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OS FILMES DE 1939

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Depoimento ao repórter Daniel Oliveira, do jornal O Tempo, a 26 de fevereiro de 2014.

Daniel Oliveira: A safra hollywoodiana de 1939 é considerada por muitos críticos como a mais icônica de Hollywood até hoje. Filmes como “E o Vento Levou”, “No Tempo das Diligências” e “O Mágico de Oz” permanecem muito fortes no imaginário dos cinéfilos e do público em geral, resistindo até a outros filmes de maior mérito artístico ou mais importantes para a linguagem cinematográfica. Você acha que essa força pode estar ligada ao fato de que, tendo sido lançados em 1939, esses longas foram produzidos no início daquele ano, ou em 1938, sendo as últimas grande produções do mundo pré-guerra e, portanto, os derradeiros representantes de um imaginário romântico (Vento), fantasioso (Oz), heroico (Diligências) e satírico (Ninotchka), típico do cinema clássico, que seria inevitavelmente abalado e alterado pelos horrores do conflito na Europa?

Luiz Nazario: Esses filmes estão realmente entre os melhores filmes de todos os tempos, e mantiveram até hoje seu interesse junto ao público porque resistiram à prova do tempo. E o vento levou, além de cenas grandiosas e de uma Vivien Leigh no auge da beleza, possui uma fotografia em Tecnicolor que poucos filmes conseguiram superar. No tempo das diligências é um melhores faroestes da história do cinema. O mágico de Oz, a despeito de seu artificialismo, reúne tantas qualidades (como Judy Garland cantando Over the Rainbow) e bizarrices (como a lenda do suicídio do Munchkin durante as filmagens) que continua a encantar adultos e crianças, além de cineastas sombrios como David Lynch; Ninotschka, uma comédia deliciosa, traz Greta Garbo num papel diverso da maioria de seus papéis (“Garbo ri” era a propaganda da época), e divina como sempre; O corcunda de Notre Dame é uma proeza em termos de cenários (a Notre Dame e a Paris medieval reconstruídas à perfeição nos estúdios), de maquiagem (a máscara do corcunda é impressionante) e de interpretação (Charles Laughton, espantoso no papel); O Morro dos Ventos Uivantes (1939), é outra obra-prima.

Daniel Oliveira: Esses filmes são marcos e referências de linguagem até hoje, mas carregam também um legado histórico obscuro, em termos de conteúdo (o retrato da escravidão em Vento, dos índios em Diligências, a infantilização da obra original em Oz, por ex.). Você acredita que essa dualidade – a excelência técnica compensando por narrativas nem sempre à altura – se tornaria o modelo do que Hollywood viria a se tornar hoje?

Luiz Nazario: Não creio que esses filmes carreguem um legado histórico obscuro, embora a História nunca seja um mar de rosas. Mas esse legado não se compara, em termos de horror, à história europeia, com suas Cruzadas, Inquisições, pestes, guerras, massacres, torturas, escravidões, colonialismos, fascismos, comunismos, campos de concentração e de extermínio. E o vento levou faz um retrato simpático dos sulistas, o lado derrotado e arrasado na guerra. Existe entre os liberais americanos do norte um complexo de culpa em relação aos sulistas. Mas os adeptos sulistas do Partido Democrata eram escravagistas. Os republicanos do norte, que eram os abolicionistas e representavam o progresso cultural, político e econômico, são geralmente descritos como os malvados no cinema americano, devido a esse complexo esquerdista. Tampouco vejo os índios com romantismo: eram guerreiros como os pioneiros, e numa guerra vencem os mais fortes. Quanto à infantilização de Oz, ela ocorre em toda adaptação para o cinema, porque os contos de fadas, em geral de origem europeia, são demasiadamente cruéis, refletindo uma sensibilidade endurecida por séculos de miséria moral numa Europa mergulhada em conflitos.

Daniel Oliveira: 1939 vem também em uma encruzilhada, não só pelo início da Guerra. Em pouco tempo, Hitchcock chegaria a Hollywood, o cinema noir chegaria às telas e a “cara” das produções ficaria cada vez mais na mão de seus diretores. Como curiosidade, George Cukor começa ligado a Ninotchka, tem que largá-lo por E o Vento, e acaba como substituto em Oz por algumas semanas, após ser demitido por Selznick: um pequeno retrato de como as coisas funcionavam na época. Você diria que 1939 talvez marque um auge do sistema dos “grandes produtores” e que, a partir dali, os diretores ganhariam gradativamente mais autoria de suas obras?

Luiz Nazario: Os diretores nunca terão autonomia em Hollywood. Os estúdios só começaram a decair no final dos anos de 1950, com a crescente massificação da TV, que roubou o grande público das salas de cinema. Com a guerra, há grandes mudanças no sistema de produção, com a intervenção do governo para a produção de filmes de propaganda de guerra e de filmes antinazistas; há rompimento de exportações de filmes para os países do Eixo e para os países ocupados pelos nazistas, mas a posição dos diretores sempre foi a de um empregado do estúdio, devendo se limitar a filmar o roteiro, sem querer “se expressar”, como os autores de cinema imaginados pelos críticos do Cahiers du Cinéma.

Daniel Oliveira: Fora de Hollywood, um dos grandes destaques do ano foi A regra do jogo, de Jean Renoir. Existe algum título, dentre essa safra de 39, que você destaque como mais relevante para a história do cinema, ou mesmo algum que seja subestimado ou esquecido perto desses pilares blockbusters de Oz e E o vento…?

