Arquivo do mês: abril 2013

MARKETING NO CINEMA

Morgan

The Greatest Movie Ever Sold (2011), de Morgan Spurlock.

Do ponto de vista econômico, a indústria do cinema tornou-se cada vez mais agressiva na conquista do público, até que Hollywood açambarcou praticamente todo o mercado mundial do filme. As estratégias de marketing não são novidade no mundo do cinema; a novidade é que, hoje, o marketing torna-se massivo, agressivo, dominante.

Na publicidade, a nova estratégia ganha o sugestivo nome de marketing de guerrilha. Como observou Naomi Klein, em No Logo, os anunciantes estão estendendo seus tentáculos como nunca, comercializando espaços públicos, contratando celebridades, encontrando maneiras inusitadas de atrair grupos minoritários, comunidades étnicas, nichos e segmentos, atingindo a todos.

Durante uma Maratona de Nova York, a Nike vestiu pessoas com lençóis e placas-sanduíche proclamando “O fim está próximo”. A Mattel pintou uma rua inteira de cor-de-rosa para promover a boneca Barbie. No Natal de 2002, um sítio na Internet promoveu-se deixando oito mil carteiras nas calçadas de Manhattan com um cartão com seu endereço virtual. A Pizza Hut colocou um anúncio de US$ 1,25 milhões em um lançador de foguetes Próton da agência espacial russa. A Coca-Cola pensou em projetar sua logomarca na Lua…

A globalização, junto ao marketing de guerrilha, produz um empobrecimento do imaginário. Outrora, uma viagem à Europa podia significar a descoberta de uma cultura de massa européia; hoje, nas grandes salas daquele continente, assiste-se aos mesmos blockbusters americanos em exibição em Nova York, São Paulo, Singapura ou Tel-Aviv.

Já a nouvelle-vague representou uma decadência do grande cinema francês: Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Louis Malle, François Truffaut, Claude Chabrol, Alain Resnais e Jacques Demy produziram, em seus melhores momentos, obras notáveis, mas não atingiram o mesmo nível estético das obras-primas de Jean Renoir, Jacques Becker, Robert Bresson, Julien Duvivier, Jean Grémillon, Henri-Georges Clouzot ou Jacques Tati.

Das novas promessas do cinema europeu, apenas Andrej Zulawski, Kristoph Zanussi, Krzysztof Kieslowski, Raul Ruiz, Pedro Almodóvar, Lars von Trier e Aleksander Sukoróv demonstraram possuir fôlego. A União Européia projeta um cinema de massa nos moldes do cinema americano; dificilmente novos autores nascerão da empreitada.

Que esperar de um cinema europeu unificado? Hoje, com raras exceções, os filmes europeus mostram-se aborrecidos, sem humor, politizados e mórbidos; a manter-se neste rumo, o cinema europeu do século XXI poderá satisfazer apenas um público vazio, pomposo, arrogante e depressivo com imagens cada vez mais escuras, a ponto de não se enxergar nem atores, nem cenários, nem paisagens: diálogos intermináveis gemidos nas sombras.

O triunfo do cinema americano não significa, por outro lado, o triunfo de suas qualidades. Hollywood entrou numa decadência estarrecedora. Tal como a publicidade, que explora as regiões inconscientes da mente do público, o cinema americano mostra-se cada vez mais um instrumento de propaganda.

Através do merchandising, os mais diversos produtos são anunciados nos filmes de sucesso como se o espectador não passasse de um consumidor em tempo integral. Nem em seu tradicional refúgio pode ele agora se livrar do totalitarismo das marcas: como se não bastassem os anúncios que precedem o filme, o espectador passou a ser bombardeado com anúncios disfarçados dentro dos próprios filmes.

Hoje, sequências inteiras dos blockbusters são criadas para merchandising videoclipes dos sucessos de bilheteria criados para vender sua trilha sonora. A indústria cultural de que falou Adorno ficou para trás. Hoje vivemos num conglomerado de rizomas, onde cada filme produzido constitui ele mesmo uma indústria cultural, que se eterniza através de seus subprodutos.

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SHOAH

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Depoimento dado à repórter Elemara Duarte, parcialmente publicado no jornal Hoje em Dia, a 2 de abril de 2013, a propósito do debate sobre o filme Shoah, lançado em caixa com cinco DVDs, a 4 de abril de 2013, na Sala Humberto Mauro, em Belo Horizonte.

Por que e por quem Shoah é considerado o filme “mais importante sobre o Holocausto”?

Shoah (1974-1985), de Claude Lanzmann, é considerado pela maioria dos historiadores como o filme mais importante sobre o Holocausto, por ser a primeira investigação cinematográfica profunda sobre o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra, depois dos curtas-metragens Nuit et Brouillard (1955), de Alain Resnais, e In Thy Blood Live (1962), de David Perlov. O longo documentário de Lanzmann não se limita a entrevistar as vítimas sobreviventes, mas também os carrascos, os colaboradores ativos e os observadores indiferentes, além de contar com a assessoria do maior historiador do Holocausto, Raul Hilberg, autor do primeiro estudo sobre o tema, A destruição dos judeus da Europa, livro monumental, finalizado em 1955, e que levou anos até ser aceito pelos editores para ser publicado, em 1961, pois falar do Holocausto ainda era tabu. Foi  somente a partir da minissérie de TV Holocausto (1978) que o tema se popularizou. O filme foi na época muito criticado por banalizar o Holocausto, o que Shoah não faz de modo algum, recusando usar imagens de arquivo, mantendo o espectador sempre no presente, a imaginar o que aconteceu no passado, nos campos de extermínio montados na Polônia.

