Arquivo do mês: agosto 2011

CINEMA E MELANCOLIA

A Gruta de Vênus em Ludwig, de Luchino Visconti.

Entrevista a Guilherme Genestreti para a Folha de S. Paulo. A matéria foi publicada a 16 de agosto de 2011, no caderno “Equilíbrio” da Folha on line, no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/959019-veja-como-a-arte-aborda-o-tema-da-melancolia.shtml.

Existe alguma tradição estética da melancolia nas artes? E no cinema, em especial?

A melancolia tem um lugar importante na literatura e na pintura do romantismo. Nesse universo, o que produz a melancolia é, geralmente, o amor infeliz, não correspondido, a paixão louca destinada a jamais se consumar. O enamorado mergulha na tristeza, soçobra em seu imaginário destroçado, sente o mundo acabado, sonha com ruínas e vê “o sol negro”. Assim o escritor Gérard de Nerval, que se matou, escreveu: “Minha única estrela morreu, e meu luto constelado carrega o sol negro da melancolia”. Baudelaire compara uma mulher vislumbrada pela qual se apaixonou à primeira vista a “um sol negro, se fosse possível conceber um astro negro derramando a luz e a felicidade”. E Victor Hugo, ao atingir o fundo caótico do universo, vê “um eterno sol negro de onde raia a vida”. Como se a melancolia fosse a fonte mesma da vida…

Por que há essa relação entre a criatividade artística e a melancolia?

Creio que se começa a criar quando se é infeliz. As pessoas felizes, isto é, aquelas que se adaptaram bem à vida em sociedade na idade adulta, não sentem a necessidade de criar. Os artistas e escritores podem conhecer depois a felicidade, e continuar criando, mas na origem da criação houve alguma frustração, infelicidade, tristeza e melancolia: a descoberta de sua feiúra por Jean-Paul Sartre, o pavor da morte experimentado por Simone de Beauvoir, o horror de ser apanhado roubando e de ser chamado de ladrão vivido por Jean Genet; e assim por diante.

Onde que dá para notar, na obra de alguns cineastas, a melancolia?

Creio que a melancolia percorre todo o cinema de Ingmar Bergman, com seus personagens mergulhados em depressões existenciais que beiram a loucura, como em Através de um espelho, Persona, O silêncio, Vergonha, Gritos e sussurros. Bergman define bem a melancolia em A hora do lobo: “A hora do lobo é a hora que antecede o lusco-fusco da madrugada. É a hora em que a maioria das pessoas morre, quando o sono é mais profundo e os pesadelos mais reais. É a hora em que o insone é perseguido pelas suas piores angústias, quando os fantasmas e os demônios são mais impressionantes. A hora do lobo é também a hora em que a maioria das crianças nasce.”. Eu destacaria ainda a obra de Rainer Werner Fassbinder: veja, por exemplo, Por quê deu a louca no senhor R?, O medo corrói a alma, Eu só quero que vocês me amem, Um ano de treze luas, O direito do mais forte, Berlin Alexanderplatz, Querelle… A melancolia está presente nos filmes de fundo homossexual – já que a condição homossexual é marcada pela melancolia numa sociedade predominantemente heterossexual – desde Anders als die Andern (Diferente dos outros, 1919), de Richard Oswald, o primeiro realizado sobre o tema. A expressão dessa melancolia atinge o auge na obra de Luchino Visconti, com suas personagens corroídas por paixões infelizes e outras causas secretas, misteriosas e profundas, em Noites brancas, Morte em Veneza, Os deuses malditos, Vagas estrelas da Ursa, Ludwig, Violência e paixão. A melancolia homossexual também é recorrente na obra de outro cineasta de que gosto muito, Werner Schroeter, especialmente em Salomé e De Palermo a Wolfsburg – seus personagens arrasados pela vida trazem sempre uma lágrima no rosto.

Lars von Trier? Expressionismo alemão? A melancolia é recorrente em alguma tradição?

