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A FIGURA DO DETETIVE

 

Margaret Rutherford, a mais perfeita encarnação de Miss Marple

DANIEL BENJAMIN DE OLIVEIRA ENTREVISTA LUIZ NAZARIO para seu projeto de iniciação científica da Universidade Anhembi Morumbi, a 28 de setembro de 2005.

A figura do detetive apareceu primeiro no cinema encarnada em Sam Spade (Humphrey Bogart), em Relíquia Macabra, ou houve algum antecessor?

A figura do detetive existe desde os primeiros filmes policiais realizados nas primeiras décadas do século. Por exemplo: o detetive aventureiro Kay Hoog do filme Die Spinnen (As aranhas, 1919), de Fritz Lang. O “filme de detetive” alemão deriva, por sua vez, das pioneiras séries criminais francesas, tremendamente populares, como Fantomas (1913-1914), Judex (1915) e Les Vampires (1916), de Louis Feuillade, com a vilã Irma Vep, a vampira, interpretada pela acrobata Musidora.

Quais são os detetives mais famosos do cinema? Há uma variedade de tipos?

Os detetives mais famosos do cinema são aqueles que se tornaram antes célebres na literatura: Miss Marple e Monsieur Poirot, de Agatha Christie; Sherlock Holmes e seu caro Watson, de Conan Doyle. Existem muitas adaptações das novelas estreladas por esses personagens. Os tipos são basicamente dois: os detetives de estirpe inglesa, que trabalham com as evidências deixadas pelo criminoso no local do crime, montando quebra-cabeças mentais pelo método indutivo; e os detetives de origem americana, que confiam mais no uso da força bruta contra os suspeitos, arrancando confissões à base de interrogatórios exaustivos entrecortado por sopapos.

Como a figura do detetive evoluiu no cinema? À sombra de Sherlock, como defende o escritor Marçal Aquino, ao afirmar que ”quando se pensa em um investigador clássico, a grande referência é Sherlock Holmes. Tanto que os detetives que vieram depois, como os da ficção noir, passaram a ser variações cada vez mais distanciadas dele em função da violência urbana”?

As diferenças são culturais: uma tradição de polícia não-violenta e intelectual (inglesa) e uma tradição de polícia violenta e pragmática (americana).

Quem se opõe ao detetive no cinema? Como o tipo vilão é construído na cinematografia detetivesca?

O melhor vilão é aquele que age na sombra e de quem ninguém suspeita: poderia ser, em tese, qualquer um, mas no fim é aquele único que poderia cometer o crime.

Quais são os elementos fundamentais de uma trama detetivesca?

Crime envolto em mistério, suspense durante a investigação, falsas pistas colocadas no caminho do detetive e revelação final.

Sam Spade ainda é um ícone, alimentando o imaginário popular acerca do detetive, que se confunde com o herói noir – durão, individualista, soturno e charmoso. Sua imagem opõe-se à do detetive “real”, que trabalha em equipe e leva uma vida “normal”, tomando o cuidado de guardar o sigilo e a discrição exigidos pela profissão. A que o senhor atribui tamanha influência da personagem? Em que medida a atmosfera noir permitiu a cristalização do ícone?

Os detetives dos filmes noir não me parecem tão fascinantes assim. São brutais e cínicos, agindo de maneira pouco inteligente, descobrindo os autores dos crimes quase por acaso. Quando não são passados para trás pelos vilões e vilãs, muito mais fascinantes para mim.

Como o senhor avalia a desconstrução desse ícone através de personagens como o detetive C. W. Briggs (Woody Allen), em Escorpião de Jade – com seu físico frágil e careca proeminente – e os apatetados Ace Ventura (Jim Carrey), em filmes homônimos, e Pat Healy (Matt Dillon) em Quem vai ficar com Mary?. Eles são capazes de desmistificar a figura criada desde a literatura por Conan Doyle ou reforçam a imagem clássica através da antítese?

São paródias de detetives, umas inteligentes (Woody Allen), outras vulgares e tolas (Jim Carrey, Matt Dillon). Procuram a desmistificação através da derrisão, mas os mitos perduram e sobressaem-se diante de suas caricaturas.

