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SHOAH

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Depoimento dado à repórter Elemara Duarte, parcialmente publicado no jornal Hoje em Dia, a 2 de abril de 2013, a propósito do debate sobre o filme Shoah, lançado em caixa com cinco DVDs, a 4 de abril de 2013, na Sala Humberto Mauro, em Belo Horizonte.

Por que e por quem Shoah é considerado o filme “mais importante sobre o Holocausto”?

Shoah (1974-1985), de Claude Lanzmann, é considerado pela maioria dos historiadores como o filme mais importante sobre o Holocausto, por ser a primeira investigação cinematográfica profunda sobre o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra, depois dos curtas-metragens Nuit et Brouillard (1955), de Alain Resnais, e In Thy Blood Live (1962), de David Perlov. O longo documentário de Lanzmann não se limita a entrevistar as vítimas sobreviventes, mas também os carrascos, os colaboradores ativos e os observadores indiferentes, além de contar com a assessoria do maior historiador do Holocausto, Raul Hilberg, autor do primeiro estudo sobre o tema, A destruição dos judeus da Europa, livro monumental, finalizado em 1955, e que levou anos até ser aceito pelos editores para ser publicado, em 1961, pois falar do Holocausto ainda era tabu. Foi  somente a partir da minissérie de TV Holocausto (1978) que o tema se popularizou. O filme foi na época muito criticado por banalizar o Holocausto, o que Shoah não faz de modo algum, recusando usar imagens de arquivo, mantendo o espectador sempre no presente, a imaginar o que aconteceu no passado, nos campos de extermínio montados na Polônia.

Quando e como foi a preparação e a repercussão na exibição do filme no Rio, na primeira vez?

Não sei, eu morava em São Paulo, na época. O filme só havia sido exibido no Rio, e eu esperava que fosse exibido na minha cidade. Mas os anos se passavam, e nada. Então tentei descobrir o porque. Uma amiga da comunidade judaica me disse que a Federação do Rio estava brigada com a de São Paulo, e não se conversavam. Então, eu me ofereci como mediador para poder trazer o filme a São Paulo. Fiz papel de diplomata e entrei em contato com a Federação do Rio, que possuía uma cópia do filme, ao que parece doada pelo próprio Lanzmann. Como se tratava de uma exibição sem finalidade comercial, organizei um seminário, com apoio do Instituto Goethe e das entidades judaicas, convidando historiadores e psicanalistas para um evento que incluía exibições de outros filmes sobre o tema. Como eu era crítico de cinema da Revista Isto É, na época, consegui, através de meus contatos com exibidores, o Cine Majestic, na Rua Augusta, para a exibição de Shoah, que ficou uma ou duas semanas em cartaz.

Há algum entrevistado com ligação com o Brasil (parentes, descendentes aqui, etc)?

Não creio. Mas Shoah foi co-editado pela então jovem israelense Yael Perlov, filha do brasileiro David Perlov, que nasceu no Rio de Janeiro, morou em Belo Horizonte e em São Paulo, depois se estabeleceu em Paris, como artista plástico, descobrindo o cinema ao trabalhar na Cinemateca Francesa como assistente de Henri Langlois. Ele imigrou depois para Israel, onde se tornou um dos principais nomes do cinema israelense e um dos criadores do Departamento de Filme e TV da Universidade de Tel Aviv. Ele filmou algumas cenas com Yael editando Shoah, que aparecem num dos filmes da série Yoman / Diaries (Diários, 1983).

Você sabe por que Claude Lanzmann optou por fazer um documentário tão longo? Hoje, aos 88 anos, ele ainda trabalha com Cinema? O que ele faz, onde vive?

Bem, a enormidade do evento exigiu uma investigação condizente. Não se pode descrever detalhadamente em duas horas o genocídio de um povo, desde as primeiras medidas de perseguição em 1933, até a criação da indústria de extermínio em massa, funcionando de 1941 até o fim da guerra. Lanzmann passou onze anos de sua vida produzindo o filme: seis anos gravando 350 horas de entrevistas em quatorze diferentes países e mais cinco anos reduzindo todo o material filmado às nove horas e meia da edição final. Lanzmann lançou recentemente suas memórias, Le Lièvre de Patagonie (A lebre da Patagônia, 2009), e creio que ainda edita a revista Les Temps Modernes, criada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, cargo que assumiu com a morte de Simone, em 1986, há 27 anos.

Em MG, há uma comunidade judaica bem pequena em relação a outros estados, como SP, o que talvez proporcionaria um público mais ligado sentimentalmente ao assunto. Ainda assim, pelos trechos que vi no YouTube há pouco, percebi que há uma imensidade e grandiosidade de valores universais abordados na obra. Você poderia falar dessas “lições de vida” que o filme mostra.