Luiz NazarioA regra do jogo, de Jean Renoir, é um clássico do realismo poético francês, e no mesmo ano temos outro clássico desse cinema: Trágico amanhecer, de Marcel Carné. Gosto muito de O pássaro azul, uma fantasia realizada pela Fox em resposta a O mágico de Oz, da Metro, estrelado pela recentemente falecida Shirley Temple. Foi também filmado em deslumbrante tecnicolor em 1939, lançado em janeiro de 1940, inspirado na peça de Maurice Maeterlinck, mas fracassou na bilheteria. Possui uma sequência muito poética, que se passa numa espécie de limbo, onde as crianças aguardam o momento de serem chamadas para nascer na Terra. Um menino belo e triste, que encarnará num comunista, pois deseja justiça e igualdade, teme nascer: “Vão me destruir!”. Um jovem casal chora porque sabe que quando um nascer o outro terá morrido, e o rapaz, ao ser chamado, separando-se da amada para sempre, diz que será a pessoa mais infeliz da Terra. Também adoro Vitória amarga, onde Bette Davis é uma jovem grã-fina que age como uma louca, porque foi diagnosticada com câncer e resta-lhe pouco tempo de vida. São muitos os filmes notáveis realizados nesse ano: Gunga Din, Beau Geste, A mocidade de Lincoln, O paraíso infernal, De ratos e homens, Adeus, Mr. Chips, As mulheres, Heróis esquecidos, Confissões de um espião nazista, E as chuvas chegaram, o espantoso filme de terror O monstro humano, a curiosa animação As aventuras de Gulliver… Foi uma grande safra.

DEPOIMENTO PUBLICADO

Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 9 de março de 2014.

(1) 1939, o ano que se eternizou nas telas.

(2) Clássico francês estreou no período.

(3) Outros clássicos se escondem sob a sombra dos grandes sucessos do ano.

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O CINEMA ERRANTE

Luiz Nazario por Cláudia Jussan.

Luiz Nazario por Cláudia Jussan.

Luiz Nazario é entrevistado por Fernando de Oliveira sobre seu novo livro, O cinema errante, onde analisa as trajetórias dos cineastas Alberto Cavalcanti, Glauber Rocha e David Perlov. A entrevista foi  publicada sob o título Trajetórias em comum, no caderno Tempos Modernos, do Diário Regional de Santa Cruz do Sul, a 28 jun. 2013. (Matéria de capa.)  Os cortes por falta de espaço da versão publicada  [PDF] foram reinseridos na versão corrigida abaixo.

O que o motivou a escrever O Cinema Errante?

Fui convidado pela Editora Perspectiva para escrever um livro sobre o cineasta israelense David Perlov, nascido no Brasil, em colaboração com a viúva dele, Mira Perlov, que me enviou filmes, artigos e entrevistas que me permitiram conhecer melhor o personagem. Mas no meio do caminho Mira desistiu do projeto: o livro foi abortado. Fiquei frustrado, porque tinha investido meses de trabalho na pesquisa. Mais alguns meses se passaram até que me dei conta da existência de uma ligação sutil entre Perlov e dois outros cineastas brasileiros “malditos” – Alberto Cavalcanti e Glauber Rocha –, sobre os quais eu já havia publicado alguns ensaios. A trajetória atribulada dos três diretores incluía o exílio voluntário do Brasil, país com o qual continuaram a manter profunda relação afetiva. Meus ensaios sobre eles também giravam sobre temas atuais: a identidade judaica, o populismo brasileiro, a cultura homofóbica, a utopia esquerdista, a arte engajada, o cinema da vida. Propus, então, à Perspectiva, um livro praticamente pronto, reunindo meus ensaios sobre Cavalcanti, Glauber e Perlov. Porém, à medida que eu relia os ensaios para abrigá-los sob o mesmo conceito de errância, eu os corrigia, ampliava e modificava, refazendo inúmeras vezes a obra que eu acreditava ter terminado. O que seria apenas uma reunião de ensaios já escritos custou-me, além do ano gasto na pesquisa de Perlov, mais três anos de trabalho de atualização. Só um editor visionário como o Jacó Guinsburg, que é também escritor, e um dos melhores do Brasil, consegue suportar meu perfeccionismo. O cinema errante é dedicado a ele, e, claro, à Mira Perlov, que desencadeou todo o processo.

Por que deu esse título ao livro?

Durante as pesquisas que fiz na Alemanha para minha tese Imaginários da destruição (1990-1994), sob a orientação de Anita Novinsky, que marcou profundamente minha formação, e de Michael Prinz, que me ajudou nas questões práticas de minha estadia naquele país, percebi a obsessão da propaganda nazista com a questão da errância. A ideologia nazista apontava como ideal de vida a fixação eterna no solo da pátria, ressaltando a ligação da terra com o sangue, da nação com a “raça”. Hitler desenvolveu a cultura do Blut und Boden (Sangue e Solo), expressão cuja criação é atribuída ao geopolítico general Karl Haushofer e popularizada pelo ideólogo nazista Walther Darré, para justificar a conquista do “espaço vital para a raça ariana”, legitimando a invasão dos países do Leste e o extermínio dos judeus, o “povo errante”, sem terra nem pátria. O mais virulento dos filmes de propaganda nazista direta gira em torno desse conceito: Der ewige Jude (O eterno judeu / O judeu errante, 1940). A esquerda, em tese humanista, antinazista e internacionalista, adotou, de fato, uma variação do ideal do Blut und Boden, pregando o nacionalismo, “racializando” a questão social, naturalizando a História, sufocando a ideia transcendente da liberdade no imanentismo da  “cultura das raízes”, do retorno à “natureza selvagem”, do culto anti-intelectual ao “primitivo”, da adoção do  “indigenismo”, da exaltação da “raça negra”, das manifestações do “povo unido que jamais será vencido”, etc. Desde então, procuro identificar, no caldo de nossa cultura populista, as formas da errância que resistem à assimilação que dominou toda a América Latina.

Como foi a pesquisa para escrever o livro?

Cada autor teve o seu momento marcante em minha vida. As pesquisas que fiz sobre Glauber se deram nos anos de 1970-1980, no final da ditadura, quando o Cinema Novo dominava o cenário cultural brasileiro. Mais tarde, após a leitura do excelente livro de cinema Filme e realidade, interessei-me pela trajetória de seu autor, Alberto Cavalcanti, talvez o cineasta brasileiro mais importante de todos os tempos, e o menos conhecido no Brasil. Finalmente, alguns anos atrás, eu pude conhecer, em primeira mão, toda a obra de Perlov, através de sua viúva, Mira, que me deu acesso ao seu arquivo pessoal, fornecendo-me cópias de quase todos os filmes, além de materiais inéditos, como uma longa entrevista impublicável, pois pessimamente transcrita, feita com Perlov pelo jornalista Alberto Dines, e que me forneceu pistas preciosas.

