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O CINEMA ERRANTE DE FAUSTO FUSER

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Diretor, crítico de teatro, pesquisador, doutor e mestre em artes, Fausto Fuser contribuiu de modo notável para a formação de artistas do teatro brasileiro, como professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde lecionou as disciplinas de Improvisação, Interpretação, Iluminação, Direção, Projetos Teatrais e Crítica.

Entre 1964 e 1970, Fausto Fuser estudou Cinema e Teatro na Escola Nacional Superior de Cinema da Polônia, a Filmówka, na Ulica Targowa (Rua do Mercado), na cidade de Lodz, que, ao contrário de Varsóvia, não foi alvo dos bombardeios nazistas devido à sua indústria têxtil, que interessava aos alemães.

Fuser escreveu um relato fascinante sobre sua formação na Filmówka de Lodz: seus cursos e professores, as intrigas internas, os dissabores que os artistas provavam no regime comunista, as filmagens que ele pode, com grande esforço, empreender, e os resultados de seus exames.

Numa narrativa deliciosa, evocativa, nostálgica, Fausto Fuser registra de forma viva e emocionante o dia a dia da escola onde grandes cineastas como Andrej Wajda, Roman Polanski, Jerzy Skolimowski, Andrej Munk, Krzysztof Zanussi, Krzysztof Kieślowski e Zbigniew Rybczyński deram seus primeiros passos.

Esse texto antológico, intitulado “Relatos poloneses ou Na Polônia e uma Laranja”, foi publicado pela revista PesquisAtor, n. 2/2013, da USP, e pode ser lido aqui: http://www.revistas.usp.br/pesquisator/article/view/56400.

Na Escola de Cinema de Lodz, uma parte importante dos trabalhos escolares constituía-se na realização de curtas-metragens, ali chamados de “estudos”. Fausto realizou quatro “estudos” em Lodz, que seu filho conseguiu milagrosamente, décadas depois, recuperar e trazer para o Brasil:

Noz (A faca, Polônia, 5’ 37’)’. Um operário polonês regressa bêbado para casa, à noite, depois do trabalho pesado. Nem consegue jantar. A menina tem pesadelo com o acontecido e, na manhã seguinte, a caminho da escola, livra-se do problema menor embalada por uma bossa-nova na rua principal de Lodz. 

Carmem (Carmem, Polônia, 5’ 07’’). Cantora do coral do Grande Teatro de Ópera de Lodz, na Polônia, reclama de ter sido traída pelo “sistema”, enganada com a promessa de participar de forma igualitária dos papéis de solista nas óperas. Ela faz parte do coro que espera, na coxia, atrás do cenário, o momento de cantar o encerramento da ópera. Com a morte da solista no palco, ela tem a chance de se transformar em Carmem.

Gniady (O pangaré, Polônia, 11’ 05’’). Um velho leva seu inútil pangaré para o sacrifício, em meio a recordações mais felizes, entre cavalinhos-bailarinos e sua bela treinadora, no circo da infância, distante-e-presente. No embate com a dura realidade, recusa-se a entregar os pontos.

Wluczega (O vagabundo, Polônia, 21’30’’). Desesperado por não poder sustentar a família em dificuldades um desempregado vaga pelos campos à procura de um trabalho. Mete-se em complicações com a sociedade, sonhando em partir em liberdade com os pássaros. Adaptado do conto homônimo de Guy de Maupassant.

Os filmes foram exibidos em 2008 no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo, de cujo programa eu retirei as sinopses acima. Provavelmente foram ainda exibidos em outras ocasiões, furtivamente. Nunca pude vê-los. Mas não seria uma ótima ideia lançar essas raridades – o cinema errante produzido por um talentoso estudante brasileiro na Polônia – num DVD? Fica a dica…

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ROMAN POLANSKI

Em 1977, a jovem Samantha, com 13 anos de idade, mas não mais virgem, foi posar para uma sessão de fotos, dirigida por Polanski, para a revista Vogue. A mãe de Samantha, que a empresariava,  também deve ter autorizado seu comparecimento, sozinha, à festa regada a drogas na mansão de artistas permissivos de Hollywood, onde tudo podia acontecer. Pensava essa mãe que a festa era para beber Coca-Cola e ver desenhos animados na TV?

Polanski foi condenado a 90 dias de prisão. Depois de 42 dias de cárcere, foi liberado após fechar um acordo financeiro com a vítima. Não esperou que o juiz, determinado a renegar o acordo e condená-lo a muitos anos de cadeia, concluísse o processo: fugiu dos EUA em 1978 e passou as décadas seguintes livre na Europa, filmando na Espanha, Alemanha, Itália, Suíça e Tunísia.[1]

Em 2009, convidado pelo Festival de Cinema de Zurique, onde receberia um prêmio pelo conjunto da obra, Polanksi foi subitamente detido, a pedido dos EUA, pela polícia suíça, que reativou o mandado internacional de prisão que vigora contra ele desde o processo inconcluso de 1977.

No escândalo requentado pelo politicamente correto, Polanski passou a ser perseguido pelas mídias como um perigoso pedófilo. A nova fantasia que evoca o termo pedófilo serve perigosamente para caracterizar não mais o abuso sexual de bebês e crianças por adultos, mas também o sexo consensual entre adolescentes e adultos, com forte discriminação dos homossexuais: na polêmica envolvendo sacerdotes pedófilos, uma alta autoridade do Vaticano chegou a declarar que os padres pedófilos eram apenas os homossexuais…

The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010)

Depois de passar dois meses numa prisão suíça, o cineasta ficou detido no seu chalé alpino, aguardando a decisão sobre sua extradição. Ali ele pode finalizar  a pós-produção de The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2009-2010),  mas não pode comparecer à première mundial do filme no Festival de Berlim nem pode receber o prêmio que ganhou de Melhor Diretor no 23º European Film Awards.

