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NOTAS À MARGEM DE UM SEMINÁRIO

Lars von Trier. Foto de Christian Geisnae.

Lars von Trier. Foto de Christian Geisnae.

No meu seminário “O cinema catastrófico” alguém lembrou que, em Melancolia, de Lars von Trier, a personagem de Justine trocava de lugar os álbuns de arte que o cunhado deixava abertos, no escritório, em imagens do construtivismo russo. Ela escolhia então, para a exibição deles, imagens de Bosch, Brueghel, etc. Com raras exceções, também não estou suportando mais a arte moderna.

Catástrofe do cinema: no princípio, havia “A Guilhotina”, uma máquina que destruía, para reciclar o material, 150 mil filmes por ano. Segundo Paolo Cherchi Usai, ela foi construída em Cenesello Balsamo, perto de Milão, recebendo toda a produção cinematográfica da Europa, para sua reciclagem industrial. Uma segunda “Guilhotina” foi construída em Millesimo (The Death of Cinema, p. 76).

O crítico Pedro Butcher declarou ter se decepcionado, na infância, ao assistir a Meteoro porque, no filme, apesar de todos os desastres, o mundo não acabava. Ele já era um crítico perverso aos dez anos de idade. Que esperar do adulto?

O perverso imagina-se escapando do maniqueísmo ao torcer pelo vilão. Nada mais infantil e idiota. Todos nós torcemos, sempre, pelo herói. O perverso torce pelo vilão dos outros, seu herói.

Vi trechos de Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles. Ah, a arrogância de José Saramago! Ele imagina a humanidade cega, menos a heroína que o representa, a médica vivida por Julianne Moore, que detém o poder por ser a única pessoa a ver ainda a realidade. Quando o japonês recupera a visão e todos se felicitam porque já se imaginam também curados, a médica se deprime com essa perspectiva, temendo ficar cega. O temor dos “saramagos”: perder o saber/poder adquirido à custa da cegueira que atribuem à humanidade, ignorante da ciência do marxismo.

Quero ver o novo filme sobre o tsunami: O impossível. Meu próximo livro será sobre o imaginário das catástrofes.