Quais as ligações ideológicas e estéticas entre Alberto Cavalcanti, David Perlov e Glauber Rocha?

Os três cineastas desenvolveram a maior parte de suas obras no exílio, longe do Brasil, em outras línguas. Seus filmes são falados em diversos idiomas: português, hebraico, inglês, francês, alemão, italiano, espanhol. Os três autores assumiram o cosmopolitismo, diversas formas de internacionalismo, exilados do Brasil em diversos países, em diferentes circunstâncias, mas, curiosamente, nenhum deles fez um filme em Hollywood, embora não faltassem convites, demonstrando uma espécie de antiamericanismo atávico, caraterística muito forte entre os brasileiros. Todos os três também se bateram, teoricamente, por um cinema da realidade, embora seus filmes tenham uma estética diversificada, pouco realista, antes expressionista, simbólica, naturalista, alegórica, subjetiva e intimista. E como os três percorreram uma trajetória que, na somatória de suas filmografias, vai do cinema mudo ao cinema contemporâneo, e foram, além de cineastas, teóricos do cinema, meus ensaios também percorrem, com seus personagens, alguns dos marcos principais da teoria e da história do cinema.

Como vê hoje o conceito “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, cunhada por Glauber Rocha?

O conceito teve uma sobrevida muito rica, embora tenha sido modificado em sua essência. O cineasta Lars von Trier, por exemplo, adotou o método, mas transformando a câmera única em diversas câmeras, para editar à vontade os pontos de vista registrados, criando efeitos surpreendentes. O cinema digital levou o conceito aos seus limites, mas já afastado da “estética da fome” de Glauber, permitindo o surgimento de uma quantidade enorme de “cineastas”, cujo destino é incerto…

David Perlov dizia que seus diários filmados eram o seu “bilhete de identidade” pelo qual ele tentava “tocar a frágil fronteira entre a vida e a arte”. O que acha disso?

Os Diários de Perlov inserem-se num movimento independente do cinema, que nasceu no underground, procurando usar as novas câmeras leves, de 16 mm como uma caneta, posta na mão do cineasta, que poderia agora dedicar-se a registrar momentos especiais ou banais de sua própria vida, ou expressar suas ideias e sentimentos sem a necessidade de um estúdio de cinema, de uma grande produtora. Sua origem pode ser buscada no manifesto da caméra-stylo lançado por Alexandre Astruc em 1948, e onde ele afirma que, se vivesse hoje, Descartes se trancaria no seu quarto e escreveria seu Discurso do método com uma câmera 16 mm e película. É o mesmo sentimento que se apossou dos cineastas da Nouvelle Vague, do cinéma-vérité, do Cinema Novo, do Angry Cinema, dos Novos Cinemas do Leste europeu, todos dotados de câmeras Arriflex e gravadores Nagra portáteis, que dispensavam os estúdios de cinema. Um estilo de cinema rejeitado, contudo, por Cavalcanti, formado no grande cinema mudo, aberto a todas as experimentações, mas sem o sacrifício da forma pelo conteúdo.

Quais você considera as suas principais descobertas decorrentes de sua pesquisa?

Creio que foi o papel ambíguo e nefasto de Glauber Rocha no jogo político brasileiro, que marcou a visão de todo esquerdista ilhado – sua demência revolucionária que, em certo momento, o leva a trair sua maior paixão, o cinema, colocando-o a serviço da Revolução, e também a trair sua pátria, colocando Cuba acima do Brasil. Quando todos os intelectuais de esquerda – Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pier Paolo Pasolini, Susan Sontag, Alberto Moravia, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Hans Magnus Enzensberger, Juan Goytisolo – protestavam contra a prisão do poeta Herberto Padilla nos cárceres de Fidel Castro, Glauber defendia o regime “revolucionário” do ditador, usufruindo regalias que lhe concediam na Ilha. Depois, rompendo com Cuba, buscou apoio junto ao governo militar, que o mantinha sob vigilância e censura, elogiando Golbery, Geisel, Figueiredo, em nome da Abertura, que não deixava de perseguir a oposição. A razão dessas contradições é paradoxal: sua paixão infeliz pelo cinema (ele não era o Eisenstein que gostaria de ser) e pelo Brasil (que não o consagrava): essas mágoas o levavam ao exílio, e aos compromissos absurdos que pagavam, contudo, seu estilo de vida caro de cineasta errante.

Na história do cinema brasileiro (e mundial), a memória de Glauber é mais viva do que a de Alberto Cavalcanti e David Perlov. Por quê?

O Brasil é, sem o saber, um país culturalmente comunista. Os grandes nomes da cultura brasileira são comunistas ou socialistas, passaram pelo Partido Comunista ou pelo Partido Socialista ou foram simpatizantes de Stalin ou de Trotsky, 0u apoiaram as ditaduras da URSS, da China e de Cuba: Oswald de Andrade, Pagu, Di Cavalcanti, Mário Pedrosa, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Nelson Pereira dos Santos, Paulo Freire, Darci Ribeiro, Jacob Gorender, Nelson Werneck Sodré, Sérgio Buarque de Holanda, Antônio Candido, Sebastião Salgado, Chico Buarque de Holanda, Fernando Morais, Marilena Chauí, etc. A lista não tem fim. A maioria dos críticos de cinema também é marxista, assim como a maioria dos acadêmicos nas universidades. Alberto Cavalcanti, que apesar de demonstrar antipatia por Hollywood, defendia a necessidade de um cinema industrial, e ainda era homossexual, não podia ser cultuado pela esquerda anticapitalista e homofóbica da época. Isso só mudou com a adesão dos grupos LGBT no campo da esquerda, numa relação precária. Tampouco Perlov, que desenvolveu toda sua obra em Israel poderia ser celebrado pela esquerda, que assumiu uma paixão totalitária pelos palestinos. Então, dos três cineastas errantes, Glauber foi o mais cultuado, porque, apesar de errante, contraditório e não alinhado, ele possuía uma violenta retórica anti-imperialista, anticapitalista e antiamericana, que faz a delícia dos esquerdistas hegemônicos na cultura brasileira, na cultura latino-americano e cada vez mais também na cultura mundial.

