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O INFERNO, DE MÉLIÈS A EISENSTEIN

Les quatre cents farces du diable (França, 1906), de Georges Méliès.

Em Les quatre cents farces du diable (França, 1906, 17’, p&b e cor, mudo), de Georges Méliès, recentemente restaurado, o engenheiro inglês William Crackford, fã de recordes de velocidade, vende a alma ao alquimista Alcofribazs, em troca de pílulas mágicas, que lhe permitem viajar por onde lhe dá na telha. Depois de uma cavalgada celeste, em companhia de seu mordomo John, Crackford é conduzido aos infernos: retirando seu disfarce, Alcofribazs revela ser o Satã em pessoa.

Atravessando cenários alucinantes onde pululam figuras estilizadas, o cavalo-esqueleto apocalíptico que puxa a carruagem alimenta-se de luas em forma de croissants. Essas imagens impressionaram o então menino Sergei Eisenstein, levado ao cinema por sua mãe: ele mais tarde escreveu, em suas Memórias imorais, ter sido este um dos filmes que mais o assombraram na infância. Eisenstein carregou essas imagens traumáticas até a idade adulta e reelaborou a cena do cavalo apocalíptico na famosa sequência da ponte que se abre para impedir a propagação da revolta até o bairro operário, em Oktyabr (Outubro, 1927).

A carruagem que estava prestes a atravessar a ponte é metralhada. E o cavalo branco que a puxava tem suas patas quebradas ao mesmo tempo em que o mastro da bandeira comunista é partido ao meio por uma burguesa gorda. E tudo (carruagem, cavalo, povo metralhado) despenca no abismo escavado pela ponte que se eleva, segundo as ordens do governador, para dividir a cidade de Petrogrado (ex-São Petersburgo, logo Leningrado, com o fim do comunismo novamente São Petersburgo). O regime czarista que Eisenstein associa ao poder absoluto, inserindo de contrabando a imagem da estátua gigantesca de Ramsés II na sua “montagem de atrações”, é o disfarce de Satã (o capitalismo, para os bolcheviques).

O delegado tenta, cumprindo as ordens do governador, todos a serviço de Satã, impedir a gloriosa marcha das massas trabalhadoras em direção ao comunismo. O cavalo cai e afunda, o porta-bandeira jaz massacrado pelas sombrinhas das burguesas, a bandeira vermelha se desmancha na água, onde ainda submergem, além do peito nu do militante, exemplares do Pravda (da Verdade), lançados pelos reacionários em êxtase. Mas a contrarrevolução, que a queda do cavalo apocalíptico simboliza, não venceria a guerra, a despeito das batalhas perdidas: as massas russas que viam essa tragédia projetada nas telas já desfrutavam do paraíso soviético, que financiava as grandiosas fantasias comunistas infantis de Eisenstein.

Oktyabr (Outubro, 1927), de Sergei Eisenstein.

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ALEXANDER PTUSHKO

A flor de pedra: a Fada da Floresta assume a forma de um lagarto

Alexander Ptushko (1900-1973) foi um mestre na animação em stop-motion no cinema mudo da URSS, tendo sido por muitos considerado como o “Walt Disney soviético”. Seu filme mais famoso: Kamennyy tsvetok (A flor de pedra, URSS, 1946), o primeiro filme soviético rodado inteiramente em cores – após a primeira experiência de Sergei Eisenstein em Ivã, o Terrível Parte II, utilizando ainda película colorida capturada da Alemanha, no sistema Agfacolor. O filme baseou-se no conto homônimo incluído na coletânea A caixa de malaquita (1939), de Pavel Petrovich Bazhov (1879-1950), escritor do Ural. A flor de pedra foi um dos mais belos filmes fantásticos produzidos na URSS a destilar, contudo, venenosa propaganda sobre o papel do artista num regime comunista.