Qual o papel da mulher nos filmes de detetive? Há um espaço para a mulher-detetive ou ela ainda figura mais como acompanhante – secretária, namorada, vilã?

As mulheres detetives – como Miss Marple – são personagens mais interessantes que os homens detetives, devido à aparente fragilidade delas no confronto com o Mal. Infelizmente são personagens menos comuns: poucos são os filmes nos quais as mulheres podem demonstrar sua inteligência. Se o cinema industrial é ainda um mundo de difícil acesso às mulheres cineastas, alguns dos melhores autores da literatura policial são mulheres: Agatha Christie, Patrícia Highsmith, Dorothy Sawyers, P. D. James – sem falar das mais modernas, que eu não acompanho.

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HUMPHREY BOGART

Humphrey Bogart

Os grandes estúdios de Hollywood  não distribuíam papéis segundo o talento dos atores, mas segundo o seu tipo físico. Por isso, Humphrey Bogart tornou-se o ator mais assassinado do cinema. O próprio Bogart ironizou sua situação, observando: “Nos meus primeiros 34 filmes, fui abatido 12 vezes, eletrocutado ou enforcado 8 vezes… Os meus problemas consistiam em encontrar uma maneira de dizer “aaaaargh” e de cuspir sangue. Devo dizer, entretanto, algo em meu favor: inventei e experimentei novas maneiras de segurar o ventre enquanto agonizava. Algumas ainda estão sendo utilizadas hoje em dia”.

Para Harry Cohn, Bogart não possuía um único ângulo fotogênico. Classificado como “feio” pelos produtores, o ator era sempre escalado para filmes de gangsters, terror e policiais. E, mesmo depois de ter seu talento reconhecido, na meia-idade, Bogart foi obrigado a ouvir de Jack Warner a seguinte explicação para a assinatura de um excepcional contrato de 15 anos: “Nós só assinamos porque temos certeza de que não existe risco algum de que seu rosto fique mais deteriorado do que já é”. A feiúra de Bogart era um empecilho para o estrelato, mas ele soube contorná-lo, forjando uma personalidade cativante de macho romântico, algo paranóide.

O último filme de Bogart antes de atingir o estrelado foi The Wagons Roll at Night (A tragédia do circo, EUA, 1941, 84’, p&b, drama). Direção: Ray Enright. Com Humphrey Bogart, Sylvia Sidney, Eddie Albert, Joan Leslie. Um comerciante (Albert) consegue domar um leão escapado do circo que invadira sua loja: ele se torna uma celebridade da noite para o dia. Para explorar essa súbita fama do rapaz, Nick Coster (Bogart) contrata-o como aprendiz de domador e dá-lhe o nome artístico de Varney. O domador que treina Varney é um beberrão e logo o discípulo supera o mestre, desencadeando ciúmes.  Quando o beberrão arma uma briga com Varney e é por acidente atacado pelo leão Satã, a cartomante (Sidney) tem a ideia de esconder Varney da polícia na fazenda de Nick, “até as coisas se acalmarem”.

Na fazenda, Varney conhece a irmã de Nick (Leslie) e se apaixona pela jovem, que vive afastada da vida circense porque Nick despreza seu próprio mundo: “Somos um bando de vagabundos, fracassados, trapaceiros”, ele diz a certa altura à cartomante. Mais tarde ele o reafirma: “Somos uns ciganos vagabundos, gente desqualificada.” Para salvar a irmã desse destino, Nick mantém a garota longe de seus conhecidos e a protege doentiamente: “Minha irmã será uma dama, nem que eu tenha que quebrar o pescoço dela”, ele diz exaltado.

Ao descobrir que a irmã se apaixonou pelo jovem domador, Nick torna-se paranóico: “É só eu virar as costas que encontro tudo que é verme invadindo a minha casa!”. Repuxando o lábio superior sobre a arcada dentária para fazer seu cacoete de maníaco, Bogart faz seu personagem revelar de forma metafórica algo do plano sinistro que arquiteta para matar o ‘Romeu’ durante sua estréia como domador de leões: “Vamos dar uma festa que vai ficar na história do circo!”.

