de glória, EUA, 1944, 86′, p&b, drama, guerra). Direção: Jacques Tourneur. Com Tamara Toumanova (Nina Ivanova), Gregory Peck (Vladimir), Alan Reed (Sasha), Maria Palmer (Yelena), Lowell Gilmore (Semyon). Nina Ivanova (Toumanova) é uma bailarina que, em sua fuga, vai parar na célula secreta dos resistentes liderados por Vladimir (Peck). Ali, ela deve adaptar-se às condições duras da Resistência, aprendendo, entre outras coisas, a matar o inimigo. Os guerrilheiros vigiam as fronteiras da Rússia ante a iminente invasão das tropas nazistas. No frio extremo e sob a tensão da morte, Vladimir apaixona-se pela artista sensível que, contudo, demonstra coragem quando se vê frente a frente com o inimigo.

Quando a invasão ocorre, membros do grupo são detidos e enforcados publicamente, mas os demais defendem heroicamente a pátria, explodindo tanques nazistas até a morte. Dois grandes nomes estrearam neste filme maravilhosamente fotografado em preto em branco: Gregory Peck, que passou a ser disputado por todos os estúdios, até que decidiu assinar com a Fox; e Tamara Toumanova, conhecida como “a pérola negra do balé russo”, que nascida num trem quando sua mãe fugia da Rússia para juntar-se ao marido, viveu em campos de refugiados na Rússia, em Shanghai e no Cairo, estabeleceu-se em Paris, onde estudou balé e atuou em diversas companhias até ser contratada em 1932 por George Balanchine para os Ballets Russes de Monte Carlo. Após o término das filmagens de Days of Glory, casou-se com o produtor do filme, Casey Robinson. Vinte anos depois Tamara interpretou a bailarina terrível de Turn Curtain (Cortina rasgada), de Alfred Hitchcock.

Counter-Attack (EUA, 1945, espionagem, guerra). Direção: Zoltan Korda. Roteiro: John Howard Lawson, com base na peça Pobyeda, de Mikhail Ruderman. Com Paul Muni, Marguerite Chapman. Um soldado russo (Muni) e uma mulher da Resistência (Chapman) ficam presos numa fábrica de armamentos com sete alemães. Tem início uma batalha em espaço fechado – a pequena sala onde estão confinados.

GUY MADDIN

The Heart of the World (O coração do mundo, 2000), de Guy Maddin

A partir da estética das três principais vanguardas do cinema mudo dos anos de 1920 – o Expressionismo, o Construtivismo, o Surrealismo – Guy Maddin cria seu universo imagético insólito. Figurinos extravagantes, iluminação sofisticada, erotismo aberrante, bizarrice temática, europeísmo nostálgico, dandismo decadente, alienação revolucionária, poesia surrealista, cenografia expressionista,  textura embaçada e suporte multiformato (super-8, 16mm, vídeo) são as marcas do cinema de Guy Maddin.

Guy Maddin estudou economia na Universidade de Winnipeg, sua cidade natal, e trabalhou como caixa de banco e pintor de casas antes de fascinar-se com o cinema. Ao entrar em contato com filmes experimentais, percebeu que era possível criar artisticamente sem gastar muito dinheiro nem aprofundar-se em estudos de arte. De sua vontade de fazer cinema, mesmo sem dominar suas técnicas, ele se lançou por inteiro na carreira de cineasta. Começou com filmes curtos rodados em 8 mm e 16 mm, e jamais abandonou esses formatos, integrando-os em seus longas-metragens em 35 mm.

Os filmes de Guy Maddin provocam o estranhamento: eles estão envoltos numa atmosfera onírica, que mescla uma fantasia típica dos contos de fadas com filtros de cores e sequências em preto e branco. Para suas composições pictóricas, o diretor retira todas as suas referências do cinema mudo, em tramas repletas de ironia e nonsense. Tudo em seu cinema gera o afastamento dos espectadores acostumados com a estética blockbuster. Guy Maddin conta, contudo, com um pequeno público de fanáticos seguidores que o estimula a continuar produzindo suas fantasias loucas e anacrônicas.

