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MIKLÓS JANCSÓ

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Miklós Jancsó representou para o cinema húngaro, nos anos de 1960-1970, o que Glauber Rocha significou para o cinema brasileiro. Seus filmes mais famosos, como Para Electra (1975) e Rapsódia húngara (1978), trazem a marca de um artista iconoclasta, investindo seu talento contra a autoridade, mas buscando obter, através de artifícios, um lirismo ingênuo próprio das escolas socialistas do cinema.

O cinema de Jancsó tem muito de teatro filmado, mas de um teatro ao ar livre, com palcos abertos e encenações de longa duração. Os enredos apenas delineados são preenchidos com bailes, danças, festas, banquetes, banhos, farândolas, cavalgadas, jogos e orgias. O tema favorito é o usufruto dos corpos pelo poder: sempre vestidos, os militares e outros chefes cercam-se de mulheres nuas, que permanecem rodopiando à volta deles, satisfazendo, sorrindo, suas fantasias infantis.

Curiosamente, quase não há sexo nos filmes de Jancsó. É através da nudez dos belos corpos femininos, em contraste com os  rijos corpos masculinos uniformizados, que o cineasta consegue envolver seus tableaux-vivants numa atmosfera de erotismo, de um erotismo por sua vez impregnado de sugestões e pulsões sadomasoquistas.

Esse erotismo é mais carregado em Vícios privados, virtudes públicas (1976), uma co-produção húngara-italiana, onde Jancsó parece ter tido maior liberdade para encenar suas orgias ao ar livre, e onde figuram não apenas as habituais mulheres nuas em meio a autoridades sempre vestidas, mas também muitos homens nus, que participam igualmente das bacanais. É tal a naturalidade dos nudistas que os vestidos é que parecem estar nus.

O filme inicia-se com o Príncipe rolando sobre um monte de feno, completamente despido, enquanto uma banda toca em seu louvor. Depois de correr pelo parque com a suposta irmã, interpretada por Laura Betti, esta acaba por masturbá-lo ao som de uma solene marcha militar.

É o primeiro dos relacionamentos “viciosos” que envolvem três meio-irmãos da Família Real e uma baronesa, interpretada por Therèse Ann Savoy. Esses aristocratas decadentes passam seu tempo em folguedos eróticos, numa ciranda de prazeres que envolve outros parceiros, até a formação de uma verdadeira corte de devassos, que escandaliza os asseclas do velho Imperador.

“A juventude dourada do Império está à nossa disposição”, exclama o jovem Príncipe a certa altura, celebrando uma falsa festa de aniversário, apenas como um pretexto para um novo relaxamento geral dos costumes, através da adoção de diversos rituais eróticos, com ingredientes de lesbianismo, incesto e sexo grupal.

Especialmente o General mostra-se chocado com o despudor do jovem Príncipe que programa, durante a longa festa, maratonas de dança, distribuição de bebidas com afrodisíacos, exibição de genitais, profanação de imagens do Imperador e uma consagração da baronesa, que é hermafrodita e satisfaz os desejos do Príncipe de ser penetrado.

Ao tentar punir os pervertidos, o General é acossado, obrigado a despir-se e preparado para uma penetração anal. A baronesa é encarregada de sodomizar o moralista. Chegando a esse ponto, os libertinos recebem a inevitável punição, e o filme termina, melancolicamente, com os defensores do Imperador retomando a velha ordem, que parecia definitivamente decaída.

Com seu cinema dissidente, Jancsó mostra que o poder tem duas faces distintas, mas complementares: uma rígida, autoritária, repressiva; outra risonha, permissiva, liberada. Assim como o próprio Jancsó, um artista ambíguo que, em suas pretensas críticas radicais ao poder acaba por associá-lo sistematicamente ao prazer.

Jancsò tampouco assume as últimas conseqüências da liberação dos instintos. Na quebradeira de tabus que seus filmes promovem, o da homossexualidade masculina resiste bravamente enquanto os do incesto, da orgia heterossexual e do lesbianismo são espatifados. E, ao estilizar a violência e estetizar o sexo, Jancsó termina compondo afrescos coloridos e atraentes que, em tempos amorais, podem ser apreciados pelos corruptos como uma exaltação das delícias do poder.