A cartomante tenta salvar o ingênuo Varney das garras de Nick e segue para a fazenda a fim de preveni-lo. Como o taxi não corre o bastante, ela diz ao motorista: “Ei, chofer, tá com reumatismo? Pé na tábua!”. Ao trocar as balas verdadeiras por balas falsas do revólver que deverá ser usado pelo domador caso o leão Satã o ataque, Nick tranqüiliza Varney com uma expressão sádica disfarçada sob a máscara risonha, sabendo que a fera há de estraçalhar o jovem domador: “Com uma arma no bolso você estará tão seguro como um bebê na creche.”

The Wagons Roll at Night não é exatamente um filme sobre o circo, mas sobre as paixões que latejam sob a lona. Satã, o leão assassino, torna-se um símbolo para o personagem de Nick, o dono de circo que odeia os circenses e que, movido por esse ódio assassino, desencadeia uma tragédia. Mas o maligno Nick também revela possuir, in extremis, um bom coração: ele se arrepende de sua maldade, no último minuto, ao ver o sofrimento da irmã diante da morte iminente do jovem domador, e se sacrifica para arrancar Varney das garras de Satã.

The Malthese Falcon (O Falcão Maltês / Relíquia macabra, EUA, 1941, p&b, policial, noir). Direção: John Huston. Com Humphrey Bogart, Peter Lorre, Mary Astor. Baseado na novela de Dashiell Hammett, o filme dá vida ao personagem de  Sam Spade (Bogart), um detetive cínico e amoral, que  investiga o assassinato de seu parceiro. Personagens dúbios e sinistros, em busca de uma preciosa estatueta de falcão maltês, povoam o universo sombrio do filme, considerado um dos primeiros noir do cinema.

Bogart está especialmente sinistro em The Two Mrs. Carrolls (Inspiração trágica, EUA, 1947, 99’, p&b, suspense, noir, Warner). Direção: Peter Godfrey. Roteiro: Thomas Job, baseado na peça de Martin Vale. Com Humphrey Bogart (Geoffrey Carroll), Barbara Stanwyck (Sally Morton Carroll), Alexis Smith (Cecily Latham), Nigel Bruce (Dr. Tuttle), Isobel Elsom (Mrs. Latham), Patrick O’Moore (Charles Pennington), Ann Carter (Beatrice Carroll), Anita Sharp-Bolster (Christine), Barry Bernard (Horace Blagdon). Bigart é aí um artista mórbido, obcecado por sua “obra”, composta por estranhos e mórbidos retratos que pinta de suas esposas vampirizadas, tomadas como modelos de “anjos da morte” sempre que ele encontra novas vítimas-amantes para descartar aquelas. Os movimentos que  Bogart imprime ao seu personagem lembram os de um morcego, sobretudo na eletrizante seqüência final.

O assassinato de esposas por maridos elegantes e frios parece ter sido iniciado com a primeira versão para o cinema de Gaslight (À meia luz, 1940), de Harold Dickinson. Desde então, maridos desequilibrados e cínicos, obcecados por paixões secretas (jogos, dívidas, arte, etc.) costumam levar copos com leite ou chá envenenados para as esposas se “acalmarem” antes de dormir, matando-as lentamente ou fazendo com que elas fiquem perturbadas e loucas.

Esse e outros métodos de eliminar esposas produziram brilhantes exemplares de suspense: Suspicion (Suspeita, 1941), de Alfred Hitchcock; Gaslight (À luz de gás, 1944), de George Cukor; Notorius (Interlúdio, 1946), de Hitchcock; The Two Mrs. Carrolls (Inspiração trágica, 1947), de Peter Godfrey; The Stranger (O estranho, 1946), de Orson Welles; Monsieur Verdoux (O Barba Azul, 1947), de Charles Chaplin; Sorry, Wrong Number (Uma vida por um fio, 1948), de Anatole Litvak; Conspirator (O traidor, 1949), de Victor Saville; Sudden Fear (1952), de David Miller; Diabolique (As diabólicas, 1955), de Henri-Georges Clouzot; Midnight Lace (A teia de renda negra, 1960), de David Miller.