A partir da trajetória desses três cineastas, é possível concluir que o poder deturpa a ideologia?

Não, o poder apenas torna mais evidente, para quem mantém sua mente aberta, as deturpações que existem nas ideologias – em todas elas –, que é essencialmente uma visão deformada, parcial, distorcida da realidade, uma falsificação deliberada, feia, maliciosa, da verdade dos fatos. O próprio Marx definia a ideologia como falsa consciência.

O cinema errante, como o senhor já disse, levou quatro anos para ser cerzido. Como vê a pesquisa sobre cinema no país atualmente? Há estímulo a esse tipo de trabalho?

Só a academia permite uma pesquisa mais profunda do cinema, mas ela sofre, por isso mesmo, dos vícios acadêmicos, resultando em textos entediantes, pasteurizados e neutralizados pelo medo, com citações de autoridades e outras exigências do rigor acadêmico. Sou rigoroso por gosto e por necessidade, mas como passei antes da academia pelo jornalismo, ficou-me também o gosto da polêmica e da urgência. Creio que meu texto tende ao sintético e ao concreto, e não se enquadra no estilo abstrato da academia nem no estilo superficial do jornalismo, ele erra num limbo entre a seriedade e o deboche, o que me torna, apesar de 26 livros publicados, uma não pessoa nas letras contemporâneas.

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NO MARROCOS, COM A CRÍTICA

Críticos em Casablanca: Nazario, Pereira, Toninho (em pé), Rubinho, Fonseca (agachados). Foto: Lambe-lambe.

Durante quase quatro anos fui crítico de cinema da revista IstoÉ, tendo como editores Geraldo Mayrink, Marília Pacheco Fiorillo e Humberto Werneck. Assistia às pré-estréias da meia-noite, às sessões matutinas com cafés da manhã, às sessões para a crítica nas pequenas cabines das empresas; usufruía de uma entrada permanente de cinema e fui um dos poucos críticos convidados pela Fox Films e pela Royal Air Marrocos para visitar, numa inusitada promoção, as locações do filme The Jewel of the Nile (As jóias do Nilo, 1985), de Lewis Teague. O Marrocos era, para mim, apenas um lugar no mapa, até que me encontrei, em 1986, junto a outros críticos de cinema, a caminho da África. Seguem-se páginas inéditas do diário de minha primeira viagem internacional: no Marrocos, com a crítica…

Para Toninho – que aniversaria hoje.

No aeroporto, pouco antes da partida, além da cansativa burocracia da viagem, paira a ameaça do terrorismo líbio: todos os passageiros são revistados. Dentro do avião, um fotógrafo da Folha imagina ver uma bomba na poltrona à nossa frente: “É um fio solto”, explica-lhe o comissário de bordo. Assim, com mais de uma hora de atraso, decolamos à 1h30 do Rio de Janeiro, com destino a Casablanca. O grupo de críticos convidados inclui Antonio Gonçalves Filho, Carlos Fonseca, Geraldo Mayrink, Edmar Pereira, Nelson Hoineff, Rubens Ewald Filho, mais alguns jornalistas da área de Turismo.

Logo a viagem se transforma numa festa. Cecília, um travesti a bordo, senta-se ao lado de Rubens, ocupando, por longas horas, a poltrona de Edmar, exibindo o álbum fotográfico de seus shows eróticos. Observando tudo à distância, Geraldo se pergunta: “Será o começo de uma grande amizade?”. Assim que se livra de Cecília, Rubens se explica: “Agora já tenho onde ficar em Paris.” Depois, tiramos um retrato em grupo e passeamos em vão pelos corredores à procura de poltronas livres para vermos o filme que seria exibido. Decepcionado, Geraldo toma conta do serviço de bordo: descobriu onde a aeromoça guarda os corpos e o vinho, e assalta a reserva.

Apagadas as luzes, um francês reclama que não estamos deixando ninguém dormir com nossas discussões intermináveis. Rubens mostra-se de mau humor: “Foi o pior jantar que comi num avião.” Ao descobrir que viajamos na segunda classe, explode: “Estamos no porão do Titanic! Somos os coitadinhos de E la nave va!”. E faz a expressão indescritível da gente lamentável que embarca clandestina no navio de Fellini. Os marroquinos já se aproximam de nós, entabulando conversas fiadas. Edmar exige de Maria Emília, a public-relations da Fox, uma sessão de haxixe como parte das programações. Rubens diz que eu, fumando, escreverei mais dez livros….

A música árabe nos fones de ouvido introduz-me no estrangeiro. De madrugada, Geraldo me chama para ver o espetáculo da aurora. Por horas a fio, o sol tinge o céu de vermelho, laranja, lilás, amarelo, dourado, acima das nuvens que parecem cordilheiras, ilhas, montanhas de algodão. Geraldo conclui: “É acadêmico, mas bonito.”

Chegamos esgotados em Casablanca. Um jovem guia bem apessoado que se apresenta como Youssef nos recepciona no aeroporto Mohamed V. Nota-se, pelo rosto empapuçado, que acordou bem cedo para cumprir suas obrigações. No microônibus que nos leva a Rabat, indiferente ao nosso cansaço, ele nos explica o país detalhadamente. Sua voz é monocórdica, com forte acento árabe no francês recitado. A certa altura, Rubens pergunta: “Mas ele não desliga?”. Geraldo geme e suspira. Edmar revira os olhos. Nelson se contorce. O mal-estar é geral, mas ninguém ousa interromper o falatório. Finalmente, comovido por tantas expressões de dor, peço a Youssef que se cale imediatamente. Desconcertado, ele se acalma aos poucos. A crítica me aplaude e enaltece. Um repórter do Estado toma-me por herói. Mas as duas jornalistas da Revista Geográfica Internacional, sexualmente interessadas em Youssef, censuram-me veladamente.