Na velha Rússia, um artesão, mestre em talhar a pedra, está ficando velho, doente e fraco, e mesmo assim hesita em adotar um aprendiz. Seu neto, Danilo, cujos pais morrerem, vive com ele e passa o tempo na floresta observando a natureza. Comprometendo-se com uma jovem que o ama desde a infância, Danilo possui um raro talento para esculpir a malaquita. Quando o senhor da terra encomenda ao mestre artesão a caixa de pedra mais linda que ele seja capaz de fazer, por ter apostado 500 mil rublos com um nobre francês que sua caixa de malaquita era mais bela que a dele – sem que ele tivesse uma assim – é Danilo quem consegue, durante a última noite de trabalho, talhar na pedra a caixa maravilhosa, pois seu avô, mesmo esgotando-se de trabalhar dia e noite, não conseguira concluir o serviço dentro do prazo.

Encantado com essa obra de arte, o senhor dá a Danilo uma moeda pelo trabalho que lhe renderá os quinhentos mil rublos (a exploração do trabalho sob o capitalismo deve ficar patente no conto de fadas comunista). A esposa dele encomenda a Danilo um novo trabalho: um vaso em forma de flor. Durante a realização desse vaso de malaquita, o aprendiz desposa a jovem que o amava e que ele ama, mas não tanto quanto ama sua arte. Infeliz com o resultado do vaso em forma de flor, que todos à volta julgam, contudo, uma obra-prima, ele acredita que ainda não descobriu todos os segredos da pedra. A seu ver, seu vaso de pedra era apenas um vaso de pedra, não tinha vida como a flor, nem era tão belo como a pedra…

Durante um jantar em que os aldeões admiram o vaso em forma de flor, um camponês alerta o artista descontente com sua obra: – Cuidado com esses pensamentos, a Senhora da Floresta promete aos artífices a revelação dos segredos da pedra, mas encerra-os em seus domínios, de onde jamais ninguém retorna… Enlouquecido com essa revelação, o jovem aprendiz escapa do jantar e, nos fundos da casa, tem um misterioso encontro com a Fada, que lhe promete revelar os segredos da pedra. A Fada surge no meio de um jardim que floresce instantaneamente e marca o encontro revelador para uma data futura. A data coincide com as bodas de Danilo. Durante a festa, ele se recorda da data e abandona a noiva e os convidados para ter com a Senhora da Floresta. A Fada conduz o jovem até uma caverna escavada numa montanha de rochas, que se abrem magicamente. No interior, gigantescas estalactites e estalagmites formam encantadores salões de cristal, cada qual de cor diferente.

À medida em que eles adentram nesses salões, as vestes da Senhora da Floresta assumem formas magníficas nas mesmas tonalidades das cores dos cristais do ambiente, numa interação perfeita entre sua aparência e a das pedras brilhantes. Finalmente, a Fada oferece ao aprendiz o mais maravilhoso dos cristais, no qual ele deverá esculpir uma flor gigantesca, extraindo da experiência todos os segredos da malaquita. Danilo fica seduzido pelo desafio e se põe a trabalhar, esculpindo na pedra maravilhosa uma gigantesca flora, bela como ninguém jamais terá visto. Terminada a gigantesca flor de pedra reluzente que de tão bem talhada parece viva, Danilo quer retornar aos seus, mas a fada, ciumenta, impede que ele saia da caverna, deseja mesmo desposá-lo. Danilo sente-se ainda infeliz porque ninguém poderá admirar seu trabalho. Revolta-se. Mas a fada mostra seu poder tornando-se tão gigantesca quanto a flor de pedra.