Guy Maddin chegou ao cinema na fase adulta da vida, quando descobriu que desejava expressar-se artisticamente de alguma forma, sem ainda saber o porquê – talvez apenas para ser amado pelas mulheres: “Quando um homem é jovem, tudo – trabalho, carisma, interesse sexual – está enrolado numa grande bola ou força de energia que faz você seguir adiante sem que questione o que está acontecendo. Eu sabia apenas que queria me expressar. Eu primeiro quis ser escritor, já que não tinha nenhuma habilidade com artes plásticas, e sabia também que não podia atuar no palco – até tentei algumas vezes, mas com resultados catastróficos e hilários! O problema era que sendo um bom juiz de escrita eu sabia que nunca seria um bom escritor. Na melhor hipótese seria um escritor medíocre, e a mediocridade não é sexy. Então, descobri um grupo de cineastas na minha cidade natal. Eles não eram apurados tecnicamente, mas com essa vontade primitiva de fazer, eles ainda conseguiam realizar coisas excitantes. […] Então, por que eu não poderia fazer um filme primitivo? Passei a assistir alguns experimentos cinematográficos canônicos, entre eles os primeiros e notáveis trabalhos de Luis Buñuel e algumas coisas de George Kuchar, e fiquei impressionado. Ganhei 5 mil dólares de uma doce tia minha e comprei uma câmara, algumas luzes e um monte de película, e comecei a filmar imediatamente!”

Guy Maddin tinha 26 anos quando começou a fazer filmes, em 1982. Não tinha ideia do processo e gastou todo o dinheiro rápido demais, devendo esperar meses para finalizar seu primeiro projeto. Percebeu que cometera erros ridículos durante o percurso, mas foi bastante esperto para incorporar os equívocos na trama e transformá-lo em estilo pessoal, à maneira da arte naif e da arte das crianças.

Maddin gostaria de escrever todo dia, especialmente em seu diário, mas é preguiçoso. Só o faz quando realmente precisa. Prefere terminar seus filmes, pois gosta bastante de filmar, sobretudo para ter o filme pronto nas mãos. Tem idéias às vezes difíceis de serem realizadas: uma vez, seu assistente de produção saiu para alugar diversos animais para filmar uma sequência ambientada durante uma tempestade em que choveriam gatos e cachorros. O assistente pensava em jogar os bichos na direção dos atores, mas isso seria inviável. A experiência ensinou a Guy Maddin que, no cinema, é preciso imaginar as cenas pensando nos colaboradores, de maneira eficiente.

Maddin confia em sua boa memória, pois nunca lê os roteiros para filmá-los: ele roda de memória. Como seus filmes condensam situações vividas por ele, recorre ao próprio passado para lembrar-se das situações a serem filmadas. Importantes, nesse processo, é a  aparência e a atmosfera do projeto. A seu ver, quando um filme mudo atinge seu ápice, ele o faz recordar os contos de fadas de Hans Christian Anderson ou dos irmãos Grimm, algumas óperas e algumas peças de Shakespeare, “as lendas do mundo englobadas em uma só”. O silêncio dos atores também aproxima o filme mudo do balé, colocando-os na direção da obra de arte comprometida, além do mero entretenimento: “Eu vejo filmes mudos como uma prece para que os cineastas considerem a si mesmos como artistas que têm a opção de manter os atores calados, como os pintores têm a opção de usar qualquer tamanho de pincel ou tela, ou a escolha de não usar pincéis.”.

Maddin costuma trabalhar em pequenos cenários, controlando a luz e a câmara, fotografando seus filmes. Só necessita de ajuda em lugares maiores, quando recorre ao fotógrafo Ben Kasulke, que sabe bem quais efeitos ele busca e aproxima as cenas, com suas luzes, das imagens antigas.

Guy Maddin rouba o que lhe agrada de outros filmes. Mas as coisas roubadas são colocadas em novos contextos para que o “roubo” não seja identificado. Os cinéfilos percebem que seus filmes se referem a outros filmes, mas nem sempre os identificam.