Do Hotel de la Tour Hassan, em Rabat, vamos almoçar no Royal Golf Der Salam, onde, às vezes, o rei joga golpe., É um clube esplêndido, com um bem cuidado jardim de violetas, margaridas e rosas selvagens do tamanho de uma mão espalmada. Durante o almoço, imaginamos Edmar se afogando na banheira com uma overdose de haxixe e as possíveis manchetes que o caderno 2 daria: “Alegria! E o coração de Edmar não suportou” ou “Afogado na banheira. Era Edmar”. Seguimos para conhecer o palácio do Rei Hassan II, o suntuoso mausoléu construído ao lado de uma mesquita do século XII, cuja torre desabou e que abriga os restos do seu pai, Mohamed V, a quem o Marrocos deve sua independência, desde 1956. Antes de chegarmos, Geraldo tem um ataque de nervos e manda parar o ônibus. Quer voltar sozinho para o hotel e descansar. Ele é deixado no meio da rua pelo jovem guia estupefato. Sem sequer saber o nome do hotel, ele vagou por toda Rabat, sem encontrar um taxi, e chegou ao hotel milagrosamente, bem depois de nós… Toninho observa: “Os críticos comportam-se como turistas-divas!”.

Diante da Torre Hassan, Youssef explica-me que para os muçulmanos o Paraíso ganha-se pelo despeito ao outro, pela crença em Deus e no Profeta, pela peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida e pelas cinco orações diárias. O ritual das abluções é parte importante da religião islâmica. Noto que não há imagens na arte: o antropomorfismo e o zoomorfismo são proibidos pela religião. Assim como o álcool: nos bares e cafés, freqüentados exclusivamente por homens, só se bebe café com leite e chá de menta.

O interior do mausoléu todo branco é composto de pastilhas multicoloridas, que culminam num enorme lustre de bronze. Lá embaixo, ao lado do túmulo, um homem reza sobre o Corão aberto, como a velar eternamente pela alma do soberano. Nosso estranho anfitrião, Mohamed Tazi, explica que ele é pago para isso. Edmar acha tudo “maquiado demais”. O fotógrafo da Folha não entra no edifício e, diante do meu espanto, justifica-se: “Não dá para trabalhar assim; não consegui fotografar direito nem a parte exterior”, confirmando a tese de Susan Sontag, que relaciona o ato de fotografar nas férias ao sentimento de culpa de quem se aferra a uma rígida moral do trabalho.

Logo ao chegarmos ao hotel, Fonseca sofre um infarto e é obrigado a permanecer em Rabat. Seguimos para Meknes, no mesmo dia. Antes, paramos em Khemisset, toda cor de terra roxa, onde há uma fonte surrealista, composta por três cavalos e um peixe de pedra coloridos. Aí, tomamos chá de menta com marroquinos, sentado de frente para aruá. Rubens comenta: “É isso o que eles fazem no domingo? Eu era feliz e não sabia.” Edmar aproxima-se de mim e sussurra em meus ouvidos: “Nazario, você não está chocado com o reducionismo da crítica, com a falta de compreensão?”. De fato, eu estava. Os campos de oliveiras, papoulas e margaridas; os minaretes, as cegonhas e os burrinhos não haviam liberado a afetividade dos críticos, apenas sua memória fotográfica. O próprio Edmar achava que a paisagem era “o melhor no gênero”. Toda visão era comparada ao décor de um filme já visto. Eram passados em revista todos os filmes cuja ação ou locação situava-se no Marrocos, de Morocco (Marrocos, 1930), de Joseph von Sternberg, a The Man Who Knew Too Much (O homem que sabia demais, 1956), de Alfred Hitchcock.

A sensibilidade dos críticos estava dirigida para as semelhanças, as correlações, as analogias. E nada lhes era sagrado. Se Youssef mostrava-nos o que para ele era importante, belo e misterioso, de tudo isso os críticos se apressavam a escarnecer, demonstrando sua indiferença. Eu me divertia muito com o grupo, mas o narcisismo, entregue a si mesmo, tornava-se freqüentemente agressivo. À falta de um filme, objeto-espelho privilegiado, os críticos decalcavam suas vítimas da realidade. Para tirar-me da depressão, Edmar começou a contar-me como, crescendo no interior de Minas, abandonado pela família, e dotado desde cedo de uma sensibilidade doentia, encontrava consolo em viver no pasto, com os animais da roça: “Fui boi, e também me apaixonei por uma ovelha.” E me enternecia narrando seu passado zoomórfico, sua infância zoofílica.

Em Meknes vimos o belo Portal de Challah, do século XIV, as portas monumentais de Bab Mansour, Bab Berdaine, Bab Jamaa Ennouar e Bab Khémis. Depois, o túmulo de Moulay Ismäes, segundo soberano da dinastia alauita. Foi uma espécie de Rei Sol do Marrocos, sonhando em casar-se com a filha de Luís XIV, enquanto se incumbia de decapitar pessoalmente os seus escravos. Ele teria gerado 800 filhos e construído inúmeros palácios para abrigar seu harém. Seus restos mortais encontram-se dentro da única mesquita acessível aos não-muçulmanos. Passando pela Bacia de Agdal, que irrigava os jardins do palácio, pelo Estábulo que – dizem – abrigava 12 mil cavalos, e pelo imenso e sinistro depósito de cereais, tenho a impressão de penetrar na pousada de um gigante. Enfim, mergulhamos no caos da Praça El Hedim, e voltamos para o hotel, sob o protesto das duas jornalistas insuportáveis e de Maria Emília, que ansiavam por estranhas aventuras nas vielas da cidade antiga.