Os anos passam, mas a noiva-viúva ainda tem esperanças de que Danilo volte para ela, e até se mudou para sua casa, cuidando do velho mestre, que se encontra nas últimas. Aprende com ele a talhar a pedra, vende seus trabalhos no mercado e decide encontrar, custe o que custar, o marido desaparecido. Embrenha-se na floresta e enfrenta as armadilhas lançadas pela fada. Neste momento, a Senhora da Floresta percebe que não terá Danilo, e permite que sua noiva penetre na caverna. Aqui, é Eurídice que resgata Orfeu do Hades: é a noiva, ativa e corajosa, quem consegue, com seu amor-mais-forte-que-a-morte, trazer Danilo de volta ao mundo dos vivos. A Senhora da Floresta que queria desposar o artista, que pretendia manter Danilo para sempre em sua caverna, depois de ter seu amor rejeitado revela que tudo não passou de uma prova, e que o jovem casal havia superado o teste da fidelidade com êxito. E, assim, os dois podem voltar para casa, e ainda recebem prêmios. A jovem ganha a caixa de joias predileta da Senhora da Floresta, que a Danilo concede a lembrança do segredo da pedra que ela lhe ensinou, com a condição de nunca revelá-los a ninguém.

Na forma de um conto de fadas que se quer “real como a vida” (segundo o velho que o conta aos meninos que lhe pedem para narrar uma história, no começo do filme), A flor de pedra destaca o papel do artista no regime soviético, que inicia em 1946 uma nova fase, após a vitória amarga (20 milhões de russos mortos) após a Segunda Guerra. O artista explorado no mundo capitalista recebe do Estado comunista uma tarefa grandiosa: ele não fará mais arte comercial, nem arte utilitária, mas Arte Pura. Não importa que o artista estatizado deva, desde então, ser isolado do mundo. É o preço da realização da Grande Arte sem finalidade comercial ou utilitária. Para criar Arte Pura o artista depende exclusivamente da Fada, isto é: do Estado – e mais precisamente de Stalin. O artista soviético é livre, pois não depende mais do corrupto senhor capitalista. Ele agora pode dedicar-se exclusivamente à Arte Pura, criar imensas e gloriosas estátuas de Stalin…

Pode parecer, à primeira vista, que a Fada-Stalin é na verdade uma Bruxa Má, um Monstro, um Demônio. Mas não: a tirania cruel, as torturas infligidas, incluindo os anos de encarceramento do artista, o sofrimento da esposa abandonada, a agonia do velho mestre esquecido em sua cabana – todos os horrores engendrados pela Fada-Monstro – que se encolhe como um lagarto para espionar e se agiganta como uma montanha para atemorizar – devem ser entendidos pelo bom comunista como apenas uma prova, que premia, ao fim e ao cabo, o amor verdadeiro. O sofrimento físico e moral imposto pelo Estado aos eleitos que ele priva da liberdade purifica o artista e fortalece a sociedade. Não há no cinema stalinista propaganda mais bela e perversa da submissão total do artista ao Estado quanto A flor de pedra.

Alexander Ptushko colaborou no roteiro e realizou a direção de arte e os efeitos especiais de Viy (URSS, 1967, cor), de Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov.

FILMOGRAFIA

Sluchay na stadione (URSS, 1928, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Shifrovanny dokument (URSS, 1928, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Sto priklyucheni (URSS, 1929, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Krepi oboronu (URSS, 1930, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Kino v derevnyu (URSS, 1930, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Vlastelin byta (URSS, 1932, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Novyy Gulliver / The New Gulliver (URSS, 1935, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Vesyolye muzykanty (URSS, 1937, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Skazka o rybake i rybke (URSS, 1937, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Zolotoy klyuchik / The Gold Key (URSS, 1939, p&b). Direção: Alexander Ptushko.

Kamennyy tsvetok (A flor de pedra, 1946).  Direção: Alexander Ptushko.

Tri vstrechi (URSS, 1948, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Sadko / The Magic Voyage of Sinbad (URSS, 1953, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Ilya Muromets / The Sword and the Dragon  (URSS, 1956, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Sampo / The Day the Earth Froze (URSS, 1959, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Alye parusa / Scarlet Sails (URSS, 1961, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Skazka o poteryannom vremeni / A Tale of Lost Times (URSS, 1964, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Story About Czar Saltan / The Tale of Tsar Saltan (URSS, 1966, cor). Direção: Alexander Ptushko.