Apesar de conhecer toda a filmografia de seus conterrâneos David Cronenberg e Dennys Arcand, Maddin nunca fez parte do meio cinematográfico canadense, tendo desenvolvido seu próprio ecossistema, “como um ornitorrinco da Nova Zelândia, distante de outros fatores evolucionários”. Seus temas relacionam-se consigo mesmo, com suas preocupações sobre a perda da memória e aos seus mitos de infância. Busca obsessivamente descobrir a história de sua família: “Muitas coisas estranhas e encantadas aconteceram comigo na minha infância que dá para preencher 40 filmes.” [1].

Nos seus contos de fadas impróprios para crianças, Guy Maddin cria, com a inocência de uma criança perversa, um mundo saturado de irrealidade, atualizando com perversões o imaginário do cinema mudo. Na infância, o pai levava o pequeno Maddin para um estádio esportivo, onde havia jogos de hóquei; o menino ficava no banheiro dos jogadores entregando-lhes toalhas após as duchas. Como era criança, sua cabeça batia na altura da cintura dos jogadores, com seus corpos musculosos, molhados e nus. Isso talvez explique sua obsessão por hóquei e a inspiração para os delírios sexuais de alguns de seus filmes.

Na escola de cinema que cursou, Guy Maddin teve um professor que convidava alunos especiais para ver em sua casa filmes que pegava do acervo da faculdade e projetava na parede da sala – cópias em 16 mm desgastadas de alguns clássicos do cinema. O jovem Guy gostava de ver várias vezes os mesmos filmes. O professor ia dormir. E quando acordava, de manhã, Guy continuava lá projetando os filmes. Depois, quando Guy comprou uma câmara digital, ele gravou aqueles filmes a partir de sua projeção na parede para ver depois as cópias em casa, numa qualidade de imagem ainda pior. Isso explica a qualidade não exatamente de cinema mudo dos filmes de Guy Maddin, mas sua qualidade de cinema mudo em cópia ruim.

Filmografia

The Dead Father (O pai morto, Canadá, 1986, 25’, p&b, CM, experimental): fantasia mórbida que lembra o universo de David Lynch: o pai morto recusa descansar em paz; o filho tenta devorá-lo.

Tales From The Gimli Hospital (Contos do Hospital Gimli, Canadá, 1988, 72’, p&b, drama), vítimas de estranha epidemia tentam recuperar-se num hospital, onde bizarros relacionamentos ocorrem entre pacientes e enfermeiras. Este primeiro longa-metragem de Guy Maddin lembra ainda o universo mórbido de David Lynch, com um toque de humor grotesco.

Hospital Fragment (Fragmento do hospital, Canadá, 1988, 4’, p&b, CM, experimental): curta-metragem retirado da edição final de Tales From The Gimli Hospital.

Archangel (Arcanjo, 1990, 83’, cor, drama). Bizarro melodrama de amor obsessivo passado durante a Primeira Guerra na Rússia Imperial, filmado no estilo dos filmes soviéticos dos anos 1930.

Careful (Cuidadoso, Canadá, 1992, 100’, cor, drama). Guy Maddin cria uma parábola sobre uma sociedade que toma tantos cuidados para não ser destruída que se torna presa fácil de uma inesperada catástrofe.

Sissy Boy Slap Party (A festa dos tapas, Canadá, 1995, 6’, p&b, experimental). Um harém de homossexuais agita-se quando seu daddy os deixa à vontade para se estapearem, voltando apenas no final da orgia para repreendê-los.

Imperial orgies (1996, Canadá, CM, experimental): fantasia sobre um bordel judaico em Londres.

Odilon Redon: The Eye Like A Strange Balloon (Odilon Redon, Canadá, 1996, experimental): releitura de Edgar Allan Poe através do pintor simbolista Odilon Redon – um épico em camadas, no qual o autor cria vários significados numa narrativa complexa, que se desenrola em absurdos poucos minutos. A parte fílmica que serviu de base para Maddin no filme é La roue, de Abel Gance. O título refere-se ao desenho The Eye Like A Strange Balloon, de Redon, que prefigurou o Surrealismo.

Waiting for Twillight (Esperando pelo crepúsculo, 1997, 60’, cor, doc). Documentário sobre a vida e a obra de Guy Maddin.