Logo fomos surpreendidos com a pior notícia que eu poderia ouvir: como ocorria uma “reunião de líderes árabes” em Fez, o passeio a essa cidade, que estava programado no roteiro de nossas excursões, fora cancelado. Numa medida totalitária, especialmente revoltante para mim, que aguardava ansiosamente conhecer a universidade mais antiga do mundo, as autoridades simplesmente fecharam a cidade aos estrangeiros. Fiquei a imaginar que reunião levaria um governo a impedir, sem qualquer consideração para com os turistas que visitavam o país, o acesso a uma cidade histórica da importância de Fez.

No dia seguinte, fomos recompensados com uma visita às ruínas romanas de Volubilis. Era mais um episódio na história das conquistas sofridas pelo Marrocos. O país fez parte do império cartaginês, transformou-se na província da Mauritânia sob os romanos, foi tomado pelos árabes, declarou independência em 788, com várias tribos unificadas no século X pelos almorávidas até o século XV, quando portugueses e espanhóis apossaram-se de seus portos, só reconquistados no século XVII, para serem novamente perdidos para os franceses, até o início do século XX.

Volubilis é uma cidade-ruína. Segundo o guia local, ela foi soterrada pelo mesmo terremoto que arrasou Lisboa no ano de 1755. A população de dez mil pessoas sucumbiu. Nomeada com o nome de uma flor – volubilis – era uma cidade de luxo e conforto, com um grande arco, termas, banhos públicos, vomitórios, edifícios com mosaicos coloridos e dezenas de estátuas, das quais só restam os pedestais. Assistir ao por do sol em meio às ruínas de Volubilis foi uma experiência fascinante, mesmo para a endurecida crítica.

A caminho de Marrakesh, Youssef fornece-nos uma longa explicação – ele não perdeu o hábito de falar como matraca – sobre o casamento no Marrocos. No casamento tradicional, ao atingir 17 ou 18 anos, o filho diz para a mãe que quer se casar. Esta comunica a decisão ao pai, que procura o pai da moça que ele julga apropriada. Com uma troca de presentes, dá-se o pedido oficial. O espelho é um bom presente para as noivas: quanto mais rico o casamento, mais espelhos a noiva ganha para decorar seu quarto. Depois de uma semana de visitações entre os parentes, chega o grande dia, quando o noivo conhecerá sua futura esposa. Mas é só depois de consumado o ato sexual que ela pode tirar o véu e revelar seu rosto ao marido. É preciso então exibir às famílias o sangue no lençol. À vista desta prova de sucesso, as mulheres cantam com a língua a honra comprovada da família. Se isso não ocorre há escândalo e guerra tribal. Entre os berberes e montanheses, esse tipo de casamento ainda é bastante praticado. No casamento marroquino moderno, os ritos tendem a transformar-se em festas. Mas que ninguém se engane: os regulamentos continuam tão rígidos quanto nos casamentos mais tradicionais.

Marrakesh deslumbra à primeira vista por ser uma cidade toda ocre. Muralhas erigidas no século XI ainda a protegem por treze quilômetros. O minarete da Kutubia, de 67 metros, com um desenho diferente em cada uma das quatro faces, domina a paisagem. No palácio Bahia há alguns dos mais belos interiores em estilo almorávida. Visitamos o mausoléu da família real saadiana, do século XVI, mas, ao penetrarmos na necrópole por sinistros corredores estreitos, Rubens tem um acesso de tédio e decide voltar para dentro do ônibus, onde permanece lendo, ensimesmado, sua revista Première.

A guia local explica que cada dinastia transferia a capital para uma cidade diferente: no século X, os almorávidas passam a sede do governo de Fez para Marrakesh; no século XIII, os merinidas a transferem de novo para Fez; no século XV, os saadianos reelegem Marrakesh; depois, os alauítas preferem Meknes. Também cada dinastia destruía – verdadeira barbárie – os monumentos da dinastia anterior, por mais belos que fossem os edifícios, construindo os seus sobre as ruínas. Só as tumbas dos ex-soberanos eram poupadas. Por isso restam poucos exemplos de cada estilo arquitetônico.

À noite, percorro com Edmar e Toninho uma avenida tenebrosa, onde só se avistam de ponta a ponta, os retratos iluminados do rei Hassan II, afixados, poste sim, poste não, até o infinito, num anacrônico culto à personalidade. Caminho por esse horror de braço dado a Toninho, como dois marroquinos, notando a expressão de infelicidade no rosto de Edmar. Mais tarde, ele me confessa sentir inveja de todos os prazeres alheios. Por isso, à noite, quer me tirar para dançar na boate do Hotel. Sem a menor vontade de dançar, declino do convite. Rubens tira para dançar cada uma das jornalistas sem atrativos, e Geraldo lhe diz, à parte: “Hum… Você só pega mulheres sensuais!”. E assim a noite se esvai.

O almoço típico em tenda árabe, com um show de “Folclore e Fantasia” a convite do Club Mediterrané ultrapassa os limites do ridículo, A chamada “Fantasia” é uma espécie de Disneylândia das Arábias. Originalmente, devia ser uma encenação épica sobre as origens do povo e a unificação das tribos, Agora, tudo se passa ao som do Bolero de Ravel, e a cavalgada dos guerreiros é acompanhada de um comentário “poético” nauseante. Salva-se a comida, apesar da necessidade de se usar as mãos. Os grupos folclóricos cantam e dançam durante o almoço, repetindo versos em homenagem ao rei.

Visita ao mercado: um labirinto do qual não se sai enquanto não se gasta até o último dirham. Contam que um turista ali se separou da esposa loira e nunca mais a encontrou. O detalhe da cor dos cabelos da mulher serve para dar verossimilhança à lenda… Mas o mercado parece, de fato, ser um palco onde se perpetram todos os crimes. Na Praça Djema el F’na, perco-me do grupo, atraído por uma moça berbere, coberta por um véu lilás, que me leva, hipnotizado, para sua alcova. Perdido na multidão, eu a sigo sem avistar meus companheiros de viagem. Já começo a me sentir inquieto quando o pai da moça propõe-me a compra de haxixe. Digo-lhe que não estou interessado, mas que meus amigos estavam. Ele então me leva de volta ao grupo e posso dizer triunfante a Edmar e Nelson: “Encontrei o homem do haxixe!”. Os dois, que só falavam disso a viagem inteira, empalidecem. Não esperavam por esse serviço de delivery.