A melancolia – que foi muito simbolizada na pintura inglesa romântica do século XIX, pelo suicídio de Ofélia, morta afogada em Hamlet, de Shakespeare, ou pela infeliz Lady de Shalott da balada vitoriana de Tennyson -, é constante na arte expressionista e algo disso o cinema expressionista alemão conseguiu transpor para a linguagem da imagens em movimento, com personagens que arrastam sua melancolia por cenários deformados, como o estudante Allan de O gabinete do Dr. Caligari, que pergunta ao sonâmbulo Cesare quanto tempo tem de vida, recebendo como resposta “Até a aurora!”; ou o pianista interpretado por Conrad Veidt em As mãos de Orlac, que vaga à noite, ensandecido em sua mansão às escuras rejeitando suas mãos, que imagina serem as de um criminoso, após o acidente e o implante que sofreu. Mas essa tradição é mais forte no cinema existencialista nórdico, de Carl Dreyer (A paixão de Joana d’Arc, Vampiro, A palavra) a Ingmar Bergman; de Victor Sjoström (Ingeborg Holm, O vento, A letra escarlate) a Bo Widerberg (Elvira Madigan); de Mauritz Stiller (A lenda de Gosta Berlings, a Lars von Trier (Medeia, Europa, Ondas do destino, Dogville, Melancolia). A luz pálida do inverno, o frio intenso, a frieza dos homens e das relações humanas, a solidão moral e o medo do contato físico, a própria perfeição dos mecanismos sociais… tudo ali parece levar a uma profunda melancolia. É interessante como essa tradição nórdica foi preservada no cinema de Hollywood através de uma das maiores divas do cinema de todos os tempos, a sueca Greta Garbo: mesmo seus filmes americanos desenharam para ela heroínas trágicas, infelizes e melancólicas, como Susan Lenox, Anna Christie, Camille, Anna Karenina, Mata Hari…

Dá para traçar um histórico da melancolia no cinema?

A tradição começa no cinema nórdico ainda nos anos de 1910, percorre todo o cinema expressionista alemão dos anos de 1920, sendo interrompida na Alemanha pelo nazismo, que adotou o realismo com morbidez e otimismo; mas a tradição continua tingindo o cinema nórdico (Dreyer, Sjöstrom, Bergman, Widerberg), até ser retomada pelos cineastas homossexuais (como Luchino Visconti no cinema italiano; Fassbinder e Schroeter no Novo Cinema Alemão), atingindo uma nova dimensão no cinema singular do também nórdico Lars von Trier.

Há herdeiros dessa tradição hoje?

Além de Lars von Trier? Não vejo mais ninguém. A ordem mental enviada pelo consumismo é ser light, otimista, pegar leve, não levar a vida a sério demais, etc. Até os homossexuais seguem essa ordem, pois a integração deles no consumismo é cada vez maior, através da cultura de massa gay, do casamento gay, do turismo gay, e assim por diante. O cinema gay é cada vez mais um setor do cinema industrial destinado a um nicho do mercado que parece satisfazer-se com filmes em estilo sessão da tarde polvilhados com algumas cenas de sexo.

Melancolia está voltando para o cinema? Há uma onda de melancolia?

Não, porque a melancolia não é um sentimento de massa. As massas são alegres, contentes, festivas, loucas, eufóricas, perseguidoras, destrutivas, linchadoras, fascistas, jamais melancólicas. Apenas o indivíduo é melancólico. Claro que há uma melancolia de butique, artificialmente fabricada para as massas, uma melancolia fashion e prêt-à-porter: aquela vendida na saga Crepúsculo, por exemplo, com seus personagens deprimidos, vivendo, entre o sonho e a realidade, fantasias sadomasoquistas de amor vampiresco, um sucesso entre adolescentes consumistas da linha gótica, neuróticos e reprimidos.

Viu o filme Melancolia? Algo a dizer sobre ele?

Ainda não, gosto de ir ao cinema com um amigo para conversar sobre o filme depois, mas os amigos que eu mais amo aqui em Belo Horizonte andam ocupados e os outros vivem em São Paulo. Vou adiando à espera da companhia de algum deles e acabo perdendo os filmes que se acumulam na minha lista e logo saem de cartaz… Acabarei vendo sozinho. Lars von Trier é um dos poucos cineastas que produzem filmes que desafiam nossas mentes acomodadas aos clichês narrativos do cinema industrial.

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LOTTE REINIGER (1899-1981)

Silhuetas animadas por Lotte Reiniger

Lotte (Charlotte) Reiniger nasceu em Berlim em 2 de junho de 1899. Desde criança demonstrou uma habilidade extraordinária para recortar figuras em papel e animás-la em “teatrinhos” feitos de caixa de papelão. Quando o cinema surgiu, Lotte ficou maravilhada com os filmes de George Méliès. Em 1915 ao assistir a uma palestra do cineasta Paul Wegener, sobre os efeitos especiais usados em Der Golem (O Golem), que a havia fascinado, decidiu que trabalharia com aquele cineasta. Para isso entrou na Escola de Teatro de Max Reinhardt, ali assimilando as técnicas expressionistas de iluminação.

Aos dezesseis anos, Lotte já trabalhava no cinema alemão fazendo cartelas para os filmes fantásticos de Wegener utilizando a arte das silhuetas. O diretor era muito gentil com ela, oferecendo-lhe ainda pequenos papéis em seus filmes. Em 1918, ele a apresentou a um grupo de jovens talentosos (Walter Ruttman, Berthold Bartosch, Hans Richter, Carl Koch), que haviam montado um estúdio para produzir filmes científicos e experimentais, recomendando que eles a engajasem em suas produções. O primeiro filme de Lotte neste estúdio foi Das Ornament des verliebten Herzens (1919), feito com a técnica de animação de silhuetas que havia desenvolvido. O pequeno filme de cinco minutos foi exibido nos cinemas e encantou as platéias.