A ideia mais forte de Shoah é a indiferença dos não-judeus em relação ao Holocausto. O antissemitismo é uma fobia que independe do que os judeus façam ou deixem de fazer. O Holocausto pesa na consciência dos cristãos da Europa, devorados por um ódio irracional que se cristalizou no nazismo, que também era anticristão. Os judeus foram abandonados pelo mundo, que pouco se importou com seu genocídio. Outros grupos também foram perseguidos e exterminados, como os ciganos, os homossexuais, os Testemunhas de Jeová. Mas não havia um plano nazista para eliminar da face da Terra todos os ciganos, homossexuais ou Testemunhas de Jeová, como havia um plano nazista para exterminar todos os judeus, desde a legislação específica, passando pela propaganda dirigida e culminando com a criação do Museu da Raça Extinta. Não se pode mais falar em valores universais depois do Holocausto. Os homens não são iguais, mas diferentes, e iguais apenas quando assumem e relevam suas diferenças.

Para você, qual é o maior ensinamento que o filme traz?

Que os judeus, que sempre foram perseguidos na Diáspora por outros povos, depois de terem perdido seu Estado, com a reconquista de Israel, após o Holocausto, não podem mais ser eliminados impunemente. Os judeus não irão mais para o matadouro sem lutar. Antes de Shoah, Lanzmann fez um belo documentário sobre Israel, Porquoi Israel? (Por que Israel?, 1973), que pode ser visto, retrospectivamente, como a conclusão de sua saga. Um segundo Holocausto, agora atômico, pode ocorrer, já que lideranças islâmicas pregam o extermínio de Israel e, após o trauma do Holocausto, o mundo todo sublimou e transferiu para o Estado Judeu o ódio que dedicava ao Judeu. Mas os israelenses seguem o exemplo do Levante do Gueto de Varsóvia. O sequestro de Eichmann, refugiado na Argentina, para ser julgado em Jerusalém pelo genocídio que ajudou a organizar, foi tão exemplar quanto as sucessivas vitórias de Israel nas guerras travadas contra os países árabes que o cercam. Hoje os palestinos, divididos, criam grupos armados de resistência que se apresentam como “novos sionistas”, tomando os israelenses por nazistas, assim justificando seus atentados. Mas é uma contradição em termos: os “novos” sionistas não podem reivindicar o direito ao Estado Palestino se não reconhecem aos “velhos” sionistas imitados o direito deles ao Estado Judeu.

NICO PAPATAKIS

Nascido em Addis Ababa, na Etiópia, em 1918, de um pai grego e de uma mãe abissínia, levados ao exílio por Benito Mussolini, Niko Papatakis sobreviveu como camareiro na Grécia sob a ditadura de Metaxas, tornando-se depois modelo para pintores e aventureiro. Odocumentário Nico Papatakis, portrait d’un franc-tireur (Grécia, 2009, 45’, doc, cor), de Timon Koulmasis e Iro Siafliaki, parece revelar a história secreta que liga Nico Papatakis a Christa Päffgen, lançada como cantora do Velvet Underground por Andy Warhol: o fotógrafo Herbert Tobias teria homenageado seu ex-namorado Papatakis apelidando a modelo de “Nico”.

Papatakis chegou a Paris em 1939. Em 1947, ele criou La Rose Rouge, um cabaré onde, entre outros, apresentavam-se o surrealista Raymond Queneau, com seus “exercícios de estilo”, e a cantora existencialista Julliete Greco, que havia sido presa pela Gestapo por suas atividades de resistência. Em 1950, Papatakis abandonou o cabaré e, decidido a montar espetáculos revolucionários, lançou-se na produção de filmes: depois de desenhos animados de Henri Gruel, produziu o célebre manifesto homossexual de Jean Genet, Un Chant D’Amour (Um canto de amor, França, 1950, p&b, mudo), o primeiro filme a mostrar o sexo masculino em ereção, um curta-metragem rodado clandestinamente, e que por 25 anos permanecerá proibido.

Nos Estados Unidos, Papatakis encontrou John Cassavetes e ajudou-o a produzir Shadows. De volta a Paris, tentou adaptar para a tela o livro de Henri Alleg, La Question (A tortura).  Jean-Paul Sartre aceitou escrever o roteiro e Alain Resnais concordou em filmar, mas o projeto não foi adiante. Papatakis tentou então convencer Genet a adaptar sua peça As criadas com o intuito de manifestar sua revolta contra a guerra da Argélia. A história das irmãs Papin poderia servir, a seu ver, para uma alegoria da insurreição argelina. Mas foi Jean Vauthier quem acabou assinando o roteiro de Les Abysses (França, 1963, 90’, p&b).

Nesta impactante versão, as irmãs Michèle e Marie-Louise trabalham numa decadente propriedade vinícola que seus patrões tentam vender ao futuro genro. Ligadas por um amor incestuoso, elas se mostram histéricas por não receberem seus salários há três anos. Permanecem no emprego pela esperança da paga atrasada e também pelo prazer em extravasar seus rancores nos patrões, praticando toda espécie de maldade, até o cúmulo de matar a patroa e a filha do patrão quando este fecha o contrato para a venda da propriedade.