Ruslan i Lyudmila / Ruslan and Ludmila (URSS, 1972, cor). Direção: Alexander Ptushko.

PRESERVANDO ACERVOS AUDIOVISUAIS

LUIZ NAZARIO responde a Leonardo Oliveira e Rodrigues. Partes da entrevista foram publicadas em: Preservação da memória audiovisual mineira, Jornal FUNDEP, 2008, URL: www.fundep.ufmg.br. Revisão: 27/06/2010.

Como surgiu a idéia e quando teve início a digitalização do acervo da Escola de Belas Artes?

A idéia da digitalização do acervo de vídeos da Escola de Belas Artes surgiu logo após a conclusão do Projeto Filmoteca Mineira (2003), que incluiu a digitalização de importantes títulos dos acervos de películas do FTC e do CRAV. Catalogamos então todo o acervo da Filmoteca da EBA e produzimos a Coleção Filmoteca Mineira, uma caixa com 10 DVDs contendo 50 títulos essenciais de nosso acervo, que hoje podem ser vistos pelo público na Biblioteca da EBA. Já se podem fazer pesquisas com mais facilidade sobre estes filmes, que antes tinham um acesso muito restrito. Faltava, porém, catalogar o acervo de vídeo da EBA, que possui algumas raridades e que, tal como o acervo de películas, corre o risco de desaparecer, seja pela ação do tempo, seja pelo descaso das pessoas, mais preocupadas em produzir “novidades” que em conservar as “velharias” produzidas, que um dia também foram “novidades”.

O que significa a iniciativa para a sociedade, e para a comunidade acadêmica?

Como um chamado “país em desenvolvimento”, o Brasil despreza o passado, não conserva sua produção cultural, substitui sem refletir as construções antigas pelas construções modernas, o velho pelo novo, na contramão do verdadeiro desenvolvimento, no qual o antigo é preservado com o máximo de cuidado como fonte de conhecimento e de prazer estético. Soube que a TV UFMG nada conserva de sua programação, apagando as fitas para reutilizá-las… A mentalidade “desenvolvimentista”, de crescimento destrutivo, é inimiga da memória. Outro dia, meu personal trainer, sabendo que eu trabalhava com cinema, disse-me que tinha assistido a um filme antigo no fim de semana. Fiquei imaginando que filme mudo, que clássico do cinema, o jovem esportista poderia ter visto, quando ele completou a frase: “Um filme antigo… Lá dos anos 90”. Para os jovens de hoje só conta o hic et nunc, o carpe diem… O mundo perde assim suas três dimensões, com passado, presente e futuro. Predomina a idéia unidimensional de um presente contínuo e sempre igual a si mesmo, um mundo, portanto, sem possibilidade de modificação. Por isso a idéia da conservação é revolucionária, e não interessa ao poder.

Como foi/está sendo o processo de transposição/restauração e quais os resultados já colhidos?