Em 1921 Lotte casou-se com Carl Koch e abriu com ele um estúdio de animação especializado em animação de sombras. Lotte desenhava, recortava, dobrava e animava as figurinhas de cartolina enquanto Koch operava a câmera. Fizeram assim diversos filmes publicitários com silhuetas animadas para marcas de nanquim, chocolate e pó compacto, como o encantador Das Geheimnis der Marquise (O segredo da marquesa, 1922), onde o segredo da sedução exercida pela marquesa era o emprego noturno do creme Nívea.

Durante três anos, entre 1923 e 1926, Lotte Reiniger, ajudada por Koch e pelos animadores Walter Ruttmann, Bertolt Bartosch e Alex Kardan, confeccionou sua obra máxima: Die Abenteur des Prinzen Achmed (As aventuras do príncipe Achmed, 1926), o primeiro filme de animação em longa-metragem da História, lançado dez anos antes de Snow White (Branca de Neve, 1937), de Walt Disney. Adaptado de contos de As mil e uma noites, o filme utilizava, além da animação de silhuetas, técnicas de animação em areia e cera cortada (desenvolvidas por Ruttmann). Para combinar essas diferentes técnicas, Lotte construiu uma inovadora câmera multiplana, capaz de separar a camada do background das camadas da frente, obtendo com isso um efeito tridimensional. O filme foi dedicado aos seus filhos.

Seguiram-se Doktor Dolittle und seine Tiere (Doutor Doolittle e seus animais, 1928) e Die Jagd nach dem Glück (A caça à fortuna, 1930). A partir da década de 1930, com o crescimento das companhias de Walt Disney, de Max e Dave Fleischer e dos setores de animação da Warner e da MGM, o método custoso e intensivo de animação em celulóide tornou-se o modo de produção dominante na animação, retirando o interesse comecial das animações produzidas por outros métodos. Mas podendo oferecer suas animações a um custo menor, Reiniger conseguiu manter seu pequeno estúdio em constante atividade.

Com o advento do som, Lotte Reiniger fez uma série de animações curtas com trilhas de Mozart. Na estréia dessa série na Inglaterra, Lotte conheceu John Grierson, do General Post Office Film Unit (GPO), que a convidou para fazer um filme em silhuetas para a campanha de Natal dos correios. Ela aceitou prontamente a oferta e instalou-se na Inglaterra.  Com o advento do nazismo, como Koch, tinha ascendência judaica, Lotte teve que deixar a Alemanha em 1933, estabelecendo-se na Inglaterra, onde permaneceu durante e depois da guerra, criando animações em sombras para filmes publicitários para a BBC, a American TV e outros patrocinadores.

Lotte Reiniger foi a primeira mulher a destacar-se na arte da animação. Dedicou sua vida a animar silhuetas recortadas em cartolina preta sobre uma placa de vidro transparente, iluminada por baixo. Sua arte é devedora da antiga arte das sombras chinesas e indianas, conhecida na Europa desde o século XVIII, e que influenciou a produção das silhuetas, consagradas nos séculos XVIII e XIX, antes do advento da fotografia. Utilizando temas populares de óperas clássicas, lendas orientais e contos de fadas, Lotte transpôs aquelas artes tradicionais para o novo meio técnico do cinema.

Lotte adorava o público infantil, que tão crítico quanto agradecido. Fez mais de quarenta filmes de recortes. Com a morte de Koch, seu parceiro por quarenta anos, Lotte interrompeu sua produção, escrevendo os livros Shadowplays e Shadowfilms, antes de morrer a 19 de junho de 1981. Algumas de suas obras foram destruídas pelos nazistas durante a guerra, mas muitas sobreviveram, e foram agora reunidas numa maravilhosa coleção em DVD com oito discos. Essas animações falam-nos de uma dimensão imponderável que nos abriga contra a violência do mundo. Uma tesoura mágica conduz-nos por florestas de luzes e sombras até o reino mítico de Reiniger, onde habitam monstros de cartolina, príncipes de papel e fadas de seda.

Filmografia

Rübezahls Hochzeit (Alemanha, 1916). Créditos do filme de Paul Wegener.

Die Schöne Prinzessin von China (Alemanha, 1916). Decoração de set e efeitos.

Der Rattenfänger von Hamelin (Alemanha, 1918). Créditos.

Das Ornament des verliebten Herzens (Alemanha, 1919).