Quando e como foi a preparação e a repercussão na exibição do filme no Rio, na primeira vez?

Não sei, eu morava em São Paulo, na época. O filme só havia sido exibido no Rio, e eu esperava que fosse exibido na minha cidade. Mas os anos se passavam, e nada. Então tentei descobrir o porque. Uma amiga da comunidade judaica me disse que a Federação do Rio estava brigada com a de São Paulo, e não se conversavam. Então, eu me ofereci como mediador para poder trazer o filme a São Paulo. Fiz papel de diplomata e entrei em contato com a Federação do Rio, que possuía uma cópia do filme, ao que parece doada pelo próprio Lanzmann. Como se tratava de uma exibição sem finalidade comercial, organizei um seminário, com apoio do Instituto Goethe e das entidades judaicas, convidando historiadores e psicanalistas para um evento que incluía exibições de outros filmes sobre o tema. Como eu era crítico de cinema da Revista Isto É, na época, consegui, através de meus contatos com exibidores, o Cine Majestic, na Rua Augusta, para a exibição de Shoah, que ficou uma ou duas semanas em cartaz.

Há algum entrevistado com ligação com o Brasil (parentes, descendentes aqui, etc)?

Não creio. Mas Shoah foi co-editado pela então jovem israelense Yael Perlov, filha do brasileiro David Perlov, que nasceu no Rio de Janeiro, morou em Belo Horizonte e em São Paulo, depois se estabeleceu em Paris, como artista plástico, descobrindo o cinema ao trabalhar na Cinemateca Francesa como assistente de Henri Langlois. Ele imigrou depois para Israel, onde se tornou um dos principais nomes do cinema israelense e um dos criadores do Departamento de Filme e TV da Universidade de Tel Aviv. Ele filmou algumas cenas com Yael editando Shoah, que aparecem num dos filmes da série Yoman / Diaries (Diários, 1983).

Você sabe por que Claude Lanzmann optou por fazer um documentário tão longo? Hoje, aos 88 anos, ele ainda trabalha com Cinema? O que ele faz, onde vive?

Bem, a enormidade do evento exigiu uma investigação condizente. Não se pode descrever detalhadamente em duas horas o genocídio de um povo, desde as primeiras medidas de perseguição em 1933, até a criação da indústria de extermínio em massa, funcionando de 1941 até o fim da guerra. Lanzmann passou onze anos de sua vida produzindo o filme: seis anos gravando 350 horas de entrevistas em quatorze diferentes países e mais cinco anos reduzindo todo o material filmado às nove horas e meia da edição final. Lanzmann lançou recentemente suas memórias, Le Lièvre de Patagonie (A lebre da Patagônia, 2009), e creio que ainda edita a revista Les Temps Modernes, criada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, cargo que assumiu com a morte de Simone, em 1986, há 27 anos.

Em MG, há uma comunidade judaica bem pequena em relação a outros estados, como SP, o que talvez proporcionaria um público mais ligado sentimentalmente ao assunto. Ainda assim, pelos trechos que vi no YouTube há pouco, percebi que há uma imensidade e grandiosidade de valores universais abordados na obra. Você poderia falar dessas “lições de vida” que o filme mostra.

A ideia mais forte de Shoah é a indiferença dos não-judeus em relação ao Holocausto. O antissemitismo é uma fobia que independe do que os judeus façam ou deixem de fazer. O Holocausto pesa na consciência dos cristãos da Europa, devorados por um ódio irracional que se cristalizou no nazismo, que também era anticristão. Os judeus foram abandonados pelo mundo, que pouco se importou com seu genocídio. Outros grupos também foram perseguidos e exterminados, como os ciganos, os homossexuais, os Testemunhas de Jeová. Mas não havia um plano nazista para eliminar da face da Terra todos os ciganos, homossexuais ou Testemunhas de Jeová, como havia um plano nazista para exterminar todos os judeus, desde a legislação específica, passando pela propaganda dirigida e culminando com a criação do Museu da Raça Extinta. Não se pode mais falar em valores universais depois do Holocausto. Os homens não são iguais, mas diferentes, e iguais apenas quando assumem e relevam suas diferenças.

Para você, qual é o maior ensinamento que o filme traz?

Que os judeus, que sempre foram perseguidos na Diáspora por outros povos, depois de terem perdido seu Estado, com a reconquista de Israel, após o Holocausto, não podem mais ser eliminados impunemente. Os judeus não irão mais para o matadouro sem lutar. Antes de Shoah, Lanzmann fez um belo documentário sobre Israel, Porquoi Israel? (Por que Israel?, 1973), que pode ser visto, retrospectivamente, como a conclusão de sua saga. Um segundo Holocausto, agora atômico, pode ocorrer, já que lideranças islâmicas pregam o extermínio de Israel e, após o trauma do Holocausto, o mundo todo sublimou e transferiu para o Estado Judeu o ódio que dedicava ao Judeu. Mas os israelenses seguem o exemplo do Levante do Gueto de Varsóvia. O sequestro de Eichmann, refugiado na Argentina, para ser julgado em Jerusalém pelo genocídio que ajudou a organizar, foi tão exemplar quanto as sucessivas vitórias de Israel nas guerras travadas contra os países árabes que o cercam. Hoje os palestinos, divididos, criam grupos armados de resistência que se apresentam como “novos sionistas”, tomando os israelenses por nazistas, assim justificando seus atentados. Mas é uma contradição em termos: os “novos” sionistas não podem reivindicar o direito ao Estado Palestino se não reconhecem aos “velhos” sionistas imitados o direito deles ao Estado Judeu.