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PEDRO ALMODÓVAR

Amantes pasajeros (17)

Vi, ainda em São Paulo, Los amantes pasajeros (Os amantes passageiros, 2013), de Pedro Almodóvar: quase uma perda de tempo. Apesar dos atores bem interessantes, as piadas maliciosas e as perversões dosadas de Almodóvar – que mantém um olho no público gay, outro no público hetero, envesgando cada vez mais para arrecadar o máximo nas bilheterias – só me provocam agora uns sorrisos amarelos. Seus filmes não suam mais, seu mundo ficou muito clean e sem cheiro. Foi-se a sujeira com o escovão, ficou o brilho do sapólio. Das suas bananas nanicas sobraram as cascas, a caricaturar seu próprio estilo pop, numa auto-imitação barata e bem comportada. O sucesso matou o artista punk, cortando suas raízes, que estavam fincadas no underground. Restou o diretor borboleteando sem rumo, como seus passageiros meio gays, meio heteros, meio drogados, meio caretas, meio engraçados, meio empertigados.

Conheci Pedro Almodóvar no seu auge, quando veio apresentar El matador (O matador, 1986), no Festival do Rio, se não me engano. Ele ainda não era tão conhecido, na verdade seus filmes, ousados até o absurdo, ainda estavam cercados pelas desconfianças blasées dos críticos, que o viam como um marginal pretensioso. Sua consagração mundial viria dois anos depois, com o sucesso estrondoso de Mujeres al borde de un ataque de nervios (Mulheres à beira de um ataque de nervos, 1988). Fui à coletiva de imprensa com Edmar Pereira, sempre tão engraçado, e esse crítico divertido, que não gostava de nada, até que gostou do diretor espanhol, que, naquela altura, me entusiasmava: “Ele parece um cabeleireiro”, sussurrou-me Edmar, “um cabeleireiro que enlouqueceu.” Acho que hoje, sem mais a loucura daqueles anos, Almodóvar voltou a parecer apenas um cabeleireiro, agradando como nunca os críticos e o público.