Der fliegende Koffer (Alemanha, 1919).

Aschenputtel (Cinderella, Alemanha, 1919).

Amor und das standhafte Liebespaar (Alemanha, 1920).

Der verlorene Schatten (Alemanha, 1920). Seqüência em animação do filme.

Der Stern von Bethlehem (Alemanha, 1922).

Dornröschen (Alemanha, 1922).

Das Geheimnis der Marquise (O segredo da marquesa, 1922). Filme publicitário. O segredo da sedução exercida pela marquesa é o emprego noturno do creme Nívea.

Die Geschichte des Prinzen Achmed / Die Abenteuer des Prinzen Achmed (As aventuras do príncipe Achmed, 1926). Primeira animação de longa metragem da história do cinema.

Der scheintote Chinese (Alemanha, 1928). Segmento de Die Abenteuer des Prinzen Achmed.

Doktor Dolittle und seine Tiere (Doutor Doolittle e seus animais, Alemanha, 1928, 25’, p&b, animação de silhuetas), segundo contos de Hugh Lofting, dividido em três episódios: “Die Reise nach Afrika” (Viagem à África), “Die Affenbrucke” (A ponte dos macacos) e “Abenteuer: Die Affenkrankheit” (A doença dos macacos).

Zehn Minuten Mozart (Alemanha, 1930).

Die Jagd nach dem Glück (Alemanha, 1930). Seqüência em animação do filme.

Harlekin (Alemanha, 1931).

Sissi (Alemanha, 1932). Interlúdio para a première de uma ópera.

Carmen (Alemanha, 1933, p&b, animação de silhuetas).

Don Quichotte (França, 1933). Seqüência em animação do filme de Georg Pabst.

Das rollende Rad (Alemanha, 1934).

Der Graf von Carabas (Alemanha, 1934).

Das gestohlene Herz (Alemanha, 1934).

Papageno (Alemanha, 1935, p&b, animação de silhuetas).

Galathea (Alemanha, 1935).

Das kleine Schornsteinfeger (Alemanha, 1935).

The King’s Breakfast (Inglaterra, 1936).

Tocher (Inglaterra, 1936). Produção: GPO.

Le Marseillaise (França, 1938). Seqüência em animação do filme de Jean Renoir.

Dream Circus (Inglaterra, 1939). Inacabado.

L’elisir d’Amore (Inglaterra, 1939). Inacabado.

Mary’s Birthday (Inglaterra, 1951).

Aladdin (Inglaterra, 1953). Realizado para a TV.

The Magic Horse (Inglaterra, 1953). Realizado para a TV.

Snow White and Rose Red (Inglaterra, 1953). Realizado para a TV.

The Three Wishes (Inglaterra, 1954). Realizado para a TV.

The Grasshopper and the Ant (A cigarra e a formiga, Inglaterra, 1954, 10’, p&b, animação de silhuetas). Adaptação da fábula de La Fontaine. Realizado para a TV.

The Frog Prince (Inglaterra, 1954). Realizado para a TV.

The Gallant Little Tailor (Inglaterra, 1954). Realizado para a TV.

The Sleeping Beauty (A Bela Adormecida, Inglaterra, 1954, 10’, p&b, animação de silhuetas). Adaptação do conto dos Irmãos Grimm. Realizado para a TV.

Caliph Stork (O Califa Cegonha, Inglaterra, 1954, 10’, p&b, animação de silhuetas), segundo o conto de Wilhem Hauf. O feiticeiro Kashnur, ávido de poder, atrai o califa de Bagdá e seu grão-vizir para uma armadilha. Realizado para a TV.

Hansel and Gretel (Inglaterra, 1955). Realizado para a TV.

Thumbelina (Inglaterra, 1955). Realizado para a TV.

Jack and the Beanstalk (Inglaterra, 1955). Realizado para a TV.

The Star of Bethlehem (Inglaterra, 1956). Realizado para a TV.

La Belle Helene (Inglaterra, 1957). Realizado para a TV.

The Seraglio (Inglaterra, 1958). Realizado para a TV.

The Pied Piper of Hamelin (Inglaterra, 1960). Interlúdio de uma montagem teatral.

The Frog Prince (Inglaterra, 1961). Interlúdio de uma montagem teatral.

Wee Sandy (Inglaterra, 1962). Interlúdio de uma montagem teatral.

Cinderella (Inglaterra, 1963). Interlúdio de uma montagem teatral.

The Lost Son (Inglaterra, 1974). Interlúdio de uma montagem teatral.

Aucassin et Nicolette (Canadá, 1976, cor, animação de silhuetas). Interlúdio de uma montagem teatral.

The Rose and the Ring (Inglaterra, 1979). Interlúdio de uma montagem teatral.