Estamos na primeira etapa do projeto, que consiste em catalogar todas as fitas de vídeos da Biblioteca. Nas fitas não seladas, a descrição das caixas pode não coincidir com o conteúdo gravado da TV ou gerado a partir de matrizes de produções da UFMG, doadas por professores, alunos, etc. A revisão das fitas também é necessária para avaliar o estado das cópias e a necessidade de se conservar ou descartar o material. A idéia é também substituir progressivamente os títulos identificados como importantes e que existem no mercado por DVDs selados. Para isso, elaboramos um modelo especial de ficha catalográfica, que servirá tanto para identificar e avaliar todo o conteúdo das fitas quanto para lançar seus dados no sistema Pergamum. Isto será feito com as fitas seladas e também com aquelas que forem identificadas como produções locais, numa forma de divulgação universal de sua existência muito interessante para todos os envolvidos nestas produções. Já o acesso às fitas não seladas e de produção local será, em respeito aos direitos autorais, restrito ao espaço da Biblioteca. Quanto ao processo técnico de transposição, este se encontra hoje facilitado por programas de computador como o Nero, o DivX, o Movie Maker, que autoram um DVD em poucas horas, sem maiores problemas. O projeto não contempla restauração do material, embora algumas edições corretivas nos filmes mutilados por publicidades de TV possam ser feitas. Mas os 50 títulos mais importantes do acervo, ou seja, aqueles que só existem na Biblioteca da EBA e em nenhum outro acervo, constituindo, pois, material exclusivo, estes ganharão matrizes em Mini-DV para sua conservação.

De quantos títulos é composto o acervo e quantos já foram digitalizados?

O Acervo de Vídeo da Biblioteca da EBA possui cerca de 1000 fitas em VHS e DVD, e tende a crescer com a rápida obsolescência do VHS. Hoje não se encontram mais aparelhos de vídeo à venda nos grandes magazines. O mercado já foi inteiramente digitalizado. Muitos colecionadores de vídeo estão se desfazendo de suas fitas, depois de transpor seus conteúdos para o suporte DVD. As doações de fitas de vídeo para as bibliotecas públicas serão, daqui para frente, cada vez mais freqüentes. As bibliotecas, por seu lado, não sabem como lidar com este material. Há instruções, por exemplo, para descartar toda fita que não seja selada, como foi feito com as cópias xérox dos livros. Isto é muito perigoso. Em nome do respeito dos direitos autorais podem ocorrer verdadeiros holocaustos de filmes preciosos para os pesquisadores do cinema, que não os encontram à venda no mercado sob nenhum formato. É preciso agir com cautela nos casos das “fitas piratas”, sem descartá-las cegamente, pois podem conter obras de valor para a pesquisa em cinema. Cito o caso da recente doação de um lote em VHS pela viúva do cinéfilo Antônio Fernandes dos Santos, Elvira Fernandes dos Santos. Seu marido, chamado de “Chamberlain” pelos alunos, depois de aposentar-se gravou uns 1000 filmes da TV, anotando suas fichas técnicas com cuidado. Infelizmente, os títulos deste acervo são em sua maioria dublados e interrompidos a intervalos por anúncios publicitários. Mas também são clássicos do cinema, sobretudo do cinema americano, que podem interessar aos estudiosos e pesquisadores que não dispõem de outras fontes de informação sobre as obras. Estou atualmente processando a revisão deste acervo para nele identificar as raridades que não existem no mercado sob nenhum formato e mereçam integrar a coleção da Biblioteca da EBA. Devo esclarecer ainda que digitalizar todas as fitas da Biblioteca não é um objetivo do Projeto, pois isso seria contraproducente, dada a quantidade de tempo e material necessários para levar a cabo tal tarefa. O Projeto propõe a digitalização de 50 títulos deste acervo – as produções locais de maior valor, que não se encontram digitalizadas em DVD’s, que possam ser encontrados no mercado, preservando a memória do cinema da UFMG, que não existe em outros arquivos de filme.

Quais são os tipos de filme do acervo?

Há um pouco de tudo: filmes narrativos clássicos (Charles Chaplin, Fritz Lang, Sergei Eisenstein, Luis Buñuel, Alfred Hitchcock, Orson Welles, etc.) e modernos (Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini, Werner Herzog, David Lynch, Tim Burton, etc.); filmes brasileiros (Igino Bonfioli, Humberto Mauro, Alberto Cavalcanti, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, etc.) documentários (A história do Oscar, em dez programas, ou 90 Anos de Cinema: Uma Aventura Brasileira, em seis programas, por exemplo); entrevistas com professores; aulas gravadas sobre animação e história do cinema; vídeos institucionais sobre restauração e história da arte; animações mundiais e locais; produções de oficinas de arte oferecidas nos festivais de inverno de Ouro Preto; exercícios de pencil test realizados em cursos de animação na Escola.