Twilight Of The Ice Nymphs (Crepúsculo das ninfas de gelo, Canadá, 1997, 92’, cor, drama): um prisioneiro político retorna à sua terra natal, Mandragora, cidade imaginária no coração de uma floresta de contos de fada (vagamente inspirada na de Os Nibelungos, de Fritz Lang). O jovem logo percebe que todos os mandragorianos estão passando por crises devidas a complexos problemas amorosos. Ele mesmo acaba dividido entre o amor de uma bela viúva que vive na floresta onde se cultua uma estátua de Vênus e uma jovem ruiva que habita o castelo de um médico que coleciona estranhos objetos.

Fleshppots of Antiquity (Canadá, CM, 2000): este filme seria, segundo um crítico, “uma leitura expressionista para a moral humana”.

The Heart of World (O coração do mundo, Canadá,  2000, 6’, CM, experimental): a cientista Anna descobre que o coração do mundo está doente, aproxima-se um apocalipse. Estando o próprio coração da cientista dividido entre o amor por dois irmãos – um empreendedor fabricante de caixões e um ator que interpreta Cristo num filme sobre a Paixão, ela decide vender-se para um capitalista sujo, conseguindo a verba necessária para continuar suas pesquisas e evitar a terrível catástrofe. É o curta-metragem mais arrebatador de Guy Maddin, realizado à maneira do filme mudo soviético Aelita (Aelita, Rainha de Marte, 1924), de Yakov Protazanov.

The Saddest Music in the World (A música mais triste do mundo, Canadá, 2003,  101’, p&b e cor, drama): a mutilada rainha da cerveja, dona da maior cervejaria do Canadá, a dominadora Lady Port-Huntly (Isabella Rosselini), vitimada num acidente erótico, no qual perdeu as pernas, volta a andar com próteses de vidro cheias de cerveja, criadas por um inventor apaixonado por ela; únicas próteses que se ajustam perfeitamente aos cotos dela, as pernas de vidro com cerveja dão-lhe uma nova chance de amar. Durante a Depressão, no Canadá de 1933, ela promove um concurso para eleger o país possuidor da canção mais triste do mundo, premiando o vencedor com US$ 25 mil. Enquanto os competidores se apresentam, do flamenco da Espanha à percussão de Camarões, sucedem-se as canções mais dramáticas. Mas um falido produtor da Broadway (Mark McKinno), fazendo de tudo para ganhar, usa os músicos desclassificados de diversos países, a namorada-cantora Narcisa (Maria de Medeiros), que perdeu a memória, e se esqueceu do ex-marido, o apocalíptico concorrente da Sérvia, e a própria Lady de quem se torna amante, fazendo da juíza do concurso uma participante de seu número. Mas a paixão frustrada do músico da Sérvia faz de seu violino uma arma que estoura as pernas de vidro da Lady e mergulha o concurso num caos. Espetacular trabalho de cenografia, onde Maddin mescla diversos estilos, do Expressionismo ao Art-déco. Talvez a obra-prima do diretor.

Fancy, Fancy Being Rich (Luxo, luxo, sendo rica, Canadá,  2003, p&b,  CM, experimental), Maddin encena o surrealismo de mulheres evocando a luxúria na canção absurda da ópera Powder Her Face composta por Thomas Adès com libretto de Philip Hensher.

Cowards Bend The Knee (Os covardes se ajoelham, Canadá, 2003, p&b, drama): outra história absurda, desenrolada dentro de uma gota de esperma: captados pelas lentes de um microscópio, humanóides revivem a seu modo o imaginário clássico do Expressionismo e do Surrealismo com suas perversões ainda mais pervertidas. Assim, os braços que sacodem a coqueteleira servindo de campainha em O cão andaluz associam-se à mania do personagem em “tocar campainha” no ânus do colega de time de hockey durante o banho no vestiário; as mãos mutiladas em Orlacs Hände (As mãos de Orlac, Alemanha, 1923, p&b, mudo), de Robert Wiene, remetem à pornográfica sugestão do uso sexual do punho na sedução da proprietária do salão de beleza que é também uma clínica de abortos.