Papatakis declarou: “Como nenhum cineasta da Nouvelle Vague aceitou rodar esse filme, eu mesmo decidi filmar […]. Como eu tinha visto no Actors Studio, exerci pressões morais sobre minhas atrizes a fim de colocá-las em condição de exteriorizar uma dor psíquica. Jamais trabalhei na cumplicidade, e sim na oposição. Minhas filmagens sempre foram tensas artificialmente, a fim de que a imagem se beneficiasse desse clima”. Papatakis obteve das irmãs Bergé – como de todo o elenco – desempenhos exasperados e expressionistas, mas esse filme extraordinário foi exibido apenas em pequenas salas por ser então considerado muito violento.

Quando André Malraux enviou Les Abysses para representar a França no Festival de Cannes, o presidente do Sindicato dos Produtores pediu demissão. Les Abysses foi recusado pelo comitê de seleção do Festival. André Breton, Jean Genet, Jacques Prévert, Sartre e Simone de Beauvoir tomaram a defesa do filme, elogiando a polêmica realização de Papatakis.

Sartre escreveu um artigo, que foi reproduzido em diversos jornais, notadamente no Le Monde: “O cinema nos dá sua primeira tragédia: Les Abysses” [1]. Mais tarde, Simone reafirmou seu apreço pelo filme em Tout compte fait (Balanço final): “Magnífico e estranho filme onde a razão está do lado da loucura, o paraíso no mais profundo do inferno, onde o amor é pintado sob a figura do ódio. Ele mostra a revolta nua. Papatakis conseguiu a proeza de salvar o horror pela beleza sem jamais traí-la: sem que ela deixe de ser horrível. Um dos maiores filmes que eu já vi.”

Papatakis rodou na Grécia, durante a ditadura dos coronéis, Oi voskoi / Les Pâtriers du Désordre (Grécia / França, 1967, p&b), um filme que foi elogiado por Michel Foucault e Claude Lévy-Strauss. Katina, uma grega empobrecida, tenta casar seu filho adotivo Thanos com Despina, a filha de um homem rico. Mas o pai de Despina, Vlahopoulos, recusa dar a benção, preferindo que ela se case com o rico Yankos. O mimado Yankos tenta romper o relacionamento romântico entre Thanos e Despina, e os amantes planejam a fuga.

A impossibilidade de adaptar La Question não afastou Papatakis da ideia de um filme sobre a tortura: ele a abordou de forma alegórica em Gloria Mundis (França, 1976, 130’, cor), onde uma atriz (Olga Karlatos) interpreta uma terrorista argelina torturada por pára-quedistas franceses num filme que permanece inacabado. Para melhor encarnar o papel, a atriz se tortura, e a fusão de ficção e realidade faz de sua vida um inferno.

O filme foi retirado de cartaz depois que duas bombas foram colocadas nas salas que o exibiam. Foi reeditado e relançado em 2005, com meia hora a menos, outra trilha sonora e duas novas sequências: a da abertura, onde o instrutor de um curso de tortura encoraja soldados a cometerem toda atrocidade que seu patriotismo inspirar, e a da ponte parisiense de onde tombam corpos, em alusão à repressão anti-argelina de 17 de outubro de 1961.

La Photo / I Fotografia (1987) trata das dificuldades de integração dos exilados. Segundo a sinopse do filme, um jovem grego, passando por dificuldades sob a ditadura, deixa seu país em 1971 para viver na França, onde espera encontrar um parente distante que ali vive desde os anos de 1950. Consigo leva apenas uma fotografia. Ele tenta  encontrar trabalho em Paris. Mas um mal-entendido sobre a fotografia gera eventos dramáticos.

Les Equilibristes (França, 1992, 120’, cor), com Michel Piccoli (Marcel Spadice) e Lilah Dadi (Franz-Ali Aoussine), uma homenagem a Abdallah, jovem árabe que se matou depois de ter sido repudiado por seu amante, Jean Genet, foi o último filme do transgressor, romântico e independente produtor e diretor Papatakis.

Em 2003, Papatakis publicou, aos 80 anos de idade, suas memórias: Tous les désespoirs sont permis (Todos os desesperos são permitidos, Paris, Fayard, 347p). Escreveu o editor: “Habilidade consumada da narrativa, o autor faz colidir a lembrança e a antecipação das duas metades de sua vida: ele pode assim contemplá-la como um fruto redondo, que oferece ao leitor com mão generosa e distraída, como quem doa maquinalmente o último centavo que lhe resta.”


[1] Le cinéma nous donne sa première tragédie: Les Abysses, Le Monde, 19 abr. 1963, apud CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel (orgs.). Les Écrits de Sartre. Paris: Gallimard, 1970, p. 733-734.