Quais são as obras mais raras ou importantes?

Do ponto de visto do Projeto, que está de certa forma organizando o Acervo de Vídeo da Biblioteca da EBA, as obras mais importantes não são as cópias dos clássicos, das obras-primas, dos filmes consagrados pela História do Cinema. Estes já se encontram preservados pelos grandes arquivos mundiais de filmes e cada vez mais intensamente digitalizados no mercado mundial do DVD. O que conta para nós são as obras produzidas em Minas, sobretudo na UFMG, especialmente na Escola de Belas Artes: somente aqui existem estas obras, aqui elas devem ser preservadas, e a partir daqui tornadas acessíveis. Também considero importantes e raras as fitas com títulos que não podem ser encontrados em DVD ou VHS em nenhum mercado. A vida útil do vídeo é de apenas dez, no máximo quinze anos. Um DVD em tese dura décadas, se bem conservado, mas pode cair no chão, riscar e perder-se de uma hora para outra. Pode-se, porém, gravar seu conteúdo no disco rígido de um computador ou numa fita Mini-DV e com este material pode-se fazer uma nova cópia, exatamente igual à que se perdeu, prolongando indefinidamente a vida da cópia.

Alguma delas, em específico, demandou cuidado especial?

Ainda não entramos na fase da digitalização, estamos na fase de catalogação de todo o acervo, e já temos mais de duzentas fichas catalográficas completas. Isso significa que 200 fitas já passaram pela revisão dos bolsistas e alunos voluntários da EBA envolvidos no Projeto, e que já podemos ter um mapa muito preciso do conteúdo e do estado destas fitas, um lote que consideramos prioritário para o projeto, isto é, as fitas de produção local. É com base nestas fichas que poderemos selecionar as verdadeiras raridades, dentro do número limitado de digitalizações que nos propomos cumprir, dentro do prazo de um ano do Projeto, e com o equipamento e o material adquiridos especificamente para isto. Naturalmente, montada a estrutura da digitalização na Ophicina Digital do FTC e da Biblioteca da EBA, novos DVDs a partir das fitas do acervo poderão ser feitos, sempre que necessário, mesmo após o término do Projeto, que se encerra em dezembro de 2008. Acredito que a digitalização de nosso acervo de vídeos entrará, assim, na rotina de trabalho da Biblioteca da EBA e da Ophicina Digital do FTC. Lamento apenas que as VHS’s da Biblioteca do Teatro Universitário, que eu esperava que fossem integradas ao Acervo da EBA, não possam ser revisadas neste Projeto, uma vez que permanece incerto o destino deste acervo, de 400 fitas, que devem conter raridades, doadas pelo crítico, artista e professor Paula Lima, que viveu na Inglaterra e foi secretário da grande atriz de teatro e cinema Vivien Leigh, a estrela de …E o vento levou. Temo que o vento também leve os vídeos do acervo Paula Lima, isto é, que o tempo apague suas fitas…

O que representa a difusão do DVD e do cinema digital para a produção audiovisual brasileira?