Logo depois, Edmar, sentado ao meu lado no bar diante da praça, disse-me contente: “Me encantam as pessoas que vêem para vá, se drogam, e ficam por aqui, se destruindo lentamente. Os Guarás que ficaram!”. Eu engolia meu chá de menta, que fizera Edmar pagar pelos serviços prestados, refletindo até que ponto a droga e o sexo não eram, no Marrocos, apenas dois chamarizes míticos para atrair turísticos. Eu não via nada parecido aqui com a decadência evocada em certos filmes, nem percebia o erotismo decantado pelos escritores homossexuais, de André Gide a Pier Paolo Pasolini, de Joe Orton a Jean Genet. Mesmo Elias Canetti precisou recorrer a uma história de alcova para registrar algo de mais excitante em As vozes de Marrakesh.

Os homens marroquinos amavam-se mais do que o comum: os jovens sempre andavam abraçados. Mas isso se explicava por uma fraternidade ostensiva contra os pais autoritários. No Marrocos, é o pai quem educa o filho para que herde seu nome, obrigando-o ao respeito das tradições. A educação é severa, implicando em surras com vara. Por isso o filho só ama a mãe, a quem pede dinheiro. O pai é uma besta negra, um monstro. Daí o apego aos amigos: vimos até dois jovens na estrada, cada um na sua bicicleta, agarrados um ao outro, sob o risco de caírem de seus veículos. Mas essa amizade masculina não se expande para o terreno da sexualidade, que permanece o maior tabu, nem diminui o machismo dos homens marroquinos: sob o pretexto de serem sagradas, as mulheres sofrem as maiores restrições sociais.

Levamos quase quatro horas na viagem de Marrakesh a Ouarzazate. Pouco a pouco, fui sendo tomado pela angústia do deserto. As paisagens sem cor, sem vida, sem gente ofereciam apenas a visão árida de montanhas de pedras. Aqui e ali casas de argila, pastores de ovelhas, meninos conduzindo camelos. Geraldo, que insistia desde São Paulo em ser fotografado junto a um camelo, ficou radiante ao avistar os bichos. Paramos para as fotos. Mais tarde, ele ainda nos mostrava um postal de camelos que encontrara numa tabacaria: “Um camelal”, exclamava, sorrindo como uma criança.

Admirei a beleza dos Atlas, vistos pela estrada sinuosa de 1675 curvas, a uma altura de mais de mil metros, que, sem nenhuma proteção, nosso motorista percorria, impassível diante dos abismos e dos precipícios. Rubens comentou: “Só falta o Fonseca ser o único sobrevivente!”. As curvas fechadas, a conversa sussurrada, o fumo que impregna o ar já rarefeito e a música árabe repetitiva que Youssef insiste em colocar no seu gravador – tudo me enjoava. Eu via os cactos subindo pelas montanhas, as cabras sustentando-se nas escarpas e os montanheses recostados nos casebres de argila e palha de trigo como restos de vida que se agarravam aonde podiam, até se extinguirem completamente. Tinha a impressão de um vazio devorando tudo, e subitamente percebi o efeito das miragens. Elas vinham como uma projeção da consciência evocada pelo vazio, como as últimas reservas da imaginação que não queria acabar assim.

Chegar a Ouarzazate foi como chegar a um oásis. As casas ocres, as construções em arcos, aquela pequena civilização germinando com seus bares, cinemas e hotéis – essa aparição de algo no meio do nada revigora os sentidos. No hotel Club Karam turistas francesas em topless tomam sol numa indolência generalizada. Olho um canteiro de flores e vejo a terra rachada: “Flores esturricadas!”, comenta Geraldo. As pessoas vêem no inverno de Paris para Ouarzazate em vôos diretos, em busca do sol. Não há nada a fazer aqui, exceto tomar sol. Eu procuro em vão um companheiro de escândalo.

Depois do almoço, visitamos a Kasbah do século XVIII, feita de argila e palha, que guarda o calor. Ali, as mulheres só podiam observar os espetáculos que se davam no pátio através das grades das janelas. O quarto da favorita é sempre o mais ricamente decorado, assim como o seu túmulo. Nesta Kasbah, há um curioso “interfone” – uma espécie de encanamento retangular que fazia o som ecoar através dos cômodos – através do qual o paxá falava de um andar a outro. Já que lamentavelmente não nos foi permitido conhecer Fez, chegamos, enfim, ao ponto mais fantástico de nossa visita ao país: uma Kasbah antiqüíssima e monumental erguida no deserto, como se, durante alguma noite mágica, a terra tivesse sonhado, e esse sonho se tivesse tornado realidade.

Ao voltarmos de Ouarzazate, passamos por um grupo de pessoas que observavam o infinito. Imaginamos que elas olhavam as estrelas e pusemos também a mirar o firmamento, enquanto Rubens puxava um cordão musical entoando sucessos da Bossa Nova. Mais tarde soubemos que naquele trecho da estrada caíra um ônibus carregado de turistas franceses: todos haviam morrido.  As pessoas não estavam mirando estrelas, mas cadáveres destroçados.

Chegou, enfim, a minha vez de passar mal. Embora comendo pouco, à noite tenho vômitos e diarréias. Desço às três da manhã até a portaria do hotel. O responsável diz que está desolado, mas não tem remédio. Como desolação não cura, uma ânsia incontrolável me leva a sujar o tapete. O atendente resolve então chamar o médico, que chega meia hora depois. Trata-se, na verdade, de um jovem residente, que queria dar-me uma injeção usando uma seringa velha e usada, sem ter sequer álcool e algodão. Propõe usar meu perfume francês como desinfetante. Como a idéia não me entusiasma, receita-me comprimidos e cobra-me 20 dólares pela visita. Promete voltar se eu não melhorar.

