CHRISTOPHER LARKIN

A Very Natural Thing (Algo muito natural, EUA, 1974, 80’, drama). Direção: Christopher Larkin. Com Robert Joel, Curt Gareth, Bo White, Anthony McKay, Marilyn Meyers.

Jovens entrevistados na Gay Pride de Nova York, em 1973, declaram seu orgulho de ser o que são e a alegria em encontrar outros como eles diante da  nova possibilidade de viver uma vida sem mentiras. Uma jovem lésbica conclui os depoimentos declarando: “Ser gay é uma coisa muito natural.” A narrativa propriamente começa com David (Robert Joel), um jovem monge, despedindo-se dos colegas, deixando o mosteiro para viver abertamente sua sexualidade na cidade grande. Dando aulas de literatura inglesa, ele vive em Nova York a efervescência da Gay Liberation.

Numa boate, David apaixona-se à primeira vista por Mark (Curt Gareth). Embora esse empresário bissexual com preferência por homens não compartilhe de sua visão romântica do amor, acaba aceitando viver com David. As coisas só vão bem por algum tempo. Logo as diferentes visões de mundo levam os amantes a um impasse. Mark quer sexo sem juras nem compromissos, David quer sexo com fidelidade e romantismo. Numa das crises do casal, David tenta seguir Mark aventurando-se em orgias. Mas não consegue manter relações promíscuas. Separam-se.

David passa a viver sozinho, na esperança de encontrar um amor verdadeiro. Durante a Gay Pride, cruza com um jovem fotógrafo e militante, Jason (Bo White). Discutem a importância ou não do movimento no sentido de mudar a sociedade. Logo Jason se declara apaixonado e propõe a David uma relação estável. Mas agora é David quem hesita, pois não deseja repetir a experiência que teve com Mark. Acaba recusando a vida compartilhada. Mas o rapaz, que acabou de se separar da esposa, e é pai de um filho ainda pequeno, mostra-se decidido: o filme termina numa imagem idílica dos dois novos parceiros correndo, nus, em direção ao mar azul, à sonhada felicidade.

A narrativa é toda intercalada com depoimentos reais de homossexuais declarando seu orgulho de ser gay, mesclando a ficção à realidade. O filme ganha a dimensão de um documento de época. Os que nasceram na era pós-AIDS poderão se surpreender diante deste filme: o imaginário contemporâneo apagou completamente o espírito libertário que presidia o início do movimento homossexual, presente em cenas de um erotismo quase explícito, mas sem artificialidades, com atores não plastificados vivendo personagens toscos, feiosos, esquisitos, neuróticos, mesquinhos, pobres de espírito, como as pessoas – e os gays – de fato são, com raras exceções.

Mal recebido em sua época pelos homossexuais promíscuos e enragés, engajados na Gay Liberation, que o acusaram de “apoliticismo” e de “moralismo classe média”, o filme fracassou também comercialmente, não encontrando público algum que o prestigiasse. Hoje A Very Natural Thing é considerado pelos críticos como um clássico do cinema alternativo e o primeiro a ser realizado num estúdio americano por um diretor assumidamente gay. Mais que isso, é um dos raros documentos do breve período de liberdade vivido pelos homossexuais antes da AIDS. O diretor Christopher Larkin não pode ou não quis realizar nenhum outro filme, e se matou em 1988.

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