Este mercado ganhou uma amplidão impressionante na última década, para a delícia e o desespero dos cinéfilos colecionadores, que hoje, pela primeira vez desde o nascimento da Sétima Arte, podem ter acesso a uma história viva e sempre ampliada do cinema. Imagine que na minha adolescência em São Paulo eu me dava por feliz quando conseguia assistir, depois de rodar toda a cidade, numa sala remota e empoeirada, com projeção sofrível, a uma cópia riscada, turva, incompleta, de um filme como Metropolis, de Fritz Lang. Recentemente este filme ganhou a restauração digital mais perfeita já realizada numa película, incluindo a regravação da partitura original, nunca antes retomada desde a estréia na Berlim de 1927, pois redescoberta no espólio do compositor depois de dada como perdida, e tudo isso sendo lançado num pequeno disco que podemos adquirir pela Internet, com dinheiro digital, sem sair de casa. Curiosamente, pouco depois foi encontrada uma nova cópia do filme, e todo esse esforço de restauração deverá ser refeito para a produção de uma cópia ainda mais completa, que será lançada numa caixa mais sofisticada, etc. Estamos vivemos um mundo completamente novo, onde o conhecimento é reciclado numa velocidade incrível, com diversas conseqüências, boas e más. Uma delas, talvez a pior, seja o fim do cinema. Assisti ao filme O outro lado numa sala com projeção digital e não pude diferenciar a imagem na tela de uma película projetada, e fiquei triste, pois percebi que estamos chegando ao fim do cinema. Primeiro acabaram os palácios do cinema, depois as salas de rua, agora a película é substituída pelo vídeo. Logo só teremos salas digitais, e cópias em películas serão coisas do passado, junto com os laboratórios, os distribuidores, os projecionistas… O cinema era uma idéia interessante… Obrigava-nos a sair de casa, a ter outros amigos cinéfilos, a marcar encontros, a debater os filmes, a ter uma vida social. Nós cinéfilos fazíamos os maiores sacrifícios para ver um filme, pois sabíamos que, se o perdêssemos, nunca mais voltaríamos a vê-lo. Agora não me aborreço mais se perder todos os filmes em cartaz; posso adquirir uma cópia dele em DVD, assistir à sua reprise na TV a cabo, ver pedaços dele na Internet… Assim nos fechamos cada vez mais em casulos, sem vida social, sem maratonas pelas grandes salas de cinema, sem tardes passadas em sebos e livrarias acolhedoras, sem leitura de jornais em mesas de cafés. Passamos a ser alimentados somente pelo tubo digital, correndo como ratos de laboratório numa esteira que vai da telinha do computador à telinha da TV. Quanto ao audiovisual brasileiro, creio que ele se fará cada vez mais em meio digital, pois o cinema realizado e exibido em película se tornará, cada vez mais, um luxo, um requinte, um prazer raro só experimentado nas grandes capitais do Primeiro Mundo, como Paris, Berlim, Nova York. No resto do mundo, só haverá pequenas salas digitais para nostálgicos do cinema que ainda ousarem sair de casa em busca de outras paisagens, e de outros cinéfilos, que já não existem mais…

Qual a importância da Fundep para a viabilização do projeto?

A Fundep tem uma importância fundamental na medida em que, cuidando da parte burocrática e não-acadêmica do projeto, como aquisição de equipamentos e materiais, contratação de estagiários, pagamento de bolsistas, administração de recursos, permite que os pesquisadores concentrem-se no que efetivamente sabem fazer, otimizando o tempo da pesquisa, que deve ser finalizada dentro de um prazo sempre curto, tendo em vista que ela se processa em meio às obrigações didáticas do professor, entre os intervalos das orientações de alunos, da preparação das aulas, da produção de artigos e livros, da realização de cursos e palestras, das reuniões e concursos, e mesmo das entrevistas de divulgação do próprio projeto…

Qual é a sua avaliação do momento atual do cinema e audiovisual no Brasil?

Eu sou uma força do passado, escreveu Pier Paolo Pasolini. Como este escritor e cineasta italiano, valorizo muito o passado, gosto tanto do antigo que o moderno me interessa pouco. Assim, não acompanho a produção atual, todo o tempo que tenho livre eu passo mergulhado no cinema clássico, na grande literatura, na alta filosofia. Nada que seja momentoso, novo, jovem, louco, bombante, fashion, me atrai. Prefiro a dimensão humana que se perdeu em algum hiato do tempo e que recusa retornar ao mundo presente.