Sombra Dolorosa (Sombra Dolorosa, Canadá, 2004, 7’, cor, CM, experimental): videoclipe surrealista e perturbador, apesar do colorido esfuziante. É a história de uma viúva mexicana (Talia Pura) que desafia El Muerto para uma luta de boxe a fim de salvar seu marido da morte. Ela usa de golpes sujos, mas falha; enquanto sua filha tenta o suicídio, sendo salva por um Samaritano, El Muerto precisa comer o corpo do defunto antes do eclipse solar para que a alma dele renasça de sua barriga.

A Trip to Orphanage (Uma viagem ao orfanato, Canadá, 2004, 4’, CM): fragmento de A música mais triste do mundo.

Dracula: Pages From a Virgin’s Diary (Drácula: páginas do diário de um virgem, Canadá, 2004, 73’, p&b e cor, balé filmado): filmando a coreografia de Mark Godden para o Royal Winnipeg Ballet, baseada no Drácula de Bram Stoker, Maddin aproxima suas imagens do Nosferatu (Nosferatu, 1922), de Friedrich Murnau. O vampiro é interpretado pelo bailarino oriental Zhang Wei-Qiang.

My dad is 100 years old (Meu pai tem 100 anos, Canadá, 2005, 17’, p&b, CM, experimental): curta-metragem surrealista escrito por Isabella Rossellini, que interpreta seis papéis – Federico Fellini, Alfred Hitchcock, David Selznick, Charles Chaplin, sua mãe Ingrid Bergman e ela própria, em diálogos e confrontos com a gigantesca barriga do cineasta Roberto Rossellini, seu pai, que fez cem anos em 2005.

Brand upon the Brain! (EUA, 2006, 99’, p&b, drama). Direção: Guy Maddin. Roteiro: Guy Maddin e George Toles. Edição: John Gurdebeke, Cheryll Hidalgo. Música: Jason Staczek. Fotografia: Benjamin Kasulke. Texto: Louis Negin. Desenho de Produção: Tania Kupczak. Figurino: Nina Moser. Com Erik Steffen Maahs (Guy Maddin crescido), Gretchen Krich (Mãe), Sullivan Brown (Jovem Guy Maddin), Andrew Loviska (Savage Tom), Kellan Larson (Nettie), Maya Lawson (Sis), Todd Jefferson Moore (Pai), Megan Murphy e Annette Toutonghi (Irmãs assassinas), Clara Grace Svenson (Mãe bebê), Cathleen O’Malley (Jovem Mãe), Katherine E. Scharhon (Chance Hale e Wendy Hale), Clayton Corzatte (Pai Velho), Susan Corzatte (Mãe Velha). Memórias pessoais e fantasia enlouquecida mesclam-se em mais um filme de caráter experimental de Guy Maddin. No seu universo gótico, a infância surge como um pesadelo de filme mudo de ficção científica em preto e branco. A ação de passa em Black Notch Island, onde o personagem Guy Maddin é criado por uma mãe autoritária e puritana. O filme nasceu de uma performance teatral acompanhada por orquestra ao vivo e narradores.

My Winnipeg (2007): parábola sobre a cidade natal do diretor: “Antes de se falar em mudança climática, Winnipeg era considerada a segunda cidade mais fria do mundo; espero que volte a ser de novo, com a Sibéria, uma das primeiras cidades congeladas”. Guy Maddin alerta sobre a velocidade que altera o tempo natural e esvazia os valores simples da vida, levando à perda da inocência [2]. O filme conquistou o prêmio de Melhor Produção Canadense no Festival de Toronto.

Night Mayor (EUA, 2010, 14’, p&b, CM, drama). Direção: Guy Maddin. Produzido pelo National Film Board do Canadá em comemoração aos seus 70 anos de existência, o filme mostra um cientista louco tentando captar o éter da aurora boreal e destilá-lo em forma de música celestial e imagens animadas. Isso resulta num experimento vanguardista com belas imagens referenciais do cinema mudo, no característico  estilo dos filmes de Guy Maddin…

Notas

[1] FERREIRA, Leonardo Luiz. Perfil e entrevista com Guy Maddin. Criticos, 9/9/2009.

[2] CAKOFF, Leon. Guy Maddin ousa mais com ‘My Winnipeg’. Jornal da Mostra, nº 554, 31ª Mostra, 11 fev. 2008.