Em The Ghost Writer (O escritor fantasma, 2010), a arte de Roman Polanski ressente-se de uma propaganda ideológica nada sutil, concentrada na crítica – mais ou menos velada, mais ou menos óbvia – ao ex-Primeiro Ministro Tony Blair, culpado por “tudo o que deu errado na política inglesa.”

Nessa visão supercial – a partir da novela The Ghost, de Robert Harris -, a discussão do terrorismo e da tortura torna-se pífia diante do mistério enterrado no universo paranóico, que Polanski sabe como poucos criar.

O mistério é escavado aos poucos pelo Fantasma (Ewan McGregor), o personagem sem nome do escrevinhador, um tipo  simpático, mas sem noção do perigo, com o qual não conseguimos nos identificar o bastante para lamentar o que lhe ocorre nas cenas finais.

A melhor coisa do filme, aliás, é o soco verbal que o Fantasma recebe de Ruth (a ótima Olivia Williams), esposa do farsesco político Adam Lang (Pierce Brosnan), quando o escrevinhador pergunta porque ela não quis se tornar também uma política como o marido:  “E porque você não quis se tornar um bom escritor?”

O mistério até que poderia conduzir a uma revelação transcendente, como em Rosemary’s Baby (O bebê de Rosemary, EUA, 1968) ou Le Locataire (O inquilino, França, 1976). Mas Polanski evita lançar os espectadores nos abismos do terror e o filme acaba se apequenando ao refugiar-se na banalidade.

A conspiração da CIA, engendrada para manipular o governo inglês a favor dos interesses norte-americanos, transcorre de acordo com a cartilha paranóica da esquerda, sempre pronta a minimizar o terror para condenar seu combate como “paranóia estadunidense”.

Ao adaptar um best-seller antiamericano da nova literatura inglesa, Polanski deve ter querido vingar-se: embora as autoridades suíças tenham decidido em 2010 que ele não seria extraditado, o processo kafkiano continua aberto. Mas, ao ferir injustamente seus acusadores, Polanski aqui feriu também a sua arte.

Carnificine (O deus da carnificina, 2011)

Entre 31 de janeiro e 14 de março de 2011, Polanski rodou em Paris um novo huis-clos: Carnificine (O deus da carnificina, 2011), que se passa inteiramente dentro de um apartamento. Com este filme, Polanski  ganhou o prêmio de Melhor Diretor no 60º Festival de Berlim

La Vénus à la fourrure (2013)

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Vi com Cris La Vénus à la fourrure (A pele de Vênus, 2013), a partir de uma peça de David Ives. Apenas dois atores sustentam o novo huis-clos de Polanski. Após uma linda abertura pelas ruas de Paris sob um céu de chumbo, a ação transcorre toda dentro de um pequeno teatro, numa fria noite de tempestade.

Vanda Jordan (Emmanuelle Seigner), uma atriz que beira a decadência sem ter conseguido destacar-se, chega atrasada ao teste de atores para a nova peça do diretor Thomas (Mathieu Amalric), por ele adaptada do romance Vênus em casaco de pele, de Leopold von Sacher-Masoch. Abusando do visual gótico-sadomasô, Vanda pensa ser a pessoa ideal para encarnar Wanda von Dunayev.

O diretor já encerrou as audições, sem encontrar os atores certos, e não vê na candidata retardatária nenhuma qualidade especial que o comova, apressando-se em despachá-la. Com truques que apelam à vaidade e ao fetichismo do diretor, Vanda consegue, contudo, convencê-lo a mudar de ideia.

Thomas acaba ensaiando com a atriz quase a peça inteira, assumindo o papel do pervertido aristocrata Severin, que deseja ser dominado por Wanda, num jogo sadomasoquista entre atriz e diretor no entra-e-sai da pele de seus personagens. Apenas no final, quando Thomas deixar cair suas últimas defesas, Vanda revela seus verdadeiros e sinistros propósitos.

Após o nazismo na Polônia ocupada, com sua infância no gueto e o assassinato da mãe em Auschwitz; do comunismo na Polônia do pós-guerra, do qual fugiu de carro até Paris; do assassinato da primeira esposa, Sharon Tate, grávida, por quem estava apaixonado, pelos psicopatas de Charles Mason; e da suspeita infame da mídia de que ele havia participado do crime, Polanski parece aludir em La Vénus à la fourrure ao último pesadelo de sua vida.

Seigner, a segunda esposa de Polanski, que estrelou outros filmes seus, para o injusto desgosto da crítica, que recusa conhecer seu talento (ela está ótima no papel da azarada Vanda) contracena com Amalric, parecido com o cineasta, e cujo personagem cai, como o diretor na vida real, numa ratoeira sexual armada pela sanha do politicamente correto.

O politicamente correto é, de fato, a nova peste totalitária, a minar a liberdade dos indivíduos pela imposição violenta de sentimentos de culpas sociais pelas “minorias oprimidas”, numa empresa de equalização forçada.

Em La Vénus à la fourrure, Polanski mostra que ainda está em forma, agora com o apoio de sua Polônia natal, mas permanece limitado ao limbo da produção independente europeia, sem perspectivas de reinserir-se no panteão de Hollywood.

Notas

[1] http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2013/09/polanski-fala-sobre-impacto-de-condenacao-por-crime-sexual-em-1977.html.