Uma hora depois, os fluidos do meu corpo recomeçam a fugir. Olho para o espelho e vejo um fantasma. Torno a chamar o residente. Ele agora traz álcool, algodão e uma seringa descartável (que deve ter comprado com parte dos meus 20 dólares). Mas sem aquela borrachinha para pressionar minha veia, faz força com as mãos. Espeta primeiro meu braço direito, depois o esquerdo, à procura de uma veia, em vão. Eu sangrava e tinha os braços arroxeados. Abatido, eu reclamava em francês, sentindo-me como um junkie agonizando depois da última picada. Tudo tinha para mim o sentido horrível de uma iniciação.

Com o infarto de Fonseca, a diarréia generalizada, a estrada à beira do abismo e a minha forte intoxicação, Rubens começou a desenvolver uma teoria conspiratória. “Querem acabar com a crítica! Envenenaram a comida, levaram-nos à estrada mais perigosa. E agora, qual será o próximo passo?”. Havia algum temor real na piada: Rubens era tremendamente supersticioso: à mesa, jamais passava o sal a outra pessoa, “para não secá-la”; ficou assustado quando, no almoço, contou treze à mesa, logo se aliviando com a lembrança de que a desgraça só ocorria ao mais velho ou ao mais novo, estando ele fora de perigo. A melhor definição de Rubens havia sido dada por Edmar: “Adoro o Rubens, mas ele é um turista da condição humana. Nunca mergulha fundo, nunca se perde no vício.”. Da mesma forma, a melhor definição de Edmar fora dada por Rubens: ”Adoro o Edmar, mas quando ele cisma com alguma coisa, começa a inventar teorias absurdas, que defende com uma coerência absoluta, e se você as contesta, ele inventa teorias ainda mais absurdas.”

No ônibus a caminho de Casablanca sento-me ao lado de Maria Emilia. Entre uma gargalhada e outra, ela nos transmitia informações corriqueiras como se fossem segredos de Estado. Pessimista, achava sempre que o pior estava para acontecer. Também recebia todas as broncas do grupo e, como um pára-raios, vivia num estado de tensão e desânimo permanentes. Só o sexo poderia aliviá-la. Mas ela tentava em vão. “Voltarei pura para o Rio”, não cansava de se queixar, entre risadas histéricas. O jovem repórter do Estado esperava sempre Maria Emília aparecer para o jantar com medo nos olhos: “Ih…!”, dizia-me, “a Maria Emília vai chegar toda emperiquitada!”. De fato, depois de uma excursão exaustiva, ela retornava refeita, num outro modelo verde de pano áspero, enforcada num colar de metal brilhoso, que lhe caí até os joelhos. Outra noite, voltando para o quarto, Geraldo e eu tomávamos o elevador quando ela veio correndo atrás de nós, tentando nos alcançar: “Esperem por mim…!”. Mais que depressa, Geraldo sussurrou: “Nem morta!”, pressionando com força o botão que fechava a porta.

No ônibus a caminho de Casablanca, sentada a meu lado Maria Emília me fala do Papa João XXIII e do dia em que quase foi violentada em Roma; de suas dores de rins e de seu desejo de ser seduzida por um milionário; das orações que os muçulmanos são obrigados a fazer e de suas íntimas fantasias eróticas; no auge da carência, ela me confessa de repente, num gemido entrecortado de risos nervosos: ”Eu já não sei quem sou!”.

Casablanca é uma cidade moderna, mas não deixa de ter seu encanto. Todas as edificações são como indica seu nome: de cor branca. É um entreposto comercial, com bairros residenciais luxuosos. Há um palácio enorme com uma passagem subterrânea de sete quilômetros que dá diretamente numa praia particular. O mar é bravio, há poucas margens para os banhistas. Mas os cafés a beira-mar são mistos e agradáveis. Passo por Casablanca como que por um sonho. Ainda enfraquecido, sou apenas a sombra de mim mesmo. Mas ao tirar fotografias num lambe-lambe da Praça das Nações Unidas, sinto-me revigorado. Edmar comenta: “O Nazario se recuperou depressa!”. Depois, achando-me bem em todas as fotos, exclamou no ônibus: “O Luiz Nazario é a Sônia Braga! Nas fotos ele fica alto, bonito…”. (Mais tarde mostrei a meu irmão médico a receita do remédio que o residente marroquino me injetou: ele me disse que a dose seria mais indicada para curar um cavalo…).

No mercado popular, compro caftans típicas, almofadas, tapetes e maravilhosas caixinhas de madeira marchetada. No hotel adquiro o Corão na edição da Pléiade para entender essa estranha religião que mantém os povos que a adotam numa eterna Idade Média. Em toda parte, constato a verdade de uma observação de Youssef: as pessoas aqui são pobres, mas não miseráveis. Há lugares onde se pode comer e beber por um dirham. Assim, ninguém morre de fome. E essa perspectiva alegra o povo. Não se vê, mas ruas, o espetáculo da gente-trapo se decompondo nas sarjetas, tão familiar entre nós. Os marroquinos trabalham pouco e se divertem na pobreza. Por isso tampouco há progresso…

Em nosso último almoço, Geraldo observa que, na outra mesa, as jornalistas de turismo estão se divertindo muito, e pela primeira vez parecem mais alegres que nós. “Não podemos ficar por baixo”, argumenta. E, subitamente, começamos todos a rir sem motivo, numa hilaridade que começou por provocação e terminou incontrolável. Toninho, que não ouviu a proposta, fica aflito por ter perdido a piada. É difícil explicar-lhe que, aqui, a piada é o nosso próprio riso orquestrado.

De volta a São Paulo, concluo ter feito uma viagem programada do começo ao fim, sem surpresas nem explorações pessoais. Mas uma frase de Kathleen Turner, explicando como foi rodar as engraçadas cenas da corrida de trem em As jóias do Nilo, no Marrocos, onde a vemos balançando as pernas, dependurada num vagão, acaba por me livrar de todas as decepções: “É claro que eu estava amarrada por uma porção de cordas e não havia perigo de cair. Mas depois você volta para casa e se pergunta se todo mundo faz esse tipo de coisa.”.

Luiz Nazario e Antonio Gonçalves Filho em Casablanca. Foto: Lambe-lambe.